É de origem melgacense a última marca que ainda sabe fazer o famoso Café Português

A Flor da Selva está na Madragoa mas vende café para o mundo

 

Chega-se lá pela chaminé. A Travessa do Pasteleiro, no coração da Madragoa, em Lisboa, é uma rua como as que vemos nos postais. A forma como as casas se alinham, a aparente paz que parece isolar o bairro do coração de Lisboa das artérias hiperactivas da ‘zona nova’ da capital tornam este nicho um enclave especial entre épocas.

A Flor da Selva não nos parece nada uma empresa, daquelas com grandes montras de vidro e com anúncio, para serem chamativas. A entrada é discreta e, enquanto fazemos o exercício de perceber se é mesmo ali, alguém nos interrompe o processo: “Oh vizinho, é melhor entrar, olhe a cabeça!”.

Uma senhora, do outro lado da rua (ali a dois passos) chama-nos a atenção para um balde que vem a descer, preso por uma corda. Talvez o piso de cima em obras, e à falta de grua, circulava o balde à força de braço. Agradecemos mas não lhe retribuímos o trato por vizinha, que isto das distâncias de vizinhança é relativo, mas como moramos a mais de 400 quilómetros dali, talvez seja forçar a geografia a uma falsa proximidade.

Entramos e era ali. O cheiro a café denunciou logo o ramo de actividade e os sacos de café também. Jorge Monteiro, sócio-gerente desta empresa familiar, recebe-nos e, em menos de nada, estamos a desfiar o rosário de penas e memórias deste filho de melgacenses que vingaram na capital do país.

O pai de Jorge, Manuel Alves Monteiro, fundou a marca de cafés Flor da Selva em Outubro de 1950, mas antes de se lançar em tamanha empresa e entrar na corrida do café, começou por trabalhar e estudar desde cedo na capital.

Foi um tio materno, o conhecido fotógrafo  Manuel Alves San Payo, que o levou de Melgaço para a capital, logo após a instrução Primária. Aí, a vida começou a dar-lhe trabalho, mas profícua. Estudava no Ateneu Comercial de Lisboa durante a noite e durante o dia ocupava-se com trabalhos que ia arranjando em mercearias.

A expansão do café estava a acontecer naquela altura. Das províncias ultramarinas vinha o melhor café e por cá as torrefacções, lideradas por entusiastas da arte do café, vinham apurando a fórmula que acabaria por dar fama ao país. Manuel Alves Monteiro não queria ficar fora da corrida e depois de alguns anos a trabalhar em sociedade, de uma quota que tinha na Flor Africana, outra loja dedicada aos cafés, decidiu criar a sua própria marca.

Assim, a meio do século XX, em Outubro de 1950, criava a Flor da Selva, uma unidade de torrefacção e venda de cafés. Por essa altura, ainda predominavam as misturas em lata, com o café, cevada e a chicória, mas em alguns círculos já se caminhava para o café puro, que vinha em generosas quantidades e de qualidade de Angola e São Tomé. Era o momento.

Neste processo, Manuel Alves Monteiro casou-se. Veio a Melgaço, arranjou mulher e casaram, tinha ele 21, a mulher 20 anos de idade. “Foi companheira de trabalho dele”, recorda Jorge Monteiro.

E tudo aconteceu rápido. “Criou uma loja própria, na Rua da Esperança, com um visual muito avançado para a época. Ao mesmo tempo arranjou um armazém numa rua adjacente, na Travessa do Pasteleiro, onde estamos actualmente, onde colocou uma máquina de torrefacção pequena, de 25 quilos, que dava apoio à loja”, explica o actual responsável da Flor da Selva.

Com o incremento do café puro, criou aquela que seria a primeira cadeia de lojas (hoje talvez lhe chamassem franchising) e estabeleceu a primeira rede de máquinas de venda de cafés nas salas de espectáculos de Lisboa.

Comprou uma série de máquinas de saco e espalhou-as pelas salas, permitindo que nos intervalos das sessões, os espectadores pudessem tomar um café puro no tempo de intervalo, o que obrigava a um sistema engenhoso e elaborado. Os equipamentos, num sistema quase idêntico às máquinas de balão, misturavam um pacote de 125 gramas de café a um litro de água, misturando e filtrando o café. “Lembro de muitas noites em que ajudava a minha mãe a fazer esses sacos, para colocar nas máquinas”, diz Jorge Monteiro.

