Dicionário Clínico: Vacinação e o perigo das campanhas anti-vacinação das crianças

V – Vacinação

Porque vacinamos os nossos filhos?

Ultimamente temos assistido a uma onda de não vacinação das crianças e ao mesmo tempo ao surgimento de crianças infectadas com doenças que julgávamos extintas. Essa onda surgiu em prol de algumas teorias de carácter duvidoso e na maioria das vezes infundadas cientificamente. Assim sendo, neste artigo pretendo explicar o que é a vacinação e qual o risco da não vacinarmos as nossas crianças.

Uma vacina é uma substância derivada ou quimicamente semelhante a um agente infeccioso particular, que geralmente é causador de doença. Esta substância, quando introduzida no nosso corpo através da vacina, é reconhecida pelo nosso sistema imunitário. Este inicia a sua função e tenta dar uma resposta, protegendo-nos da doença que a substância causaria. A vacina, portanto, induz o organismo a reagir como se tivesse realmente sido infectado pelo agente.

O facto de o verdadeiro agente infeccioso não existir na vacina, retira-lhe a capacidade para se multiplicar rapidamente e causar doença, dando ao sistema imunitário tempo para preparar uma resposta específica e memorizá-la.

Assim sendo, no futuro, no caso de a pessoa vacinada ser realmente infectada pelo agente, o nosso corpo responderá com a rapidez e eficácia suficiente para a proteger da doença.

De um modo geral, as vacinas produzidas nos países desenvolvidos são cada vez mais seguras, no entanto não se devem descurar alguns casos particulares em que estas estão contra-indicadas, nomeadamente: no caso de uma doença aguda em que haja febre superior a 38.5ºC e/ou sintomas clínicos acentuados, uma reacção clínica séria na dose anterior da vacina, alergia grave à gema do ovo e a certos antibióticos (em algumas vacinas em particular) e no casos de o sistema imunitário estar alterado por doença ou por terapias (Radioterapia,etc). Nestes casos, deverá procurar o seu médico.

Em Portugal existe o conhecido Programa Nacional de Vacinação (PNV) que foi criado em 1965 e é um programa nacional, gratuito e acessível a todas as pessoas presentes em Portugal. O programa tem sido atualizado regularmente e inclui recomendações para o conjunto de vacinas distribuídas estrategicamente, de forma a maximizar a proteção conferida na idade mais adequada e o mais precocemente possível.

E o que significa afinal a imunidade de grupo que é conseguida através da vacinação? A cobertura vacinal elevada de muitas vacinas permite um benefício extra ao induzir a chamada imunidade de grupo, protegendo não só os indivíduos vacinados, mas também a comunidade uma vez que há a interrupção da circulação do agente infecioso. Somente taxas de cobertura vacinal muito elevadas permitem obter imunidade de grupo por redução da circulação do agente e assim da transmissão da infeção.

Quando surgem movimentos de pais que defendem a não vacinação dos seus filhos não só expõem as suas crianças a riscos desnecessários como contibuem para a quebra dessa mesma imunidade de grupo. Assistimos assim ao ressurgimento de doenças que já eram praticamente inexistentes nos países industrializados, com efeitos devastadores e que muitas vezes culminam na morte dos indivíduos. Estes movimentos fazem-nos refletir sobre o facto de que geralmente temos tendência a esquecer facilmente aquilo que não vivemos e desta forma contribuímos para um retrocesso imenso na realidade da saúde no nosso quotidiano.

A verdade é que o flagelo da Poliomielite ou Difteria não fez parte das nossas vivências e por isso não temos muitas vezes a verdadeira percepção das consequências de uma decisão impensada ou pensada com base em argumentos falaciosos. Sempre que existirem dúvidas, receios e anseios devemos procurar os profissionais de saúde que são uma fonte privilegiada de informação e de desmistificação de modas e novas tendências.

Cuide de si e cuide dos seus. Não se esqueça nós somos os primeiros médicos de nós mesmos.

Alexandra Táboas