Autarquia melgacense denuncia “má fé” da CVRVV no processo de alargamento do alvarinho

 O Município de Melgaço e os produtores do concelho acusam a Comissão de Viticultura da Região dos Vinhos Verdes (CVRVV) de “má fé” na condução do processo que determinou o alargamento da utilização do selo Vinho Verde Alvarinho a toda a região dos Vinhos Verdes.

DSC_4461Em conferência de imprensa realizada a 24 de Maio, a autarquia denunciou a existência de um dos agentes da região já estaria a utilizar o selo Alvarinho Vinho Verde em garrafas de Alvarinho no mercado externo, não respeitando o período de transição que o acordo tinha negociado.

“Por altura da Festa do Alvarinho, tivemos conhecimento comprovado e documentado de que a região dos Vinhos Verdes já autorizou selos, de forma que, neste momento, já há empresas da região a rotular Alvarinho Vinho Verde”, referia o presidente da Câmara de Melgaço, Manoel Batista na conferência que juntou também alguns dos produtores do concelho.

Recorde-se que a alteração legislativa resultante do acordo firmado em Janeiro de 2015, determina que a partir da colheita de 2021, toda a região dos Vinhos Verdes poderá utilizar o selo Vinho Verde DOC (Denominação de Origem Controlada) nas produções de Alvarinho, uma indicação até agora limitada apenas aos vinhos produzidos e vinificados na sub-região de Monção e Melgaço. Os produtores e engarrafadores da região dos Vinhos Verdes apenas poderiam indicar IG (Indicação Geográfica) Minho nas suas produções de Alvarinho.

O processo iniciado em 2014, com objectivo de unificar a rotulagem dos alvarinhos da região dos Vinhos Verdes com selo DOC, era pretensão dos agentes económicos do sector, que tinham até então de rotular as suas produções de Alvarinho com a indicação Regional Minho, de menor valor comercial.

No entanto, a autarquia melgacense, que tem liderado a contestação desde o início, critica a celeridade com que os organismos que negociaram o acordo procuraram concluir o processo. “Não fazia sentido a velocidade com que estava a ser tratado, porque este era um processo delicado, que deveria ter um estudo sério”, observa.

Manoel Batista diz que o acordo entretanto publicado em Portaria “estabelecia de forma clara que haveria um período de transição de seis anos, dentro do qual a exclusividade da produção de Alvarinho Vinho Verde se manteria na sub-região de Monção e Melgaço. Esse era o espírito de acordo que li”.

Face ao que a autarquia considera um “atropelo” ao acordo, a autarquia exige uma “revisão imediata das Portarias” e pede a demissão de Manuel Pinheiro, presidente da Comissão de Viticultura da Região dos Vinhos Verdes (CVRVV), acusando-o de não ser “pessoa credível” para o cargo. “Quem esteve à frente de todo este processo e o acelerou e procurou que ele fosse rapidamente concluído, não é pessoa credível para se manter à frente da Comissão dos Vinhos Verdes. Exijo que o senhor presidente da CVRVV ponha o seu lugar à disposição, porque não tem condições, depois destas trapalhadas”.

Ainda sobre a legitimidade da colocação de rótulo Alvarinho Vinho Verde em produto engarrafado fora da Sub-região de Monção e Melgaço, a autarquia diz que, a haver oportunidade para que “esta rotulagem antecipada” não possa ser contestada pela regulamentação, tal só poderá ser justificada por “distracção” ou “má fé”. “Abriu-se uma janela na Portaria para fazer esta geringonça e quem aproveita a janela, para não dar nas vistas, rotula o produto para colocar no mercado externo”, notou o edil melgacense.

Vinho engarrafado em Penafiel é “100% Monção e Melgaço” garante Manuel Pinheiro

 

Contactado pelo jornal “A Voz de Melgaço” após esta conferência, o presidente da CVRVV, atribui “temores” políticos à motivação de protesto do autarca de Melgaço e esclarece que o selo com a Denominação de Origem Vinho Verde pode ser utilizada em qualquer vinho que seja cem por cento Alvarinho cuja proveniência seja a sub-região de Monção e Melgaço.

“Desconheço quais as dificuldades que o Presidente da Câmara de Melgaço tem para a sua reeleição, mas não deve misturar assuntos do vinho com assuntos das eleições autárquicas”, atirou Manuel Pinheiro.

Sobre a indicação do vinho que espoletou a denúncia, esclarece que a marca em causa, embora engarrafador fora da sub-região “o rótulo cumpre todos os requisitos da lei e o vinho que está a rotular é integralmente proveniente de Monção e Melgaço. Comprado a produtores que são conhecidos e controlados”.

“O presidente da Câmara de Melgaço não é chamado a decidir as eleições da Comissão dos Vinhos Verdes, aliás, a única eleição que está em agenda é a eleição dele, por isso percebo o temor que ele tem”, observou ainda Manuel Pinheiro.

Questionado sobre a eventual confusão entre a origem da produção e o engarrafamento durante os anos de transição, o presidente da CVRVV assegura que a lei está a ser cumprida no que respeita à origem do produto “A lei diz que só depois de 2021 se pode fazer Alvarinho fora de Monção e Melgaço. Sabemos que até 2021, todo o vinho verde Alvarinho é de Monção e Melgaço. E está certo, mas este vinho é cem por cento de Monção e Melgaço”, conclui.

João Martinho

(texto publicado na edição de 01 de Junho do jornal “A Voz de Melgaço”)