CRÓNICA: “Sim, sou uma mulher do Minho!”

A autora

A autora

No outro dia, o senhor Vestinho (a alcunha do senhor Silvestre), com os seus quase 55 anos de idade, comentou: “a Mary é uma mulher do Minho.”

Ora, poucos dias antes disto tínhamos estado a falar de uma senhora conhecida nossa, semi-bruta, capaz de acartar um saco de batatas de trinta ou mais quilos, bonita mas não muito feminina, e ele também a caracterizou como sendo uma mulher do Norte. Portanto, quando o senhor Vestinho me disse que eu era uma mulher do Minho, eu ao mesmo tempo gostei, porque me orgulho de ter sangue minhoto, mas também me lembrei do que tínhamos falado da outra senhora conhecida, que não era tão ladylike.

Eu sou capaz de levantar um saco de 30 quilos de batatas. Todos os dias carrego pelo menos dois grandes sacos de legumes, quilos de farinha e de fruta, nas compras que faço para o “Saudade” e o senhor Vestinho já me observou varias vezes nesta tarefa. Não sei se ele me acha “bonita mas não muito feminina”… Na verdade, eu ainda não sei bem o que ele quer dizer quando diz que “a Mary é uma mulher do Minho”, mas despertou algo em mim, ao dizer aquilo.

Eu nasci nos Estados Unidos. Vivi lá até aos 29 anos de idade, no meio de uma comunidade portuguesa, minhota, que pretendia incutia nos filhos a ideia do “tu nasceste aqui, mas também pertences àquela aldeia serrana, estás a ver? Onde nós sachamos e semeamos e acartamos por essas serras o tojo e o fento para os animais, que também ajudavam produzir da terra comida para sobreviver…. Mas cantávamos, no meio de tanta miséria”.

Não, eu não esqueço. Está dentro de mim e o senhor Vestinho acordou em mim uma coisa tão boa, que com tanto trabalho e tanto barulho que me ronda há meses, estava adormecida. Talvez estivesse adormecida dentro de mim a minha vida inteira, se não fosse ele dizer-me isto. Incrível!

No livro da Maria Lamas, a mulher do Minho (rural) nos anos 1950 e 60 era uma mulher que teve de lutar muito. A mulher portuguesa sempre lutou por tudo o que queria, mas a mulher do Minho fazia isto em condições geograficamente difíceis. O Minho tem muitas serras e o isolamento era terrível, tal como em Trás-os Montes ou nas Beiras.

Os homens do Minho emigraram em massa, deixando-as sozinhas para criar a família e cuidar dos campos e casas. As mulheres do Minho trabalhavam no negócio do contrabando, plantavam árvores para o Plano Nacional de florestação, carregavam o fento, a lenha, o carvão e as crianças à cabeça. E queixavam se pouco. Isto era o normal. Era o dever delas. E pouco mais podiam ambicionar. A minha mãe é uma destas mulheres. Aos 21 anos realizou o sonho de emigrar para os Estados Unidos da America.

As vezes quando estou a falar com gente portuguesa, eles perguntam: “Não é de cá, pois não?” “Não, sou filha de pais minhotos de Boston”, respondo. “Ah, pois, nota-se no sotaque!”.

No outro dia perguntaram me: “A Mary não tem frio? Anda aí com o peito destapado… Deve ser do Minho, não?”. Eu parei um segundo, sorri, respondi que sim e para mim pensei: “Sim, sou uma mulher do Minho!”.

Mary Pereira
Proprietária do “Café Saudade”, Sintra