Minhoto perseguido em Portugal, foi dirigente da segunda maior cidade da Rússia

José Milhazes conta-nos como um minhoto perseguido em Portugal chegou a dirigir a cidade russa de São Petersburgo

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José Milhazes

O nome dispensa apresentações extensas. José Milhazes é jornalista, historiador e o incontornável “correspondente em Moscovo” de vários meios de comunicação portugueses que acompanhavam pelo seu olhar as transformações que a Rússia sofreu, sobretudo na última década do século XX.

Há pouco mais de um ano, lançou o livro “O Favorito Português de Pedro O Grande”, uma obra que destacamos nestas páginas, não pelas capacidades de escrita do autor (embora não duvidemos delas), mas pelas origens do misterioso “favorito” de Pedro O Grande, António Manuel Luís de Vieira, um minhoto que conquistou a sua parte do “Império”.

A obra apresenta-se, em síntese, desta forma:

«Não devem ter sido muitos os portugueses que deixaram um rasto tão forte na história de países estrangeiros como o que António Manuel Luís de Vieira e alguns dos seus descendentes conseguiram nos destinos da Rússia. Apesar da sua modesta origem social e de ter contra si o facto de ser um judeu de origem portuguesa, conseguiu uma carreira brilhante no Império Russo».

Sabe-se pouco das suas origens, apenas que teve de fugir e Portugal e que viria a morrer em São Petersburgo em 1745, mas o ideal será o leitor fazer como geralmente se recomenda aos filmes, não pesquisar muito sobre a vida deste proeminente minhoto e deixar-se levar pela história e trabalho de pesquisa de José Milhazes, já que o historiador traça a vida e obra de António Manuel Luís de Vieira e ainda a descendência até aos dias de hoje.

A este propósito, e sem desvendar muito o mistério em torno de António de Vieira, colocamos algumas questões ao autor sobre as origens, as conquistas e até um entendimento do que a personalidade estudada teria do mundo de hoje, à luz dos últimos acontecimentos que, curiosamente colocaram recentemente um português e um russo na lista de tópicos quentes das discussões políticas.

A Voz de Melgaço (AVM) – Em linhas gerais, quem foi António Manuel Luís de Vieira, este homem tão poderoso ou com tanta influência o meio político da Rússia no início do século XVIII?

José Milhazes (JM) – António Vieira foi um daqueles que assessorou o czar Pedro O Grande na modernização da Rússia. Dotado de grandes capacidades intelectuais e organizativas, dirigiu a cidade de São Petersburgo, foi um militar corajoso e um homem impermeável à corrupção.

AVM – Tal como faz referência na obra, António Vieira era de origens modestas, um judeu de origens minhotas. O que se sabe destas origens?

JM – Pouco se sabe das suas origens, mas é um facto de que nasceu no Minho e teve de sair de Portugal com os pais devido às perseguições religiosas.

AVM – No processo de pesquisa para este livro, certamente ficou a “conhecer” bem esta figura importante da sociedade russa. Que diria ele da Rússia de hoje e da relação deste país com o mundo?

JM – Ficaria muito espantado com o nível de corrupção na Rússia e no seu país de origem. Talvez fosse adepto de uma política externa menos agressiva e mais inteligente do que a realizada pelo Presidente Putin.

AVM – Certamente, este não era um português que venderia os segredos do seu país de origem e à altura, Portugal teria segredos mais valiosos…

JM – Acho que os não venderia. António Vieira era uma pessoa bastante íntegra e tentaram comprá-lo, mas não conseguiram.

AVM – Enquanto profundo conhecedor da situação russa, o mundo deve temer esta Rússia que parece ser uma ameaça latente, ou é apenas um bluff para evitar o escrutínio do ‘mundo’ ocidental?

JM – Devemos estar muito atentos à política dos actuais dirigentes russos, pois é uma ameaça real, embora muitas das declarações por eles pronunciadas sejam bluff.

AVM – Ainda em relação ao livro “O Favorito Português de Pedro O Grande”, fez alguma apresentação no Minho?

JM – Lancei esse livro em Lisboa e Póvoa de Varzim, minha terra-natal, mas estaria disposto a ir falar dele a qualquer outro local.

AVM – Para terminar, entre muitas outras funções, é comentador de um jornal ‘nascido’ e criado para as plataformas online. Que ideia tem do que será o futuro dos jornais em papel, em particular os de âmbito regional ou local?

JM – É muito difícil fazer previsões num momento em que o desenvolvimento tecnológico e científico é tão rápido, mas penso que o futuro dos jornais, bem como de todos os restantes órgãos de informação, passa pelo online, por uma forte intercomunicação com o leitor. Parece-me que os futuros órgãos de informação irão ser híbridos, misturando cada vez mais escrita, som e imagem.

 

João Martinho