Onde estão “as meninas de Castro Laboreiro”, mais de três décadas depois da viagem de Saramago?

Em 2017, completam-se 38 anos desde a “Viagem a Portugal” (‘pela rama’, acrescentaríamos nós) de José Saramago, naquela que é uma dissertação sobre alguns aspectos históricos, paisagísticos e de análise a um país pré-CEE.

A páginas tantas, aquele que viria a ser o ilustre (e único, até hoje) escritor nobelizado detém-se na análise de um quadro tipicamente rural. Num livro atento aos detalhes do granito dos monumentos e ao acidentado da paisagem minhota, o autor detém-se a contemplar duas meninas, a brincar com bonecas. Estava em Castro Laboreiro, em frente à estação dos Correios.

Como é Castro Laboreiro na memória das crianças dos anos 70?

 Onde estão e do que se lembram estas meninas deste encontro, quase quarenta anos depois? Fomos à procura das duas meninas e das suas memórias de uma infância vivida a mais de 1100 metros de altitude.

Hoje, Sandra Marques Silva e Sónia Fernandes, ambas com 41 anos de idade, poucas memórias guardam do momento com o “senhor de barbas” (?). A melhor memória é mesmo a foto, publicada no conhecido livro, que revela tão amplamente os traços já reveladores das feições de ambas, com o que brincavam e até “a linha branca das meias, que tive de coser à presa, porque eu queria ir brincar mas a minha mãe obrigou-me”, revela Sandra, numa memória criada com a ajuda da mãe.

À altura da foto, tinham 5 anos de idade e algum receio de tudo. Não sorriram para a foto poque não lhes foi pedido e elas ainda não sabiam fazer pose. Ficaram porque a mãe de Sónia, “chefa” do posto de Correios de Castro Laboreiro, foi consultada sobre a autorização para fotografar as crianças.

Hoje, Sandra, empregada numa pastelaria no centro da vila de Melgaço, recorda algumas das vivências na freguesia castreja, onde permaneceu de 1974 a 1982. Da Escola Primária “com uma sala para os quatro anos de ensino”; dos Invernos “que eram uma desgraça” e não deixavam chegar o padeiro à freguesia por causa da neve e até das viagens de autocarro para visitar os avós, até porque a carreira “deixava as pessoas junto ao J. Lima e tínhamos de ir a pé para Paderne”.

A mãe era tecedeira, o pai era Guarda-Fiscal. Moravam no centro da vila castreja, na casa “Albergue de S. José” e sente que, apesar de alguma melancolia e isolamento da localidade, “nunca nos faltou nada”.

Se hoje pudesse confrontar o autor do livro sobre os dizeres a propósito da terra castreja, não o questionaria sobre o rigor na descrição do castelo – “também só lá fui uma vez, já depois de casar” – mas sobre aquilo que o escritor não falou. “Não falou dos cães de Castro Laboreiro, nem falou com o padre Aníbal, uma pessoa que sabia muitas histórias sobre Castro”.

A conversa com Sónia Fernandes, na imagem, à direita, teve de ser com recurso às tecnologias. Engenheira Civil de profissão e a trabalhar em Moçambique, a “menina” do livro de Saramago não se lembra do encontro, mas tem na vila castreja a sua terra-mãe, que visita com frequência.

“Sempre foi e será a minha terra natal. Saí de lá para estudar e mais tarde para trabalhar, mas sempre tentei passar lá, férias , fins-de-semana e épocas festivas junto com a minha família. Tive uma infância maravilhosa em Castro Laboreiro; em liberdade, rodeada de família e gente conhecida. Passei o tempo todo em contacto directo com a natureza, aprendi com os mais velhos os costumes e as tradições características de uma pequena aldeia e tudo isto é um privilégio para muito poucos”.

Daquilo que ficou por dizer no livro de Saramago, Sónia “desculpa” o escritor pelo objectivo da obra. “Muitas coisas ficaram por dizer: A boa gastronomia, as aldeias típicas, as construções romanas, a simpatia, a frontalidade e amabilidade das pessoas, mas julgo que a intenção do autor foi transmitir ao leitor a simplicidade da vida em Castro Laboreiro e despertar no mesmo a curiosidade e vontade de visitar esta vila”.

João Martinho

(texto publicado na edição impressa do jornal “A Voz de Melgaço”, em 2016)