Melgaço celebrou o Alvarinho em fim-de-semana prolongado

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A edição de 2017 da Festa do Alvarinho e do Fumeiro de Melgaço abriu portas às provas da sua última colheita. De 28 a 30 de Abril, 32 produtores de Alvarinho Melgaço e Monção, a par com 16 expositores de produtos locais, dos doces ao fumeiro, que esta ano apresentou pela primeira vez o selo de certificação IGP, foram os reis da festa.

Ao terceiro dia, a chuva e as baixas temperaturas tornaram o dia mais moderado em termos de visitantes, mas as noites de 28 e 29 de Abril trouxeram de novo a imagem da típica festa onde se celebra o ex-libris da sub-região de Monção e Melgaço.

Com a imagem da campanha inerente à afirmação da marca Monção e Melgaço – Origem do Alvarinho patente em todos os expositores, a imagem cuidada do espaço e alguma reorganização da zona de restauração, com seis tasquinhas, tornou a mobilidade dos visitante desta festa mais fuida e aprazível.

A autarquia avançava, no último dia do evento, que a a participação popular na edição de 2017 cumpriu “todos os objectivos traçados”, com um dos indicadores de adesão, a venda de copos, a superar os números da edição de 2016. Na sexta, a venda de copos esteve alinhada com a da festa anterior, enquanto no sábado, pela informação que já temos, foi superior ao sábado da Festa de 2016”, assegurava Manoel Batista, presidente da Câmara Municipal de Melgaço.

O espaço está bem organizado e permitiu encaixar mais gente”, observava ainda o autarca, recordando que, naquele que é tradicionalmente um dos melhores dias da festa, o sábado, “a festa tinha uma massa populacional impressionante, por isso correu bem”.

Em 15 anos, “o Alvarinho melhorou muito em imagem e qualidade”

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A abertura oficial, a 28 de Abril, contou com a presença do Secretário de Estado da Agricultura e Alimentação, Luís Medeiros Vieira, que referiu ser um bom momento para o Alvarinho e para os Vinhos Verdes, pela valorização que tem conquistado na última década.

Em discurso na cerimónia de abertura do evento, Luís Medeiros Vieira referiu que “o vinho melhorou muito, nos últimos 15 anos, em termos imagem e qualidade”, pela capacidade de inovação que os produtores incutiram ao território. A reestruturação de vinhas na ordem dos 50%, que implicou a mudança de práticas em cerca de 10 mil hectares e a alocação de “mais de 90 milhões de euros”, assim como a especialização dos enólogos, são alguns dos trunfos que o representante do Governo considerou terem sido fundamentais para os vinhos “diferentes e melhores” nos últimos 16 anos.

Ainda nos números, o Secretário de Estado da Agricultura realçou a vantagem que os vinhos Verdes tem manifestado nos mercados de exportação, tendo verificado em 2016 um volume de vendas superior a 60 milhões de euros, um crescimento a dois dígitos “muito para além do crescimento de outros tipos de vinho”.

É preocupação do Governo continuar a apoiar a agricultura”, frisou ainda o Secretário de Estado nesta abertura, reconhecendo que o sector agrícola “estratégico para qualquer país”, está a atravessar uma boa dinâmica. “Estamos a crescer em exportações a taxas superiores ao resto da economia. Um sector em que há pouco tempo pouco se acreditava, muitos também achavam que os chamados sectores tradicionais, como o têxtil, o calçado e a agricultura estavam em declínio. Nada disso aconteceu, são três sectores com grande dinamismo e pujança”.

Luís Medeiros Vieira levanta ainda o véu sobre os apoios no âmbito do PDR 2020. “Eram 30 mil candidaturas, estão todas analisadas, já decidimos cerca de 15 mil, num investimento na ordem dos dois mil milhões de euros. É trabalho já feito, compete agora desenvolver esses projectos”, indica.

