Albertina Fernandes apresenta livro de “homenagem ao emigrante português” em Melgaço

“É uma lição de vida positiva. Tem um final feliz”

Albertina Fernandes vai apresentar aos melgacenses, no próximo dia 7 de Outubro, a obra ‘Eu Vou Com as Aves’. A sessão decorrerá pelas 21h30 na Casa da Cultura e é aberta ao público em geral.

O romance ‘Eu Vou com as Aves’ atravessa os decénios de 60 e 70 do século XX e tem como pano de fundo a atmosfera da emigração portuguesa para França, odisseia para muitos dolorosa, sobretudo para os que iam ‘a salto’. O percurso de Tiago, o protagonista, teve contornos distintos, como se estivesse predestinado a outros voos. A obra mostra Tiago em três espaços geográficos emblemáticos: a sua aldeia natal, Lisboa e Paris. Neles se vai sedimentando a sua aprendizagem – da infância, da adolescência e da vida adulta -, oscilando entre momentos de equilíbrio e momentos de ruptura.

Recordamos a entrevista publicada por este jornal, por altura do lançamento da obra que agora se apresenta em Melgaço.

Os bidonville e as oportunidades da “cidade-luz” na realidade dura de quem partia

Num momento de abundante criatividade literária – que extravasa até para a efémera estante das redes sociais – é quando está de “bem com o dia-a-dia” que Albertina Fernandes traduz o talento em texto.

Natural de Arcos de Valdevez, casada com um melgacense, o que a traz não raras vezes a terras de Inês Negra, a professora do ensino Secundário, licenciada em Filologia Românica, Mestre em Língua e Literatura Francesas e em Educação Artística, decidiu um dia transpor para o papel as histórias que contava aos netos.

Hoje tem mais de uma dezena de livros publicados, onde se contam obras para o público infanto-juvenil, mas também para o público mais adulto e atento à literatura do século XX.

Em 2015 lançou o seu segundo romance, o terceiro livro do universo da ficção para adultos, já que o primeiro livro, “Brumas” (2011) é uma colectânea de contos.

Entre “Brumas” e “Eu Vou Com as Aves” (2015), há “Esperança” (2013) e uma série de ensaios, é pertinente destacar “Gritos de Pedra”, antologia poética do arcuense Nurmi Rocha, que Albertina Fernandes seleccionou, e ainda “Tomaz de Figueiredo – Ensaio Crítico-Biográfico” (2013), um documento chave no entendimento da vida e obra do singular escritor arcuense.

Na escrita ficcionada para os netos (os seus e os de todo o mundo, aonde consiga chegar), Albertina Fernandes esclarece prontamente que nas suas histórias não há tempo para dragões e até as tão sugestivas bruxas são relegadas da trama, dando lugar a pessoas comuns e com uma lição para dar.

Tinha sempre muitas histórias na cabeça para contar aos meus netos, mas eram histórias que nasciam naquele momento e morriam ali, ou na próxima vez eram adulteradas. As crianças não gostavam, queriam ser fiéis à primeira versão e então passei a escrevê-las. Ao fim de umas trinta histórias, pensei que, se eram úteis aos meus netos, poderiam ser úteis a outras crianças”, resume a autora.

Um dia, descobriu Tomaz de Figueiredo, nos livros. “Eu não sabia nada de Tomaz de Figueiredo sem ser nos pequenos textos das antologias. É uma literatura que não é fácil, mas eu adorava a escrita dele”, nota. Assolapou-se na escrita do reputado arcuense. Já antes o mesmo acontecera com outro conhecido da grande praça literária. “Aconteceu-me o mesmo com o Lobo Antunes. O primeiro livro que li dele foi “Os Cus de Judas”. Estava de férias em Caminha, espreito lá para um escaparate e o título chamou-me a atenção, porque nem conhecia a expressão. Parti para a leitura e quando gosto, compro tudo”, revela.

Não sabe bem o que tinha quando começou, mas quiçá fruto da sua experiência na docência ou da experiência de vida, havia um baú de memórias pronto a ser dissecado em livro. “Às vezes pergunto-me onde é que tinha este manancial de coisas. Eu penso que se deve à vivência que a idade nos traz. Fui capitalizando experiências que depois vão saindo, transformadas em literatura”.

dsc_0270Com o Minho e a sua terra como linha orientadora das suas incursões literárias, no seu último romance “Eu Vou Com As Aves”, vai mais longe. De Arcos de Valdevez, de onde o protagonista da história ficcionada e a autora são naturais, o aventureiro parte para Lisboa e daí para França. Até lá, um poço de encrencas: As viagens “a salto”, os ‘bidonville’, a árdua tarefa de vingar na vida e realizar sonhos.

Cada romance é, mais do que uma ficção em torno de uma personagem que pode ou não ter em si partículas da experiência de vida da autora, um rol de pesquisas que nos colocam no rumo certo da História. Um zelo que, assume, também já lhe tem merecido críticas. “Há quem me acuse de este [Eu Vou Com As Aves] ser um livro com partes bastante pedagógicas, mas é também um trabalho de investigação”, nota.

Mas o “excesso de saber” que coloca nas personagens dos seus livros não é epidémico às editoras que os publicam. A escritora manifesta-se “decepcionada” com a máquina promocional das editoras, que considera só apoiarem o autor “até ao dia do lançamento”. Talvez por isso tenha perdido oportunidades de ouro. “Tenho muito pudor em falar de mim e das coisas que escrevo. Não peço a ninguém, não tenho jeito nenhum para promover”, assume.

‘Eu Vou Com as Aves’ “é uma homenagem ao emigrante português”, indica a autora. “Não é o emigrante vulgar, que vai analfabeto, mas é um emigrante que singra noutras áreas e que não nega as suas raízes”, esclarece. Situado nos anos 60, a obra acompanha o percurso de Tiago desde a terra natal até Paris, em busca de um futuro próspero que os anos de ditadura não deixavam adivinhar. Os ‘bidonville’ e as oportunidades da “cidade-luz” pontuam de realidade, por vezes dura, de quem partia.

José Terra, poeta, filólogo, historiador, ensaísta e professor até à jubilação na Universidade Sorbonne – Paris III (falecido no início de 2014, sem ver a obra finalizada), foi um dos “pilares” na construção deste romance, onde Albertina Fernandes se inspirou para construir uma cidade parisiense à altura dos acontecimentos, não muito iluminada para os emigrantes portugueses.

O divulgador da cultura lusófona em França figura na ficção de um livro onde até Tiago, ficcionado, não é mais do que retalhos da vida de um arcuense bem real. O que, no fundo, podia ser a história de um qualquer emigrante que, astuto, se realiza no papel da procura de uma vida melhor. “É uma lição de vida positiva. Tem um final feliz, embora o protagonista acabe a dizer: “Boa noite. Não voltarei a voar com as aves”, [por essa altura] já é um homem maduro, realizado, sublinha Albertina Fernandes.

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