Fornos comunitários de Castro Laboreiro e Lamas de Mouro: As potencialidades turísticas de quase meia centena de edificados

“Temos por mestres de memória uma população envelhecida, num local que caminha para a desertificação, por isso é mais do que urgente preservá-los e conservá-los de alguma forma

 

Em Março de 2015, Diana Carvalho, estagiaria da União de Freguesias de Castro Laboreiro e Lamas de Mouro apresentou um estudo sobre os fornos comunitários daquele território. Durante o estágio de 12 meses, Diana Carvalho pesquisou e compilou os vários aspectos históricos daqueles fornos de referência e outrora de uso comum na comunidade castreja.

No âmbito do estudo, a estagiária fez o levantamento da quantidade e características destas construções. A base de dados, à altura ainda não finalizada, incluía a descrição das características essenciais dos 48 fornos comunitários existentes nas freguesias de Lamas de Mouro e Castro Laboreiro, detendo a vila castreja a maioria dos equipamentos.

dsc_7027Visando manter o projecto na memória colectiva das povoações mais também acautelar da sua preservação tal como é conhecido, documentando medidas e características físicas de cada um dos edificados. O trabalho acaba por tornar-se de registo essencial dado que, como refere a investigadora deste processo “não existem praticamente nenhumas referências” nos pergaminhos da localidade ou do concelho de Melgaço que esclareçam posses ou ano de construção.

O que existe em termos de registo documental, é pífio. “O que existe é, numa Acta de um dos livros da ex-Câmara de Castro Laboreiro entre 1839 e 1842 seguramente, uma referência ao forno de Cainheiras por causa da nomeação de um Guarda rural, ou seja, não é uma referencia directa”, observa.

Dos 54 fornos comunitários existentes nos anos 70 do século XX, alguns terão sido demolidos, outros estão em ruínas e poderão apagar o seu rasto da história se não intervencionados atempadamente. “Esta é a última geração que temos detentora deste conhecimento. Temos por mestres de memória uma população envelhecida, num local que caminha para a desertificação, por isso é mais do que urgente preservá-los e conservá-los de alguma forma”, alerta Diana Carvalho.

O estudo em curso, que continuará em recolha de elementos e poderá conhecer forma acabada em livro dentro de dois anos, prevê a criação de estratégias que permitam a criação de rotas e dinâmicas de utilização deste património característico das povoações de montanha.
Para a estagiária envolvida nesta busca pela construção do passado, as dificuldades prendem-se com a autenticação da origem e posse deste edificado.

“Há quem afirme que eles pertenciam à Igreja, mas não podemos afirmá-lo, porque mesmo nos Tombos de circunscrição de Castro Laboreiro, em nenhum deles aparece nada relativamente aos fornos. O que existe são muitas referências ao centeio, ao pão, à farinha e à utilização destes produtos como pagamento aos comendadores pelas herdades”, aponta diana Carvalho, entendendo nesta forma de pagamento uma “indicação subliminar” da existência dos fornos comunitários, uma vez que só um equipamento de grandes dimensões poderia dar resposta à cozedura de pão à escala que aquele método pagamento sugere.

Em sinopse, a autora do estudo realça algumas características de salvaguarda documental e aponta acções de dinamização, que abaixo transcrevemos em parte.

João Martinho

 

FORNOS COMUNITÁRIOS

por: Diana Carvalho

Dentro deste processo encontra-se a elaboração de fichas técnicas onde constam todas as informações recolhidas sobre a sua arquitectura (traduzindo-se em medidas, plantas, descrição das estruturas); etnografia (que auxiliou a compreensão do histórico de cada forno) e contextualização histórica destes monumentos.

Fruto de uma investigação exaustiva de vários documentos relacionados com a história regional, municipal forno02e local, que, no fundo, compunham toda uma panóplia bibliográfica de fontes de informações locais, livros de actas, livros de receitas e despesas, inventários de bens, ofícios, testamentos, livros de correspondências, artigos, livros impressos de carácter arqueológico, antropológico e histórico. Tudo isto contribuiu para enriquecer o projecto e elevar o valor patrimonial dos fornos comunitários, estando seguramente estudados de uma perspectiva profissionalizante, com todo o rigor científico possível, recorrendo a fontes de informação verificada e sem especulações de caracter particular.
Além disto foi efectuado um registo fotográfico de todos os fornos comunitários.

Prevê-se que este trabalho resulte numa publicação com todas as informações históricas e etnográficas recolhidas, a par com um itinerário/roteiro simbólico dos fornos comunitários, resultante do seu inventariado, aos quais foram atribuídas coordenadas GPS, medidas todas as suas distâncias à sede do concelho, sede da freguesia e entre fornos, para os seguintes meios: a pé, BTT e de carro.
Propus ainda a colocação de sinalização nas estradas, a rodagem de um documentário específico deste tema, a execução de uma exposição com os instrumentos/utensílios existentes desta longa tradição, talvez a par com o núcleo museológico local, a título permanente ou temporário. Considerei ainda pertinente propor a possibilidade de visitas guiadas, pois parece-me exequível que, dentro desta grande rota de fornos existam rotas menores ou até mesmo singulares que se possam realizar a pé, de BTT ou a cavalo, evitando a introdução de veículos motorizados, dado o contexto natural.
Este projecto encontra-se ainda em desenvolvimento e terá sequência sob minha tutela particular, pois apesar do estágio terminar, este é um tema que merece toda a dedicação da minha parte e que pretendo ver concretizado, ao alcance de todos, inserido-o e preservando-o na memória colectiva.
Devo agradecer à minha orientadora de estágio, secretária desta Junta de Freguesia, Sra. Elisabete Sousa e ao Sr. Presidente, Alfredo Domingues, por me terem proporcionado esta oportunidade de trabalho.

Arquivo, 2015: Notícia publicada na edição de 01 de Abril de 2015, pág.11

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