Espumantes são a nova ‘trend’ do Alvarinho… e já se vê nos copos

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Entre os visitantes, são muitos os que já querem provar, apontando, “daquele”. “Aquele” é o espumante, cuja moda veio para ficar. Atentos a este novo perfil de consumidor, os produtores já tem uma parte da sua produção destinada ao espumante, cada vez mais estrela na Festa do Alvarinho e do Fumeiro de Melgaço e em alguns mercados.

Sobre este mais recente produto resultante da casta alvarinho, o presidente da Câmara de Melgaço realçava, em dia de abertura da festa, a qualidade de alguns dos novos espumantes em prova “são realmente fantásticos e prometem ser produtos nobres da sub-região”, destacou.

 

Confirmação absoluta” para o Alvarinho Wine Fest, com ou sem Monção

A origem do Alvarinho

Foto: Nuno Fontinha

Com base nas recentes notícias [a que fazemos referência neste jornal, com o título “Autarquia monçanense desiste da estratégia de promoção Alvarinho Wine Fest”] que dão conta da desistência da autarquia de Monção no apoio ao evento Alvarinho Wine Fest, realizado em Lisboa, Manoel Batista frisou, no primeiro dia da festa maior do concelho, a continuidade de Melgaço nesta aposta promocional na capital. “É importante que estes eventos, quer a Festa do Alvarinho e do Fumeiro, quer o Alvarinho Wine Fest, quer a Festa do Espumante, permitam abrir janelas de oportunidade para os nossos produtores, é para isso que as construímos. Por isso a confirmação é absoluta, vamos avançar com o Alvarinho Wine Fest. Será uma realidade este ano, como estava prometido”.

Os produtores de Monção não estarão, no entanto, fora desta iniciativa, como frisou Manoel Batista, assegurando que a festa está aberta “aos produtores de Melgaço e aos de Monção”, aos quais a entidade organizadora, o grupo Cofina, fará o convite.

Com a autarquia monçanense, considera Manoel Batista, “não há qualquer tipo de conversa, neste momento”. “Quem tomou a iniciativa de não estar presente foi Monção, não é lógico que seja Melgaço a tomar a iniciativa de conversar para perceber o que se passou”.

No entanto, o autarca diz-se confiante em que “a seu tempo”, “o município de Monção terá a hombridade necessária para dizer ao município de Melgaço o porquê da sua não participação e esclarecermos estas questões”.

O Alvarinho Wine Fest levará de novo, segundo a comunicação da autarquia, os sabores e saberes da sub-região até Lisboa no primeiro fim-de-semana de Junho.

Alguns países só têm como referência alvarinhos espanhóis fraquinhos”

DSC_3557Os showcookings e as provas comentadas são uma das inovações da últimas edições, que tem permitido dar a conhecer a versatilidade dos produtos da sub-região, de Melgaço e sobretudo, esclarecer o público de que o vinho verde, apesar do nome, só é vindimado depois das uvas maduras.

Manuel Moreira, sommelier e colaborador da Revista de Vinhos – A Essência do Vinho, apresentou a prova comentada sob o tema “Alvarinho e o seu território de eleição”.

Natural de Ponte de Lima, escanção desde 1997, Manuel DSC_3459Moreira admite que o Alvarinho esteve sempre presente desde que começou a trabalhar com vinho e recorda, em declarações a este jornal, o entendimento familiar em relação aos produtos desta casta. “O meu pai olhava sempre para o Alvarinho como algo especial, qualquer coisa de gente rica. Era cotado como qualquer coisa de super especial, dentro da região [dos Vinhos Verdes].

Diz que a sub-região não deve temer as produções de alvarinho espalhadas pelo país, mas valorizar a diferenciação proporcionada pelo terroir. “Há aqui um conjunto de características muito particulares. Se provarmos vinhos alvarinhos de Lisboa, Setúbal, do Alentejo ou um ou outro do Algarve, lado a lado com os vinhos de Monção e Melgaço, eles distinguem-se a léguas”, frisa.