Anos mais tarde, e perspectivando a colocação dos irmãos mais novos no negócio, foi alargando a rede de lojinhas pela cidade. O que aconteceu, foram migrando para Lisboa e iam estagiando naquele meio. “Foi instalando os irmãos em várias lojas espalhadas pela cidade, com os irmãos e outros colaboradores, num total de dez casas. Tínhamos uma rede de lojas que era abastecida pela nossa marca”, descreve ainda o filho do visionário melgacense.

Jorge Monteiro partilha com o irmão a gestão da empresa, mas é a si e ao seu filho que cabe a maior parte da missão de tornar a marca rentável e diferenciadora. A passagem de testemunho de pai para filho foi natural, já que foi ao filho Jorge que couberam algumas das missões mais intrincadas.

A montagem da fornalha de torrefacção, um colosso com fama de ser “o Mercedes” dos equipamentos a trabalhar no sector dos cafés, deveu-se à determinação de Jorge Monteiro e à inoperacionalidade de um técnico alemão que nunca apareceu. “As pessoas que venderam a máquina tinham dito que viria um técnico da Alemanha para proceder à montagem, mas como talvez fosse um processo demasiado oneroso para eles, acabou por nunca mais vir o técnico e a máquina estava aqui em caixotes, era preciso montá-la e pôr isto a funcionar. Um dia agarrei nos desenhos e com uma equipa de serralheiros, pessoas já familiarizadas com este tipo de equipamentos, nós próprios fizemos a montagem. Ainda hoje é a mesma”, conta. E já lá vão mais de quarenta anos. Substituir, só algumas peças que, com as altas temperaturas, sofrem algum desgaste.

O mercado dos cafés mudou muito desde a fundação da Flor da Selva, há 67 anos. Hoje, as multinacionais que metem o café em cápsulas, em sacos e em embalagens onde o design é metade da campanha, ganham pela proximidade que conseguem do consumidor. Jorge Monteiro garante-nos que nenhum café que é apenas café aguenta mais do que 30 dias após a torrefacção sem perder qualidades.

Tem clientes espalhados um pouco por todo o país, mas é no mercado de proximidade que garantem mais volume de vendas. Hoje, é possível enviar para qualquer ponto do país e até da Europa em dois, três dias, o que convém para manter a qualidade dos cafés Flor da Selva. “É um café que tem de ser vendido e consumido rapidamente. Não é estabilizado, nem lhe é adicionado nada, é totalmente natural e é perecível, não tem uma durabilidade muito extensa”.

O armazém, ainda que pequeno, já trabalhou a todo o gás – ou a toda a lenha, já que é com madeira que se alimenta o fogo da fornalha que torra os grãos de café – quando o café que vinha das províncias ultramarinas era muito e de boa qualidade. “Chegamos a produzir 30 a 40 toneladas por mês, o que era bastante para uma casa desta dimensão. Actualmente estamos nas 7 toneladas e a trabalhar com tempo repartido, dois meios dias de torrefacção por semana. Antigamente fazíamos todos os dias. Nessa altura chegamos a ter vinte trabalhadores em permanência, hoje somos só cinco”.

A última marca a fazer o famoso Café Português

“Portugal tinha uma produção enorme de café. Em termos de Robusta éramos o segundo maior produtor no mundo, exportávamos café para todo o lado. Nessa altura, com os cafés que tínhamos disponíveis, criamos uma harmonia, um lote. Todas as pequenas torrefacções que havia em Lisboa tentavam aperfeiçoar o seu lote e criar um paladar distinto, o café genuinamente português”, explica Jorge Monteiro.

