Filmes do Homem: A marca do cinema feito em Melgaço já surge na tela

Pedro Sena Nunes diz que a participação estrangeira traça “uma espécie de nova etapa”

 

Entre 29 de Julho e 7 de Agosto, quinze novos técnicos de imagem e som recolheram em Melgaço a matéria que vão trabalhar para mostrar na edição de 2017 do Filmes do Homem – Festival Internacional de Documentário de Melgaço.

A proposta aos jovens, alguns a terminar a sua formação superior nas mais diversas escolas de comunicação e imagem, vem desde a primeira edição do festival e apresentou a 2 de Agosto a sua segunda entrega e estreia de filmes documentais gravados em Melgaço e as histórias de melgacenses como objectivo.

As equipas de trabalho formadas a cada ano são novas e de diferentes origens, mas a orientá-los para os quase dez dias de trabalho no terreno está uma das figuras que é também a cara deste projecto.

badge_planofrontalPelo terceiro ano consecutivo, o festival Filmes do Homem contou com Pedro Sena Nunes, realizador, programador cultural e professor na área da criação artística, para a orientação das equipas da residência cinematográfica Plano Frontal.

Com a matriz daquilo que é a razão de ser do festival documental de Melgaço sempre presente – identidade, memória e fronteira – nesta terceira incursão pelas histórias de quem vive em Melgaço, as equipas de cinema não tiveram um tema concreto para gravar. Um “risco” que Pedro Sena Nunes considera ter sido desafiante para os doze jovens, alguns vindos de paises como a Itália, Colômbia, Áustria e Holanda, ou mesmo alguns jovens portugueses que estão a pôr em prática aquilo que vem aprendendo em escolas superiores de Londres.

Aos participantes da residência através do registo de fotografia coube retratar através do seu olhar os temas Paisagem/Lugar, Trabalho e Família.

Não muito longe destas temáticas estão as equipas que estrearão em 2017 os seus documentários, já que é com uma visão no mundo tradicional mas a apontar para o futuro que focam as objectivas. A transumância, a mudança e as vivências de quem vem de outro continente para viver em Melgaço são parte da nova abordagem que poderemos esperar em 2017, como garante o orientador, “confiante” nesta nova etapa.

Como vem sendo habitual a cada ano, quisemos saber como olha para este desafio de dez dias em Melgaço, uma prova de fogo para muito dos jovens realizadores, e que contribuição está o festival Filmes do Homem a dar para o cinema documental português.

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A Voz de Melgaço (AVM) – Terceiro ano de Plano Frontal, oito filmes concluídos, dois anos de exibições em sala. A esta altura, já há bases para se perceber uma linguagem própria do documentário feito em Melgaço?

Pedro Sena Nunes (PSN) – A força da natureza humana aqui da região começa a ficar mais vincada. São oito agora, serão doze para o ano, começa a haver densidade, mas ao mesmo tempo há esta diversidade de olhares que enraízam nas formações que cada uma destas pessoas têm. O contributo que dou talvez aproxime algumas coisas, mas não tendo a fazer isso, porque o que exploro é que eles façam aquilo que procuravam.

AVM – O que não impede que passe sempre algo e haja algo de si nestes produtos, como uma impressão digital…

PSN – Poderá haver, na afinação. Eu não imponho nem conduzo, procuro a diversidade, mas também não intensifico as diferenças. Tem a ver com o que cada grupo procura por si.

AVM – Sobre os documentários estreados nesta edição do festival, algo que é comum nestes filmes é a crueza da imagem, o dramatismo, como se fosse uma linha orientadora…

PSN – Isso acho que tem a ver com o que cada grupo procura e o que cada personagem também lhes dá. Temos três retratos focados em memoria dramática. O último desta apresentação [“Para Além da Fronteira”, de José Santos] tem a ver com o quotidiano, dá uma dimensão mais rica daquilo que é o mundo actual, mas todas as histórias vão beber muito ao passado e não conseguimos filmar o passado. Portanto as imagens que há ou é pela palavra escrita num jornal ou pelas fotografias, e não são suficientes para sustentar a história.

AVM – Sim, mas também é verdade que quase todos vão às ruínas, ao que resta de físico do tempo do contrabando. Casas, carreiros…

PSN – Acho que há um fascínio das pessoas que estiveram cá na última residência por esse universo. O dramatismo que está colocado é uma opção estética do grupo, não é minha e eu tenho de respeitar isso. Posso dar a minha opinião, corrigir, mas tendo a que as coisas sejam mesmo diferentes.

AVM – Sente que há uma maturidade da fórmula e no que pretende ser este projecto?

PSN – Neste terceiro ano está a crescer ainda mais, porque o facto de termos mais pessoas inscritas permite fazer uma selecção mais apurada. Com os participantes estrangeiros há uma espécie de nova etapa. Quisemos perceber o que tudo isto pode trazer. Alguém que vem das Filipinas para fotografar algo num meio em que nem a língua percebe, nem o interveniente não sabe falar inglês, é interessante perceber como é que, no caso da fotografia, se pode produzir imagens através de uma linguagem quase corporal. Foi um risco, mas vamos ter resultados.

