Bombeiros de Melgaço: “Os bombeiros só voltam à actividade se esta Direcção se demitir”

Ex-Comandante apela à manifestação “pacífica” da população para que a corporação não seja extinta

O clima de crispação entre o Comando da Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários de Melgaço, exonerado no início do mês de Janeiro, e a Direcção da corporação, parece ter atingido o ponto de não-retorno e a solução já estará para lá do diálogo entre ambas as partes, afirmou o ex-Comandante Gaspar Caldas em declarações ao jornal “A Voz de Melgaço”, hoje (9 de Janeiro) ao fim da tarde, onde admitiu ter chegado “ao limite”, depois de esgotadas todas as tentativas que terá encetado junto da Direcção para que a situação não se extremasse.

A inactividade de grande parte do Corpo Activo da Associação é um gesto de revolta que, segundo o ex-Comandante, está a “fazer sofrer homens e mulheres que juraram dar “Vida por Vida” e neste momento não podem estar a salvaguardar os interesses de pessoas e bens do nosso concelho e populações vizinhas porque estão a utilizar a única arma que tem ao seu dispor. Foram ignorados, mentiram-lhes, se não utilizassem esta arma, tudo continuaria da mesma maneira”.

Depois de apresentar a sua demissão às 23h59 do dia 2 de Janeiro, Gaspar Caldas diz que a decisão é “definitiva”, assegurando que “o Comandante nunca mais volta a ser comandante e também não será candidato a nenhum órgão da Associação, porque sei que querem passar essa imagem”, esclarece.

Na mesma altura, como já avançamos, foram exonerados também de funções o 2º Comandante e o adjunto do comando, além de 25 Bombeiros que mantém o pedido de inactividade. “Eu não saí do Comando porque saíram os Bombeiros, nem os Bombeiros saíram porque saiu o Comando, saímos em simultâneo porque não podemos aceitar a prepotência do presidente da Direcção, ao ignorar as opiniões dos Bombeiros”, frisa Gaspar Caldas.

A principal motivação deste grupo de voluntários para o pedido de inactividade estará um desentendimento entre os elementos da corporação e um dos elementos da Direcção. Um facto que já terão manifestado à Direcção mas que, alegadamente, não desencadeou a melhor resposta do órgão directivo.

“Numa reunião geral do Corpo Activo, onde esteve presente o presidente da Direcção, os Bombeiros manifestaram o que pensavam de cada um dos directores, no que diz respeito ao desempenho das suas funções, com maior incidência para a Tesoureira, que utiliza a página da Associação na rede social Facebook com vocabulário no qual os Bombeiros não se revêem e é, muitas vezes, provocante. Isso levou a que não quisessem que ela continuasse num próximo mandato e manifestaram isso ao presidente da Direcção”, revela o ex-Comandante.

Em resposta a este manifesto descontentamento, o elemento visado, a Tesoureira da Associação, em fim de mandato no final de 2016, terá telefonado para o 2º Comandante e para o adjunto anunciando que se demitia. “Tudo voltou ao normal. Alguns que tinham falado em inactividade já não avançaram, ficou tudo calmo”, assegura Gaspar Caldas.

Quando o Corpo Activo descontente com a Tesoureira aguardava o anúncio da demissão ou a permanência apenas até ao final do mandanto, a “surpresa” que prenunciou o ‘braço-de-ferro’ entre o Comando e a Direcção foi anunciada numa reunião.

“Para nossa surpresa, não só não foi aceite a demissão, como foi reconduzida para o mandato seguinte. Foi uma afronta que fizeram aos bombeiros. Ter continuado até ao fim do mandato não era crime, mas ser reconduzida foi uma afronta que nos fizeram”, reitera o ex-Comandante, indignado. Esta acção terá espoletado os primeiros pedidos de inactividade por parte dos Bombeiros, aos quais, assegura Gaspar Caldas, “não lhes dou andamento, na esperança que a situação se resolvesse”.

“Depois de várias reuniões intermináveis, sem nada conclusivo, o presidente da Direcção, o Engenheiro Luís de Matos, assume perante o corpo activo que não toma posse, e os bombeiros voltam à actividade, ficou tudo na mesma. Para nossa surpresa, toma posse e afixa num placard nos Bombeiros uma nota a dizer “eu direi presente e desafio os outros”, como se os Bombeiros fossem bonecos. Não pode ser, tem de haver respeito por esta gente”.

