“Os emigrantes não querem só festas e monumentos feios, querem ser reconhecidos pela sua história”

José Vieira já não é de um só sítio. Nasceu em Oliveira de Frades, mas partiu para França em 1965, onde a partir dos sete anos de idade viveu de perto todo o momento crítico da emigração portuguesa para aquele país. Viveu num bidonville (bairro de lata) durante cinco anos e quando ganhou distanciamento e experiência para o fazer, começou a filmar espaços e memórias dessa experiência, para trazer toda essa passagem comum da história de vida de milhares de portugueses à discussão.

Começou em 1985 e agora, nestas inúmeras viagens entre Portugal e França, já realizou cerca de trinta documentários onde a problemática da emigração é o mote e tem merecido a atenção dos canais televisivos franceses e dos festivais internacionais de cinema.

DSC_6033Em Melgaço, é já convidado residente. Na primeira edição, em 2014, apresentou cinco filmes do seu espólio. Em 2015 trouxe um (Souvenirs d’un Futur Radieux, de 2014) e se a pós-produção do seu último trabalho correr como previsto, para 2016 apresentará uma obra que explorará o sentimento de ausência dos emigrantes no pais da infância e a relação destes com a terra natal.

Estivemos à conversa com José Vieira, que não cobre de floreados o seu sentido de pertença – “Lá onde a gente está é que é o nosso país, aqui é outra coisa. Para mim, é o pais da minha infância – e pede uma atenção diferente à história de quem quer voltar, sem que se cubra só de festas e monumentos uma história que merece ser contada sem ruído.

“Eu vivi cinco anos num bairro de lata, perto de Paris, portanto grande parte do meu trabalho parte da memoria da vivência da minha família para tentar chegar a uma memoria colectiva da emigração. Cheguei em 65, vivi tudo isso em directo, mas não quero só recolher a memoria da minha família ou a minha, quero contar a história da emigração e para isso tive de ir buscar mais aos arquivos, aos documentos, ler coisas do que se passou. Senão fica só uma memória”, esclarece o realizador.

As reacções à sua obra não são unânimes. Há quem queira contar, mas também há quem queira deixar na nuvem do tempo a vida dos extensos bidonville. Agora, não há volta a dar, ainda que as recordações venham puxadas por lágrimas.

“Há sempre pessoas que querem esquecer. Havia pessoas que, quando chegaram à França, queriam ser franceses, não queriam mais ouvir falar de Portugal. Cada um reage como pode. Se tivesse feito este trabalho há vinte e cinco anos, era muito mais complicado, as pessoas não estavam prontas. Há pessoas que não são capazes de assumir o passado delas, têm vergonha da miséria e é preciso que entendam que a culpa não foi deles, foi da ditadura, foi a situação económica que os empurrou lá para fora”, analisa o realizador.

“Somos emigrantes lá e cá”

O filme documental de José Vieira, “A Fotografia Rasgada” (2001), foi em muitos lares a chave para a memória de quem já tinha fechado o passado a cadeados. “Houve jovens que compraram o filme e puseram os pais à frente, para eles por fim contarem a história deles, desbloquearem. A primeira reacção foi porem-se a chorar. Agora estamos num momento em que os emigrantes já querem contar e ser reconhecidos”, diz.

“Fazem-se por aí muitas festas para os emigrantes e essas coisas todas e acham que os emigrantes ficam contentes com isso, mas acho que se deve contar a história da emigração. Não custa tanto dinheiro como se possa pensar, é só uma questão de vontade política para falar disso e reconhecer. Não se trata de fazer monumentos aos emigrantes, como há por aí e muitas vezes são mais que feios, não tem piada nenhuma, trata-se de fazer história, com filmes, livros, fotografia. Somos emigrantes cá e lá, mas há um momento em que eles precisam de ser reconhecidos, pelo menos os emigrantes mais idosos. Eu por mim não me importa ser reconhecido, vivo cá e lá…”, conclui.

Captura de ecrã 2016-06-10, às 01.20.14

Fotograma do documentário “Souvenirs d’un Futur Radieux (2014)