Melgaço em Festa 2017: Regressa o cinema, recordam-se os arganões e as festas de bandas ao despique

 

 

São quase 15 dias de programa festivo com actividades abertas ao público que decida passar a primeira quinzena de Agosto em Melgaço. O programa da autarquia para o Verão de 2017 continua a apostar em algumas iniciativas criadas no âmbito do Melgaço em Festa e suspende outras – a Feira de Artesanato e o Festival das Tapas e do Alvarinho – sem garantir se voltará às dinâmicas do passado.

Na apresentação do cartaz para este período, que já iniciou a 31 de Julho, Manoel Batista garantiu que a aposta no Festival Internacional de Documentário de Melgaço – Filmes do Homem é “sagrada” e que vem cativando o interesse de profissionais e público internacional, ainda que “difícil”.

“Sabemos que é difícil, não é do agrado generalizado, porque estamos a falar de um produto cultural diferenciado, mas tem tudo para vencer no futuro. São muitos os sinais e o facto de termos este ano 600 filmes a concurso para o prémio Jean Loup-Passek é uma nota clara de que o festival tem hoje uma repercussão grande no país, mas também lá fora”, observou o autarca.

As sessões são, como já foi referido, gratuitas para todos, assim como a participação em várias iniciativas paralelas à exibição de filmes. O III Encontro Arraiano de Cinema (4 de Agosto, na Casa da Cultura), ou a apresentação do livro “Arraiano Entre os Arraianos”, de Xosé Luís Méndez Ferrín (5 de Agosto, no Salão Nobre da Câmara Municipal) ou o programa “Salto a Melgaço”, são experiências em que o público em geral pode participar.

Algumas das comemorações encetadas por este novo programa de festas concelhias continuarão, como o Dia do Brandeiro (5 de Agosto, na Branda da Aveleira) e o Dia da Diáspora melgacense (12 de Agosto), onde serão distinguidas personalidades, associações ou instituições de Melgaço que se destacaram pela sua obra.

Sobre o Dia do Brandeiro, que mereceu aposta e atenção ao programa reforçadas nos últimos anos, Manoel Batista manifesta a vontade em distinguir “esta marca da transumância, muito característica do nosso município, ligeiramente no município de Arcos de Valdevez, mas fundamentalmente no município de Melgaço”.

No rol das novidades estarão as Noites no Parque, que trazem a Melgaço DJ’s e artistas musicais de vários estilos musicais, entre 4 e 11 de Agosto (Parque do Rio do Porto), mas também uma encenação que envolve a comunidade e associações melgacenses. Os arganões, seres míticos do imaginário popular melgacense, serão a figura central do cortejo que se realizará de vários pontos da vila até ao Largo Hermenegildo Solheiro (12 de Agosto). Ao espectáculo místico seguir-se-á um despique de Bandas Filarmónicas no mesmo largo, um espectáculo típico das festas minhotas, que nesta noite colocará lado a lado a Banda Musical Lanhelense e a Banda de Música de Moreira de Lima. “Procuramos diversificar e trazer alguns elementos que possam agradar a faixas etárias diferentes”, sublinha Manoel Batista, considerando ter neste programa “motivos de grande qualidade para as pessoas ficarem em Melgaço, ou virem até Melgaço”.

No último dia, o concerto de Ana Moura (dia 13 de Agosto, às 22h30) fecha o programa festivo, que encerra com espectáculo pirotécnico e musical.

A identidade universal do Festival Filmes do Homem

“Constrói-se uma identidade em Portugal, na Síria ou noutro país do oriente”

São 24 filmes (15 longas e 9 curtas e médias-metragens) que abordam a identidade, memória e fronteira, tema deste festival fronteiriço. Na lista de candidatos há filmes de países como a Finlândia, a Suiça, os Estado Unidos, Reino Unido e o Iraque. Está aqui mais de meio mundo, mas a identidade não será o obstáculo deste festival, como garante o director do festival, Carlos Eduardo Viana.

O exercício de identificação – visualização dos filmes, entenda-se – poderá ser feito durante as sessões na Casa da Cultura, mas também nas sessões itinerantes que percorrerão os espaços comunitários das freguesias. Castro Laboreiro, Lamas de Mouro, Cristóval, Alvaredo recebem assim algumas das sessões programadas, assim como as localidades galegas de Arbo e Padrenda.

Os quatro filmes realizados no âmbito da Residência Cinematográfica Plano Frontal em 2016 são apresentados no dia 1, e “fazem o retrato de pessoas de Castro Laboreiro e de Cevide”, explica Carlos Viana.

Os filmes documentais “A Maldição”, de Nuno Escudeiro; “Pena D’Anamão”, de Ricardo Dias; “Os Estrangeiros”, de Rita Al Cunha; e “Águas Profundas”, de Josephine van Grinsven, são os quatro trabalhos sobre gente e património imaterial de Melgaço que agora se pode guardar, como reforça o organizador. “Esta residência cinematográfica deixa em Melgaço uma memória imaterial que é fundamental que deve ser criada e preservada”.

O III Encontro Arraiano de Cinema, uma actividade que pretende “fomentar o diálogo cultural e institucional entre fronteiras”, vai reunir em Melgaço os representantes de cineclubes e festivais internacionais no sentido de aproximar e estimular a criação de uma rede de colaboração.

Depois das primeiras iniciativas no Festival de Verín, na Galiza e no Festival de Cinema Carlos Velo, Melgaço acolhe assim a terceira edição deste momento de aproximação das entidades que fazem mover o cinema.

“O Filmes do Homem tem um caminho que se vai fazendo, devagar, para ser consolidado. De ano para ano temos mais filmes e este ano tem uma qualidade média muito boa. É um sintoma indicativo de que o festival está a crescer e a consolidar-se”, notou Carlos Viana.

Sobre o esgotamento do tema, ou a identidade do público maioritariamente português com os filmes que chegam de paradigmas sociológicos ou económicos diferentes, o director do festival diz que a força destes temas é a identidade e o conceito abrangente que este festival abraça. “A fronteira é universal, assim como a questão da identidade. Constrói-se uma identidade em Portugal, assim como se constrói uma identidade na Síria ou noutro país do oriente. São conceitos abrangentes e abertos”.

Por cá, as histórias poderão convergir, mas originam sempre um património diferente. “Para nós é importante filmar pessoas que tenham uma história interessante. Claro que as pessoas que temos filmado acabam por reflectir estes temas, mas importante para nós é registar esse património imaterial de Melgaço, que nos é dado através da vida das pessoas”.

João Martinho

(texto publicado na edição de 1 de Agosto do jornal “A Voz de Melgaço”)