Um Janeiro difícil (mas conclusivo) para os Bombeiros de Melgaço

Direcção diz que “instrumentalização” da situação não defendeu o interesse dos melgacenses

Até 18 de Janeiro, dia em que a Direcção da Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários de Melgaço (AHBVM) emitiu um comunicado onde deu nota do regresso à actividade dos 25 bombeiros que tinham pedido inactividade no Quadro, a tensão entre a Direcção, o Comando e praticamente metade dos operacionais da corporação esteve latente.

O regresso à normalidade só terá sido conseguido depois de a equipa directiva ter aceite o pedido de demissão da Tesoureira da Associação, Ludovina Sousa, que indicou tê-lo feito defendendo “os superiores interesses da instituição”.

No entanto, de ambos os lados das partes divergentes houve perdas: Com esta cedência, a Direcção e Órgão Sociais (que tinham tomado posse no início de Janeiro, reconduzindo-se no cargo por ter sido a única lista concorrente) perdeu a Tesoureira; do lado dos contestatários, Gaspar Caldas garantiu que não regressaria ao exercício das funções de Comandante. Pelo meio, trocaram-se acusações, declarações e intenções, como a seguir descrevemos.

As tensões, embora já iniciadas no final de 2016 e discutidas nas redes sociais ao longo do mês de Dezembro, agudizaram-se após a tomada de posse da direcção da Associação, liderada por Luís de Matos. A partir de 6 de Janeiro, altura em que o jornal “A Voz de Melgaço” noticia a situação e dá nota de um comunicado à imprensa, emitido pelo PSD Melgaço, o assunto ganha contornos mediáticos e sucedem-se com frequência comunicados e declarações a indicar causas e possíveis soluções.

A divergência entre Direcção e Comando colocava num impasse o exercício de 25 elementos da corporação, em inactividade pedida pelos próprios, deixando a Associação Humanitária fragilizada, restrita apenas aos funcionários contratados, que garantiam os serviços mínimos.

“Se houver uma emergência em Melgaço, não teremos bombeiros para nos socorrer”, alertava o PSD Melgaço no seu comunicado, o que, segundo informações vindas a luz nos dias que se seguiram, não estariam longe da verdade, tendo sido referidas algumas ocorrências em que terão sido chamados a intervir os Bombeiros de Monção.

Poucos dias depois, a 9 de Janeiro, Gaspar Caldas, apresentando-se já como ex-Comandante, cumpria a promessa da quebra do silencio a que se tinha remetido sobre o tema “se a Direcção não tomasse uma posição”. Contava, em declarações ao jornal “A Voz de Melgaço”, as motivações do desentendimento.
Numa reunião geral do Corpo Activo, onde esteve presente o presidente da Direcção, os Bombeiros manifestaram o que pensavam de cada um dos directores, no que diz respeito ao desempenho das suas funções, com maior incidência para a Tesoureira, que utiliza a página da Associação na rede social Facebook com vocabulário no qual os Bombeiros não se revêem e é, muitas vezes, provocante. Isso levou a que não quisessem que ela continuasse num próximo mandato e manifestaram isso ao presidente da Direcção”, revelava o ex-Comandante.

Em resposta a este manifesto descontentamento, o elemento visado, a Tesoureira da Associação (em fim de mandato no final de 2016), terá telefonado para o 2º Comandante e para o adjunto anunciando que se demitia. “Tudo voltou ao normal. Alguns que tinham falado em inactividade já não avançaram, ficou tudo calmo”, assegurava Gaspar Caldas.

Contrariamente ao que esperavam ser o seguimento destes procedimentos, a surpresa terá caído entre os bombeiros alegadamente decididos em permanecer no quadro activo quando a Direcção da AHBVM não só não aceitou a demissão de Ludovina Sousa, como a reconduziu para o mandato seguinte (2017/2019), na única lista candidata à gestão da Associação. “Foi uma afronta que fizeram aos bombeiros. Ter continuado até ao fim do mandato não era crime, mas ser reconduzida foi uma afronta que nos fizeram”, considerava o ex-Comandante, indignado com esta decisão da direcção.

Perante a inconclusão das inúmeras reuniões que se iam realizando neste período, o presidente da Direcção terá anunciado que não tomaria posse, mas quando a recusa do cargo alegadamente “prometida” por Luís de Matos não se verificou, tornando-se por outro lado, segundo o ex-Comandante, “num desafio”, praticamente metade da corporação aguardava, no inactivo, conclusões deste ‘braço-de-ferro’.