Era este blend de cafés, que misturava entre outras, Robusta e Arábica, que criou o sabor distinto e famoso em Portugal e fora de portas. Hoje, só as empresas de dimensão e tradição mais familiar como a Flor da Selva têm o cuidado de manter a fórmula e o sabor desta fórmula vencedora. “Nós fazemos questão de preservá-la, porque é um património cultural. A maior parte das empresas dessa época, como a nossa, agora estão completamente descaracterizada. As famílias abandonaram o negócio e todo este conhecimento empírico, que passa de pais para filhos, foi-se perdendo. Nós ainda somos dos poucos, senão os únicos, que conseguimos preservar essa tradição do que se pode denominar o café português”, ressalva o proprietário.

 

“Desde que saímos de Angola, o café angolano perdeu muito em qualidade”

Com a independência dos territórios que estavam sob domínio português, as relações comerciais com esses países tornaram-se tumultuosas e, não raras vezes, impossíveis. Mas, na altura de contabilizar os prejuízos, Jorge Monteiro diz que alguns dos territórios outrora férteis e prósperos, se tornaram solos improdutivos e sem carisma, pelo que não foram só os portugueses que perderam com a retirada. O café, uma das grandes fontes de rendimento do território angolano, será hoje um mercado de menor valor para a população.

 “Em Angola, tudo o que eram grandes produções agora são produções irrisórias, as plantas estão abandonadas. Perdeu-se muito em quantidade e em qualidade então nem se fala, são cafés com uma qualidade muito baixa. É muito difícil arranjar-se café de boa qualidade em Angola. Enquanto os portugueses lá estavam, era um colosso a produzir café e de qualidade, tinha fama por todo o mundo”, explica o proprietário da Flor da Selva.

Hoje, só com uma selecção um pouco por todo o mundo se pode construir um stock de qualidade, garante. “De Cabo Verde ainda se vai arranjando uns bocados, com muita dificuldade, porque agora é um processo mais complexo mandar vir café de lá. De Timor, conseguimos arranjar com facilidade, porque a República da Indonésia tem tomado conta de todo o processo de tratamento e comercialização do café, por isso conseguimos ter aqui sempre bom café. De São Tomé é difícil de conseguir. É o mais cobiçado e fica num ponto em que o transporte onera o custo. Estamos à espera de receber algum, mas vem de avião e o transporte acaba por ser mais caro que o próprio café”.

Na produção, na torrefacção ou na embalagem, é a matéria humana que faz a diferença. Talvez isso explique o toque especial e a existência da Flor da Selva, no seu nicho de qualidade e mercado. Na fornalha a lenha, que tem de ser constantemente vigiada e alimentada, na verificação da torra dos grãos, na embalagem, todo o processo é feito por mão de obra humana. “A componente humana está acima de todos os processos. Não há aqui nenhum processo exclusivamente automático, é tudo liderado pela mão humana.

Em Melgaço ainda não há café Flor da Selva, mas há algum sentimento em que em alguns espaços, essa vontade em ter um produto feito “com amor” por um filho da terra possa ser apreciado.

“Gostaria que os estabelecimentos melgacenses pudessem ter este produto, mas a nossa política nunca foi empurrar o produto às pessoas, sempre foi fazer uma coisa de que gostamos e oferecer às pessoas que o saibam apreciar. As pessoas que realmente tem gosto por aquilo que fazemos, procuram-nos e que sabem dar valor ao que fazemos”.

Afinal, Jorge Monteiro ainda tem em Melgaço muito de si e dos seus. “Ainda tenho em Melgaço muitos primos. As minhas raízes estão todas lá. Certamente tenho lá família que já não conheço e que gostaria de reencontrar. Mantenho ligação com alguns, estamos sempre a par das novidades. Tenho um tio materno com o qual falo com regularidade. E a minha mãe é assinante d’“A Voz de Melgaço”, também sabe das notícias”, esclarece Jorge Monteiro.

 Amante dos passeios por terras melgacenses, assume-se um admirador do concelho, da vila à montanha. “Gosto muito de ir ao Peso, passar lá uns dias; ir a Castro Laboreiro, subir ao Castelo e descer até Portos. Também gosto de ir à Peneda, fazer a via-sacra, e ao Coto da Meadinha. Fiães, onde tenho um primo, é um local de peregrinação. Tudo aquilo faz-nos sentir no topo do mundo”.

João Martinho
(texto e foto)