Investigadores discutiram em Melgaço o desenvolvimento motor das crianças e os números não são animadores

“É esperado que a geração que está agora nos 18, 20 anos viva menos tempo do que os seus pais”

 

Entre os dias 8 e 11 de Novembro, a Escola Superior de Desporto e Lazer de Melgaço foi o centro de discussão da problemática do século: O desenvolvimento motor.

A escola do Instituto Politécnico de Viana do Castelo (IPVC) recebeu no dia 8 de Novembro a 12ª edição do Seminário “Desenvolvimento Motor da Criança”, que reúne especialistas de todo o país, no entanto, em 2017 integrou neste contexto um maior número de especialistas.

O International Consortium of Motor Development Research (Consórcio Internacional de Investigação em Desenvolvimento Motor, em tradução literal) realizou em Melgaço o seu terceiro congresso, depois de França, há três anos, e Carolina do Sul (EUA), há dois.

Cerca de 90 investigadores portugueses, mas também da Austrália, Estados Unidos da América, entre outros do continente asiático e europeu, expuseram ao longo de três dias os seus pontos de vista e investigações em curso. As conclusões, contudo, não são as melhores para as crianças e jovens de hoje, explicou a este jornal o especialista e director da Escola Superior de Desporto e Lazer, Luís Paulo Rodrigues.

A preocupação das organizações internacionais de saúde e dos governos em geral é o declínio da actividade e, consequentemente, da aptidão motora dos jovens e adultos. A preocupação já não é de hoje, pois há mais de duas décadas que o tema tem vindo a preocupar os especialistas, mas alguns números deste estudo pedem acção (literalmente) a curto prazo.

“Parecerá um pouco contraditório, porque a humanidade tem melhorado a sua qualidade de vida e a sua longevidade, mas há indícios de que em alguns países esta tendência de aumento da longevidade tem vindo a diminuir. Nos Estados Unidos da América é esperado que a geração que está agora nos 18, 20 anos viva menos tempo do que os seus pais”, alertou Luís Paulo Rodrigues. “O sedentarismo está a criar-nos outro tipo de dificuldades”, acrescentou.

O fomento do interesse pela actividade física é fundamental para que as crianças e jovens adquiram controle sobre o seu corpo, mas a chave para a criação de hábitos desportivos é o êxito que a criança tem nessas actividades, como esclarece o director da ESDL. “Aquilo que leva a que nós como adultos possamos ter uma vida mais activa, mais empenhada e desportiva tem a ver com a forma como nós, quando éramos crianças, nos empenhávamos nessas actividades. Uma criança ou um jovem empenha-se cada vez mais numa actividade motora quando tem êxito, e para ter êxito é preciso ter qualidade de movimento”, notou.

E o passado, com os seus defeitos educativos, subdesenvolvimento e ruralidade, parece ter preparado os adultos de hoje para a actividade física. Mas não serão esses mesmos adultos culpados pela limitação de liberdade que indirectamente aplicam aos seus filhos? Um dia cheio, da escola ao futebol, à dança ou às aulas de música pode não ser o tipo de actividade que melhor estimula a criança, reconhecem os especialistas. Brincar, por vezes, é tudo.

“As crianças têm cada vez menos possibilidade de brincar. Há trinta ou quarenta anos, o tempo que as crianças tinham livre para brincar e fazerem o jogo da actividade física era suficiente para criarem um reportório motor que lhes possibilitava serem activos ao longo da vida. Hoje em dia não acontece. Quando comparamos as crianças de 6 ou 10 anos com os seus pares de há trinta ou quarenta anos, a diferença é assustadora. Há avaliações que foram feitas nos anos 70 e 80 (séc.XX) e algumas das crianças que na altura eram assinaladas como tendo dificuldade de aprendizagem motora, ou seja, dificuldade em se mover e controlar o seu próprio corpo, apresentam valores que são hoje a média das nossas crianças. Estão numa fase em que podem ser consideradas de analfabetas motoras”, revela Luís Paulo Rodrigues.