AVM – Como foi trabalhar com estas equipas, este ano?

PSN – Foi fantástico. São pessoas com formações muito diversas. Pela primeira vez esta dimensão internacional do festival, alocado à dimensão internacional da residência, era um risco que tinha de ser vivido. Estamos a entrar por caminhos novos e fascinantes porque são pessoas incríveis. Cada grupo tem tido interesses tão distintos que eu é que tenho de me adaptar e perceber o processo deles. Nas nossas reuniões nocturnas fazemos este exercício, o mundo das ideias aqui dentro é como uma nuvem de todos, lança-se a ideia e cada um vai buscar o que quiser.

AVM – Dez dias continua a ser o máximo estipulado. É o prazo suficiente, ou se houvesse mais cinco dias podiam sair produtos mais elaborados?

PSN – Há casos que são absolutamente notórios que com mais tempo poderiam ser mais aprofundados, podiam melhorar. Mas até este momento ainda não foi negociável o alargamento. Quando se chega, para alguns parece muito tempo, mas depois há quem chegue aos últimos dois dias e ainda tenha de fazer muita coisa, portanto tem de dar tudo por tudo, agarrar o que conseguiu até ali e às vezes a pressão é boa, ajuda a resolver.

AVM – Quando pega numa câmara e faz algo seu, aproveitando o conhecimento que já tem do local?

PSN – Já pensei em vir mais cedo ou acabar mais tarde, mas é um exercício muito exigente conseguir desmultiplicar-me. Para filmar e para ter a disponibilidade de uma equipa para filmar comigo, só é possível se for fora do festival. Neste período não, porque posso ser solicitado e não posso dizer que não porque estou a filmar. E não temos um horário concreto, temos um fluxo de 20 ou 22 horas sempre a correr, porque há grupos que vão filmar de madrugada, outros que se deitam de dia, estão sempre a acontecer coisas. E fazer alguma coisa só para dizer que estou a fazer não vale a pena. AVM

João Martinho

para-alem-da-fronteira

Plano Frontal

Que filmes são estes? Conheço alguém?

A edição de 2016 do Filmes do Homem – Festival Internacional de Documentário de Melgaço, somou mais quatro filmes ao espólio documental registado em audiovisual. A cada ano as equipas escolhidas somam sempre mais quatro filmes ao acervo, mas que obras são estas e do que falam as obras apresentadas na edição de 2016 do festival?

Leia as sinopses e, quem sabe, talvez conheça os protagonistas destes registos ou mesmo identificar-se com as vivências aqui relatadas.

Se não teve oportunidade de ver as obras na sala da Casa da Cultura na primeira apresentação ao público, saiba que todas as obras resultantes da residência Plano Frontal poderão ser visualizadas no espaço Memória e Fronteira.

ÁGUAS PASSADAS

Ana Costa, Portugal / 2016 / 20′
Imagem: Sara Santos; Som: Jorge H. Carrilho; Montagem: Sara Santos

Avelino e Amélia recordam os tempos idos do Contrabando. Ambos ganharam as suas vidas graças à fronteira, contudo desempenharam papéis completamente opostos: ele fora guarda-fiscal e ela contrabandista. Neste “jogo do gato e do rato” descobrimos algo maior que une estes dois eternos antagonistas.

FRONTEIRA(S)

Sérgio Miguel Silva, Portugal / 2016 / 15′
Imagem: Adriana de Melo; Som: Mariana Vasconcelos; Montagem: Sérgio Miguel Silva

Houve um tempo em que entre Portugal e Espanha existia toda uma economia paralela de contrabando, um tempo onde o bem e o mal não se definiam por uma fronteira e do qual restam as memórias das gentes raianas como o senhor Amadeu Pereira, que nos fala de como Melgaço costumava ser.

NOITE LONGA

Ivan Markelov, Portugal / 2016 / 10′
Imagem: Bibiana Nunes; Som: Daniel Ferreira Lopes; Montagem: Ivan Markelov

O filme explora memórias de um contrabandista da velha guarda que passou a sua juventude a atravessar o rio Minho que divide Portugal e Espanha vezes sem fim. Uma das memórias mais claras dele transporta-nos para um momento trágico da morte do amigo.

PARA ALÉM DA FRONTEIRA

José Santos, Portugal / 2016 / 17′
Imagem: Fernando Bento / José Santos; Som: Carlos Neves

Maria Emília, ex-contrabandista, desvenda o susto de que se livrou graças a um guarda fiscal. Durante quinze anos, mesmo enquanto grávida, Emília atravessou a fronteira entre Portugal e Espanha, contrabandeando géneros alimentares para subsistência, para vender no seu café e porta-a- porta.
Ao longo do tempo, depois do contrabando, a vida de Emília foi-se moldando à nova realidade. O perigo acabou, dando lugar à tranquilidade. Sobrando apenas as memórias do contrabando que, de vez em quando, lhe vêm à memória enquanto trabalha no campo.
O contrabando é revisto numa viagem como uma memória explorada pelas suas palavras e reencontros inesperados que resultam de encontros inesperados.

(Texto publicado na edição de 01 de Setembro do jornal “A Voz de Melgaço”)

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