Neste processo, Gaspar Caldas assegurava que a decisão de demissão era “definitiva” e não seria candidato a nenhum órgão da Associação, negando qualquer interesse noutro cargo directivo da associação, como diziam rumores que “queriam passar essa imagem”-

Apagar incêndios “com roupa civil”

Numa ocorrência em Pomares, terá sido uma equipa de oito bombeiros que, à civil e pelos seus próprios meios, se deslocaram ao local do incêndio para fazer o combate. “Os Bombeiros, surgindo incêndios, pegam nos seus próprios carros e vão à civil, não abandonam a população. Foram à civil para Pomares e para outros sítios. No Sábado houve um incêndio em Arbo, que nos deu tanto apoio e é preciso reconhecer essa gente, teve de se tentar arranjar três homens pelo telefone para ir, quando havia vinte numa reunião, mas estavam em inactividade, não podiam ir”, contava ainda Gaspar Caldas no dia em que se disponibilizava para “contar tudo”.

O “calão” social: O problema não era o alvo, mas a forma

A 17 de Janeiro, dez dias depois das alegadas revelações de Gaspar Caldas, o grupo de Bombeiros na inactividade no Quadro dos Bombeiros Voluntários de Melgaço emitia também um comunicado prometia defender “em abono da verdade” a situação do Corpo de bombeiros e esclarecer que “não existem quaisquer motivações políticas” na dicotomia com a Direcção.

Num documento de 6 páginas, esclareciam ainda que o desagrado com as publicações na rede social Facebook por parte do elemento da Direcção dos Bombeiros que geria a página dos Bombeiros Voluntários de Melgaço não se prendia com o alvo a quem é direccionada a ofensa [numa alusão à publicação de Agosto de 2016, onde uma partilha de uma notícia que dava nota do combate a um incêndio era comentado com “já tardava…. filhos daputa!!!!”], mas ao teor da frase. “Nunca foi colocada a hipótese de a mesma se dirigir aos Bombeiros. O busílis da questão a nosso ver prende-se, como já referimos anteriormente, com o “calão” utilizado”.

O esclarecimento público refere ainda que, em reunião de 14 de Outubro, na qual o presidente da Direcção terá estado presente, os elementos do Corpo Activo terão manifestado que “não se reviam na linha de actuação que a Direcção estava a seguir, nomeadamente na performance adoptada pela Tesoureira da instituição e gestora da página de Facebook bem como pela falta de assiduidade e envolvimento evidenciado por alguns elementos da Direcção”.

Campanha “ignóbil” do ex-Comandante, defende Ludovina Sousa

Ainda no mês de Janeiro (com data do dia 16) Ludovina Sousa redigiu uma carta aberta aos sócios da Associação Homanitária e à população, onde se diz “alvo de uma ignóbil campanha por parte do ex-Comandante, Gaspar Rufino Caldas, que levou a que uma parte do Corpo de Bombeiros solicitasse a passagem à inactividade no quadro se eu fizesse parte dos corpos sociais da Associação, com o objectivo último de chantagear a Direcção e provocar a sua demissão”.

Na missiva, a Tesoureira atenta para os pedidos de demissão que ao longo do ano de 2016 foram pontuando o comando de Gaspar Caldas, notando que foi após o pedido de exoneração do cargo (demissão) em Junho de 2015, com efeitos a Dezembro de 2016; que o agora ex-comandante “começou lentamente a tentar sobrepor-se à Direcção, por forma a denegrir a sua imagem”.

Acusando Gaspar Caldas de ter criado alarme e ter promovido, na sequência dos acontecimentos de 2 de Janeiro de 2017 (quando a Direcção e Órgãos sociais da Associação tomaram posse), “uma reunião com os voluntários, convencendo-os a entregar novamente os pedidos de inactividade, tendo logo de seguida dado uma entrevista à comunicação social, ao jornal “A Voz de Melgaço”, a relatar esta situação, numa tentativa de alarmar a população, afirmando que o socorro de pessoas e bens não estava assegurado”.

Em sua defesa, Ludovina Sousa diz que ao longo dos onze anos em que desempenhou funções de Tesoureira na Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários de Melgaço, procurou “defender abnegadamente os seus superiores interesses e da população melgacense”, mas não contribuiria para o “perpetuar” da situação agora criada e que a tinha como motivo de discórdia. “Decidi, solicitar ao Presidente da Direcção da Associação, a minha demissão do cargo que ocupo, de forma a travar, também, uma possível demissão de toda a Direcção, que seria o abrir de porta a pessoas que apenas têm como finalidade a satisfação da sua vaidade pessoal e tomar de assalto os destinos de uma Associação que se quer isenta e imparcial, relativamente a credos religiosos ou políticos e interesses pessoais”, atira.

Saio com a sensação de dever cumprido e de tudo ter feito para honrar e dignificar a Associação, não tendo que me penitenciar por qualquer acto menos digno que me possa ser atribuído”, conclui ainda Ludovina Sousa na carta pública.

dsc_0486