A solução é, por isso, permitir que as crianças tenham ‘furos’ no extenso horário de actividades que os pais de hoje lhes passam. “A recomendação mundial para o tempo de actividade física de crianças é que todas devem ter pelo menos uma hora diária de actividade física não estruturada. Podem e devem ter a actividade estruturada, mas o que está a faltar é a brincadeira e a liberdade de brincadeira e os parceiros para essa brincadeira”, observou ainda o director da ESDL.

Com uma sociedade cada vez mais alerta para a necessidade de actividade física, o momento parece ser mais favorável, mas mesmo nesta camada populacional é importante “criar hábitos” de actividade organizada saudável. “Entrou na moda alguma actividade física. Os ginásios, as actividades de final de semana tem uma preponderância hoje na vida das pessoas que não tinha há uns anos atrás e isso leva a uma mudança de estilo de vida. Muitas vezes, as pessoas vão por motivos de saúde, mas ficam por razões motivacionais”.

O novo conceito dos ginásios terá contribuído, de certa forma, para um ‘rebranding’ diferente daquilo que era a imagem destes espaços há alguns anos, como indica Luís Paulo Rodrigues. “A imagem dos ginásios e dos profissionais que estavam a trabalhar nos ginásios quando começaram a existir não tem nada a ver com os de hoje em dia. Tem havido uma evolução muito grande e exigente, do ponto de vista das organizações”, conclui.

 

Crianças de Melgaço não são o pior exemplo

Estudo no Agrupamento de Escolas dará resultados concretos dentro de três anos

Iniciado há cinco anos, o estudo sobre o comportamento motor das crianças de Melgaço, elaborado em parceria com o Agrupamento de Escolas de Melgaço, acompanhará os alunos desde o 1º Ciclo até ao Ensino Secundário. Esta análise ao processo de evolução motora das crianças servirá “não só para mostrar números, mas para sensibilizar as pessoas e a comunidade escolar para o trabalho que tem se der feito ou continuar o que está a ser feito”, indica Ricardo Lima, coordenador da licenciatura de Desporto e Lazer da ESDL, doutorado em Pedagogia do Desporto.

O estudo em curso precisa de mais dois ou três anos para traçar um quadro evolutivo dos alunos em estudo, mas Ricardo Lima diz que há uma “evolução positiva”. No entanto, os alunos de Melgaço não estão livres do perigo do sedentarismo. “A nossa preocupação é que com o passar dos anos, a partir do 3º ciclo, há um decréscimo da actividade física, muito por causa da vida escolar, que começa a ocupar mais tempo. Muitos acabam por abandonar o desporto aos 18 anos”, diz o coordenador.

“Fala-se da importância da actividade física e dos malefícios da vida sedentária, só que os projectos não tem saído do papel. Toda a gente sabe, mas por em prática está cada vez mais difícil”, atira Ricardo Lima, defendendo que é preciso que as escolas cumpram com a actividade certa a hora semanal dedicada à expressão físico-motora. “Existe essa hora semanal, mas as professoras titulares de turma não tinham competências para dar a aula de expressão físico-motora, e não tendo, não dão, preferem usar essa hora para a matemática ou para o português. Se cumprissem pelo menos essa hora semanal de expressão físico-motora já seria melhor”, reconhece.

No que à validade da componente desportiva no percurso escolar obrigatório diz respeito, também Filipe Clemente, coordenador do Curso Técnico Superior Profissional em Treino Desportivo da ESDL, defende que serão necessárias “novas políticas orçamentais possam sera doptadas no futuro, com base nos conhecimentos que temos vindo a adquirir”.

Considera que a estruturação de actividades está a “castrar a criatividade das crianças”, impedindo-as de “explanar aquilo que é uma necessidade concreta do ser humano, que é a necessidade de se movimentar a par da sua capacidade cognitiva”.

A preocupação com a estruturação, defende Filipe Clemente, deveria estar centrada num horário escolar mais adequado. “O tempo útil das aulas, que neste momento está situado nos 90 minutos, é exagerado, porque ou o docente é extraordinariamente eficaz na capacidade de modular a aula às necessidades de concentração e actividade do sujeito, e desconfio que isso não acontece com grande regularidade”. As sugestões de Filipe Clemente não se limitam à sala de aula. “Repare que grande parte dos intervalos tem entre 10 a 15 minutos, o que é parco face ao volume total de horas”, observou ainda o coordenador.