Perante o volte-face directivo, Gaspar Caldas diz que o gesto de apaziguamento poderia ter ainda surgido numa Assembleia Geral, mas nem aí se terá verificado. “Quando pensávamos que a Tesoureira poderia dizer algumas palavras, pedir desculpa, para que depois eu tivesse força para, junto do pessoal, tentar que tudo normalizasse, não o fez e ainda acusou o Comando de querer impor uma Direcção e acusou o comandante de ingerência”.

Se houver um acidente e seja necessário um desencarcerador, tem de vir de Monção, porque aqui não há quem trabalhe

O resto já é conhecido tem sido amplamente discutido nos últimos dias: 25 Bombeiros entregaram pedido de inactividade no Quadro e o Comando cai todo, Comandante, 2º Comandante e adjunto.

O ex-Comandante pede “reflexão” ao órgão directivo, uma vez que esta suspensão de operações de mais de metade do Corpo Activo pode comprometer a continuidade da Associação, além de colocar em risco pessoas e bens em caso de sinistro. “Neste momento, a segurança do concelho de Melgaço está em causa. Se houver um acidente e seja necessário um desencarcerador, tem de vir de Monção, porque aqui não há quem trabalhe. Se houver um incêndio num edifício aqui ao lado [dos Bombeiros], têm de vir de Monção, que aqui não tem efectivos. Os efectivos que tem são os que estão a fazer os serviços diários de saúde. Tem mais dois os três, que nem estão cá, estão a estudar fora”, conta.

Além da eventual ineficácia dos serviços no apoio a população, Gaspar Caldas refere ainda que, se o impasse continuar, a Associação poderá enfrentar problemas em termos legais que poderão comprometer a sua continuidade. “Há Bombeiros que pediram a inactividade que neste momento pensam em mudar o documento e pedir a demissão. Melgaço tem 46 bombeiros, tirando-lhe estes 25 e o Comando, veja-se o que fica! E ainda corremos outro risco muito sério: Se não tivermos a capacidade, de acordo com a lei, para salvaguardar a defesa de pessoas e bens nesta área geográfica de Melgaço, a corporação simplesmente é extinta”.

Perante a situação, o ex-comandante diz que só a mobilização popular poderá motivar uma resolução. “Quero fazer um apelo à população de Melgaço e de Arbo, a quem também damos apoio, que se manifestem de forma pacífica, dando o seu apoio aos Bombeiros e para que a Direcção se demita, caso contrário os Bombeiros de Melgaço estão condenados a serem extintos brevemente”.

A resolução do impasse, refere o ex-Comandante, não deverá ser motivada por interesses políticos. “Peço que não haja aproveitamentos políticos disto. Que toda a gente colabore com os bombeiros e tente encontrar uma solução. Mas que não veja o nome de Bombeiros em placards, porque isso é destruição e esta gente tem de ser respeitada”.

“Quando houve um incêndio, os Bombeiros, pegaram nos seus próprios carros e foram à civil”

Numa das últimas ocorrências, em Pomares, terá sido uma equipa de oito bombeiros que, à civil e pelos seus próprios meios, se deslocaram ao local do incêndio para fazer o combate. “Os Bombeiros, surgindo incêndios, pegam nos seus próprios carros e vão à civil, não abandonam a população. Foram à civil para Pomares e para outros sítios. No Sábado houve um incêndio em Arbo, que nos deu tanto apoio e é preciso reconhecer essa gente, teve de se tentar arranjar três homens pelo telefone para ir, quando havia vinte numa reunião, mas estavam em inactividade, não podiam ir”, contou.

Na tentativa da defesa da sua versão dos factos, o ex-Comandante manifesta-se disponível para, em público e em qualquer meio, “debater olhos nos olhos com o presidente da Direcção. Tenho provas de tudo o que tenho feito por esta casa para a engrandecer e não admito que agora venham destruir tudo. O que tenho a dizer digo-o, não tenho nada a perder. A única coisa que tenho a perder e se calhar já perdi, são os Bombeiros da minha terra”, conclui.

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