As qualidades da uva são o atractivo para que a produção seja estendida um pouco por todo o país, mas por vezes a intenção de quem planta alvarinho não pretende competir com o produto da sub-região, mas salvar o seu próprio vinho, como revela o sommelier. O ponto de partida é a uva. É tão boa e consegue adaptar-se tão bem a climas quentes que não perde acidez e é aromática e foi isso que atraiu os enólogos do Alentejo, para equilibrar os vinhos deles também. É uma zona quente, tem problemas em segurar a acidez e o Alvarinho tem-na”.

Manoel Moreira nota que, apesar do “pouco conhecimento do que é o Alvarinho em Portugal”, é o perfil que o vinho conquista em Monção e Melgaço que o valoriza entre o público. “Muita da atracção do Alvarinho está na sua elegância e exuberância aromática”.

A evolução da sub-região passa também pela “precisão” com que os agentes locais conseguem trabalhar a diferença, indica Manuel Moreira, procurando valorizar o produto através a criação de vinhos “de parcelas muito especiais” que transmitem qualidade superior ao vinho e “ajudam a subir o preço médio de venda”.

Do seu conhecimento do mercado nacional, o sommelier refere que “os restaurantes de qualidade têm grande respeito pelo Alvarinho”, mas diz que ainda há a fazer muito trabalho além fronteiras para dignificar este vinho.

Alguns países têm como referência alvarinhos espanhóis fraquinhos, conhecem mal os bons alvarinhos de Espanha e muito mal os grande alvarinhos de Monção e Melgaço e metem tudo sob o rótulo Vinho Verde. Esse é um trabalho de reconhecimento que trará muito interesse, em termos turísticos, à sub-região”, indicou.

Prémios do concurso do fumeiro e produtos locais

VENCEDORES DA EDIÇÃO DE 2017

Broa
1º – Dorinda Pinheiro, Produtos de AlvaredoDSC_3616
2º – Inês de Sousa Lobato, Fumeiro Tradicional
3º – Padaria Pastelaria “A Castrejinha”

Mel
1º – Carlos Manuel Pinto (Chaviães)
2º – Luís de Jesus Soares (Prado)
3º – Fernando Alves Vaz (Paderne)

Presunto
1º – Quinta de Folga
2º – Delicias do Planalto
3º – Sabores Castrejos

Salpicão
1º – Quinta de Folga
2º – Fumeiro Tradicional de Castro Laboreiro
3º – Delicias do Planalto

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Premiados em discurso directo:

Rui Lameira, Quinta de Folga

Recebemos com agrado esta distinção. Os prémios são importantes, valem o que valem, mas o importante deste concurso integrado na Festa do Alvarinho e do Fumeiro é o estímulo aos produtores, para aferir a qualidade dos produtos. Essa qualidade tem vindo a manter-se num patamar elevado. O segredo está na matéria prima, que é o porco Bísaro e é isso que nos permite fazer produtos diferenciados e marcados pela tipicidade. O trabalho de recuperação [da raça] foi começado há três décadas e ainda hoje é difícil ter quantidade de matéria prima para servir todos os produtores, mas essa aposta tem de ser feita, embora o importante e o que está na base da qualificação dos produtos seja perpetuar no tempo a arte do saber fazer, das receitas à lenha para o fumeiro”.

Pedro Pinheiro, Produtos de Alvaredo

Recebemos com orgulho este prémio. É sempre bom, sinal de que a qualidade perdura e temos de trabalhar cada vez melhor. O nosso segredo é sobretudo a textura, o sabor, e o fazer tradicional, que praticamente já não se usa no pão de hoje em dia, como o forno antigo, aquecido a lenha. Vendemos apenas para alguns restaurantes do concelho e à sexta-feira e sábado. A procura tem aumentado nos últimos anos, mas iremos manter sempre este conceito”.

João Martinho

Texto publicado na edição de Maio do jornal “A Voz de Melgaço”