Raça autóctone ou raças rentáveis?

José Alberto, o pastor que não quer criar Cachena

Foi quase meia vida dedicada ao pastoreio de ovelhas e cabras. O lobo fê-lo mudar de ideias.
Depois dos últimos ataques do lobo ao rebanho, José Alberto Esteves, natural de Cubalhão (Melgaço), vendeu as mais de duzentas cabeças de gado caprino e ovino que tinha e começou a criar bovinos.
Para trás ficaram os anos em que o quase meio milhar de cabras e ovelhas subiam o monte e pastavam no extenso e farto monte de Cubalhão, tapada de Soengas ou Lamas de Mouro.

Hoje o mesmo monte serve de pasto às quarenta e cinco cabeças de gado bovino de raça Charolesa, Limousine, Minhota e Barrosã. “Apostei nestas raças e prefiro estas do que a Cachena. Um vitelo de Cachena, com quatro meses, o máximo que pode pesar serão cinquenta ou sessenta quilos e estes, em quatro meses, um vitelo bom vai sempre a cento e vinte ou cento e trinta quilos e o valor da venda é duas ou três vezes mais”, revela o criador, relegando para segundo plano a raça que, sendo autóctone e consequentemente mais beneficiada em termos de apoios à manutenção, não lhe dá o mesmo rendimento no momento da venda.

Gonçalo Esteves, o filho, brinca com a tranquilidade de um boi charolês, subindo-lhe para o dorso sem que o animal se espante ou esboce qualquer gesto de ameaça. “É uma raça mais tranquila e mais produtiva. E sempre ficam mais um bocado no monte, param sozinhas”, diz José Esteves.

DSC_4572A tapada de Soengas, uma extensa área de 99 hectares, tapada por um muro antigo, que a história atribui à freguesia de Cubalhão, garante o pasto, controlo da manada e até alguma protecção aos animais. Em contrapartida, o José Esteves limpa o monte, “para ter melhor pasto” e mantém a tapada.
Mas nem só da erva que brota do baldio se mantém a considerável exploração pecuária. Para prevenir os invernos mais rigorosos, José Esteves semeia mais de um hectare de milho, que dá aos animais ainda em espiga, partida ao meio. A isto junta-se a ração, porque “há dias em que não saem do barracão, nem querem sair”.

Sou capaz de ter mais despesa com estas do que alguns criadores têm com as Cachenas. São mais bravias, andam no monte, mas algumas passam muita fome. A comerem como deve ser, comem praticamente o mesmo”, atira.
Por outro lado, o preço da ração e o fim de algumas “quotas” que apoiavam a produção, tornaram o investimento mais avultado. “As rações são muito caras e agora acabaram com a quota das aleitantes, cortaram muito as ajudas”, lamenta.

Num momento em que Portugal procura caminhar para a auto-suficiência na produção de carne, Gonçalo Esteves, prestes a fazer 15 anos de idade, olha com menos encanto para o sector, embora admita gostar de tratar dos animais, quando disponível. “Acho que já foi mais rentável. Com a importação que há das carnes de fora, as nossas dão muito pouco”, nota o jovem.
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Leia a reportagem completa na edição de 01 de Maio do jornal, já nos quiosques.

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