Cão de raça Castro Laboreiro desceu à vila e mostrou-se nas Termas 100 anos depois

A Associação Portuguesa do Cão de Castro Laboreiro (APCCL), com a colaboração da Licrase – Liga dos Cradores e Amigos do Cão da Serra da Estrela, levou a efeito, nos dias 3 e 4 de Setembro, a 1ª Cãominhada e Acãopamento Entre “Serras”, um evento que pretendeu recordar e homenagear aquela que terá sido uma das primeiras campanhas de promoção e exibição do cão de raça Castro Laboreiro junto do turismo que visita o concelho, realizada há cem anos.

Segundo a acta, que Américo Rodrigues, membro da direcção da APCCL, diz existir e ser uma importante passagem histórica da raça que tem nas serras castrejas o seu solar, a 10 de Setembro de 1916, as gentes de Castro Laboreiro, acompanhadas pelos seus cães, vieram até às Termas de Melgaço pelo caminho antigo que ligava Castro Laboreiro a Melgaço. “Vieram por Fiães, pelo Outeiro da Loba, pela Costa da Rolha, desceram a Melgaço, ao Peso, porque aqui havia um grande número de turistas, as Termas estavam em alta, por isso fizeram aqui uma mostra para que os visitantes pudessem observar os exemplares”, conta.

Ligeiramente antecipado para os primeiros dias de Setembro por dificuldades de agenda dos elementos da associação convidada a partilhar a comemoração, a ‘cãominhada’ levada a efeito cem anos depois visitou alguns dos pontos de passagem da rota percorrida pelos criadores de outrora.

Não tendo feito parte da primeira iniciativa, o convite aos criadores de outra das raças portuguesas tradicionalmente ligadas ao pastoreio e à guarda não foi aleatória, como dsc_7414esclarece Américo Rodrigues.“São as duas raças mais antigas de Portugal com estalão. O cão Serra da Estrela obteve-o em 1934 e o de Castro Laboreiro em 1935, foi feito pelo mesmo homem, o veterinário e professor Manuel Marques”, que esteve em Castro Laboreiro em 1935.

Queríamos marcar a data, lembrá-la e de alguma forma chamar a atenção para as dificuldades que a raça tem. Faço o apelo aos melgacenses para que, em vez de optar por uma raça de moda, optem por um ‘Castro Laboreiro’. Há muitas raças excelentes, mas porque não uma raça nossa, que é do nosso concelho, do nosso povo? É um contributo para a sobrevivência desta raça”, apela o criador.

O estalão [conjunto de características que definem a raça, detalhando proporções do corpo, cabeça, cor do pêlo, etc] tem sido motivo de algumas discordâncias, mas o representante da associação de criadores assume que já foram feitas algumas cedências neste aspecto. No entanto, reconhece que validar um exemplar acima dos 70 centímetros “é complicado” e poderia desvirtuar as capacidades características do animal. “Queremos que seja leve, que tenha agilidade”, indica.

Sobre o encontro, que juntou cerca de duas dezenas de pessoas e exemplares das duas raças, Américo Rodrigues manifestou o desejo para que “daqui a cem anos haja alguém que faça novamente este evento, com ou sem a colaboração do Serra da Estrela. Já que abrimos este precedente, pode ser com ele. Vamos fazer uma acta do dia de hoje (3 de Setembro), como existe a acta de 1916, e espero que alguém um dia a veja e tome a iniciativa de organizar algo do género. O nome das pessoas que fizeram o primeiro evento ficaram para a posteridade. Eram apaixonados pela raça, fizeram muitos quilómetros por caminhos difíceis, isso mostra o carinho que tinham pelo animal”.

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Com um registo anual de apenas 150 a 200 animais por ano, o cão de Castro Laboreiro é, pelo número verificado, uma raça em vias de extinção. O cão Serra da Estrela, parceiro de actividades neste evento, gozam no entanto de uma estabilidade maior, registando por sua vez um número superior a 2000 novos animais por ano.

Destas cerca de duas centenas de cães registados a cada ano, “para reproduzir ficam meia dúzia. A maior parte desses cães ficam em quintas, mas não reproduzem a raça”, esclarece o elemento da direcção. “Vai chegar ao mento em que haverá muito poucos, a criação ficará apenas em quem queira defende-la”.

Esperançoso de que os cuidados de hoje possam inverter alguns riscos de desaparecimento de espécies, Américo Rodrigues recorda que “o Serra da Estrela de pelo curto, com mais expressão do que o de pelo comprido no inicio do século XX, também está em risco de extinção.

As mudanças na economia, que prescindiu na sua maioria da pastorícia, e o urbanismo das habitações, pouco favoráveis ao crescimento e adaptação da rusticidade do cão de Castro Laboreiro, relegam a escolha dos exemplares desta raça das principais razões para a escolha de um cão enquanto animal de companhia, no entanto, há potencialidades a serem consideradas.

As forças policiais, por exemplo, teriam aqui uma descoberta a trabalhar. “Seria uma questão de o trbalharem, perceber a vocação, mas sei que é mais fácil ir buscar já as raças trabalhadas do que estar com este processo” nota. “Seria muito bom que as nossas forças policiais pegassem nesta raça”.

Até lá, “a sobrevivência da raça será sempre o povo de Castro Laboreiro e o concelho de Melgaço, onde sempre houve, porque dantes não havia raças estrangeiras. As pessoas quando queriam um cão de raça para guarda, era a Castro Laboreiro que o iam buscar”.

Por outro lado, Pedro Silva, presidente da Licrase, uma das associações vocacionadas para a preservação do cão Serra da Estrela, garante que aquela é “a raça portuguesa com os maiores numeros de registos e mais acarinhada pelos portugeses”.

Seia e Manteigas, no distrito da Guarda, são alguns dos concelhos solar da raça, mas a associação de criadores reconhece que a criação e preservação “está hoje mais representada fora da serra, a nivel da criação, do que nas localidades do solar da raça”.
Sobre o convívio e a raça visitada, Pedro Silva diz que é “uma experiência a repetir” pelo reforço dos laços entre criadores e amigos da raça”.

Candidaturas ao Portugal 2020 com acções para o cão de Castro Laboreiro

O Quadro Comunitário, através das verbas a atribuir no contexto do programa Portugal 2020, poderá dar algumas oportunidades ao investimento na preservação. Manoel Batista, presidente da Câmara Municipal de Melgaço, diz-se confiante de que será possível financiar alguns projectos. No plano conjunto para o Parque Nacional Peneda-Gerês (PNPG), a autarquia indicou já algumas acções a candidatar brevemente neste campo. Neste aspecto, o autarca melgacense considera ser importante “fazer um estudo cientifico mais sério” e assegurar a continuidade deste povoamento canino característico, “uma das seis raças portuguesas que deve ser acautelada”.

“Esta raça sofre da questão demográfica e da diferenciação sócio-económica. O cão de Castro Laboreiro era uma presença permanente no território e na economia. Hoje há menos gente e esta raça está pouco à vontade nos meios urbanos, mas a raça estará acautelada”, indica Manoel Batista.

João Martinho

(texto publicado na edição de 01 de Outubro do jornal “A Voz de Melgaço”)

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