Venezuela: Mais de 100 dias de luta de um povo que sabe o que não quer

“É difícil ver famílias inteiras a comer coisas do lixo, a fazer filas por um simples pão…”

 

No momento em que alinhamos este texto para a edição de Agosto, a tensão nas ruas de Venezuela está ainda latente. As notícias que chegam dos factos, e muitos são os jornais que fazem um report quase hora a hora dos desenvolvimentos, apontam para um agravamento da situação.

Na véspera de uma greve geral, a 20 de Julho, a peça de João Francisco Gomes para o jornal digital “Observador” descrevia o cenário desolador das ruas venezuelanas: “Linhas de metro completamente desertas, ruas vazias, universidades sem aulas, apenas os serviços básicos em funcionamento numa cidade com tudo fechado — enquanto o Governo apela a que os trabalhadores vão para os seus empregos”.

Naturalmente, os protestos foram avante. O regime de Nicolás Maduro é, popularmente, insustentável. Ao povo, resta apenas a manifestação de repúdio e é disso que dá ainda nota a notícia do “Observador”: “Trata-se do último grande protesto marcado pela Mesa da Unidade Democrática na sequência de três meses de violentos protestos que já resultaram na morte de 96 pessoas”.

Muitos portugueses, do Minho ao Algarve, têm ligações a este país. Familiares, ou os próprios, debatem-se agora com a grande dúvida: Partir sem nada ou tentar ficar, com a esperança de recuperar o fruto do trabalho de uma vida?

Pelo interesse que este caso político tem para os portugueses e para o mundo, quisemos perceber como é viver por dentro, no dia-a-dia de um país em confronto, com um povo que sabe o que não quer.

O testemunho que se segue, a pedido do jornal “A Voz de Melgaço”, é de Ana de Pinho Uceda, uma jovem venezuelana de 20 anos de idade, estudante de Comércio Internacional, que se recusa a deixar o país, quando o desejo de muitos é sair de uma conjuntura “sem futuro para os jovens”. Afinal, que justiça faria aos jovens que morreram a lutar pela liberdade, se pegasse nas malas e partisse para longe do conflito que poderá marcar a história do seu país?

João Martinho

 

Venezuela é um mar de emoções. Um artigo não bastará para poder explicar-vos o que se vive no meu país actualmente, mas ainda assim, tentarei.

O meu nome é Ana de Pinho e sou venezuelana, filha de pais estrangeiros. O meu pai é português e a minha mãe é peruana. A primeira reacção, perante tudo isto, é: “Porque é que não vais embora daqui?” E não faltam os comentários de quem diz que “o futuro dos jovens não está aqui”, e o mais lamentável de tudo isto é que estas mensagens não se afiguram de todo mentira: Não há trabalho, não há comida, não há educação e sobretudo algo muito importante, amor pelo nosso país.

Como chegamos a esta situação? Por más decisões e falta de conhecimento no momento de eleger aqueles que hoje nos governam, uma cúpula narcotraficante e corrupta. A sua má administração e roubo gritantes trouxeram-nos um sem fim de consequências económicas e sociais que ferem profundamente as nossas raízes.

É difícil passar pelas ruas da minha cidade natal, Caracas, e ver famílias inteiras a comer coisas do lixo, a fazer filas por um simples pão ou mesmo roubando com a desculpa de que não têm nada para dar aos filhos. Os únicos que têm a possibilidade de fazer as três refeições diárias são os apelidados de “enchufados” [a expressão não tem tradução literal para português, mas refere-se aos privilegiados que, embora não pertencendo à máquina política, são favorecidos por influência naquele meio].

Atravessamos a pior crise política da história da Venezuela, onde o nosso futuro depende de um partido político cujo esforço está baseado em negociações com aqueles que nos destroem, e que é uma oposição que não representa a maioria dos venezuelanos e a sua vontade de sair deste momento triste e desesperante do seu país.

No meio de tudo isto, em que posição nos encontramos? Não é segredo nenhum a guerra civil que tomou conta das nossas ruas, onde milhares de venezuelanos saem a manifestar descontentamento e repúdio ao regime. Em resposta, somos reprimidos com armas e violência, violando os nossos direitos como cidadãos.

Já se somam mais de 100 dias de luta, para uns mais, para outros menos. Porquê menos? Falemos dos caídos, a quem devemos a esperança que hoje ainda guardamos nos nossos corações. Jovens que perderam a vida em prol da liberdade e de um futuro melhor para a Venezuela. A eles estaremos agradecidos eternamente.

Mas falemos também dos venezuelanos e do seu carisma, porque nem tudo é mau. Somos pessoas trabalhadoras e com optimismo, algo que nos caracteriza para onde quer que vamos. Aspiramos a uma Venezuela melhor, na qual possamos visitar as suas savanas e praias, onde possamos comer uma Arepa [especialidade da América Latina, um género de pão de milho, geralmente recheado], onde possamos simplesmente envelhecer… Queremos ver novamente unidas as famílias que o Governo, com a sua falsa política, separou…

Espero ver todos os venezuelanos de volta. Todo o nosso discurso se baseia num “espero” constante, já que são muitas as lágrimas derramadas pela tristeza que invade a nossa razão, esperando que nem tudo seja em vão. Esperamos por isso que a nossa Venezuela possa renascer e celebraremos a liberdade com cuatro [instrumento de cordas típico da América Latina] arpa e tambores. Sei que em breve chegará!

Venezuela, tenho em ti as minhas ilusões.

Ana de Pinho Uceda

(texto publicado na edição de 1 de Agosto do jornal “A Voz de Melgaço”)