João Esteves, do palco à cena… em 2017

Jovem actor melgacense resume um ano em que chegou recitar poemas a Marcelo Rebelo de Sousa em Madrid

 

Filho da terra, João Esteves deu os primeiros passos no teatro através do grupo de teatro amador local “Os Simples”, estimulado pela estrutura profissional da Associação “Comédias do Minho”, que fomenta o hábito do teatro e a participação da comunidade nos espectáculos teatrais.

Daí até ao curso de representação na Escola Superior de Artes e Design de Caldas da Rainha e às primeiras experiências no teatro e nas curtas metragens académicas foi uma questão de descoberta do mundo do espectáculo.

Por cá, já estagiou em algumas companhias, como é o caso do Teatro do Eléctirco – que no dia 9 de Dezembro apresentou a peça “A Noite da Dona Luciana” em Monção, no Cine-Teatro João Verde – mas a experiência mais marcante foi, segundo o próprio, o estágio de três meses em Madrid, onde teve oportunidade aperfeiçoar os seus conhecimentos em encenação e conhecer de perto uma das mais importantes figuras do teatro e televisão espanholas, Miguel del Arco. 

Após a candidatura que assume ter sido ligeiramente desinteressada, sem pensar seriamente em pegar nas malas para viajar, a verdade é que acabou por ser aceite e integrar a experiência madrilena. Foi portanto sem grande noção da estrutura teatral na qual iria passar os três meses seguintes que pegou de facto nos seus pertences essenciais e arrancou para Madrid.

“Cheguei a Espanha sem ter propriamente noção, mas ele [Miguel del Arco, actor, encenador e guionista madrileno]  é considerado  o melhor encenador de Espanha neste momento. O Miguel foi ganhando o seu espaço na cena teatral espanhola enquanto encenador e director teatral”, sublinha João Esteves.

A peça AMOR.TE em cartaz

Assim, o jovem actor melgacense foi como actor e acabou por conhecer as ferramentas da encenação, ficando como assistente de encenação. “Foram três meses surreais, porque estava planeado uma coisa e acabaram por acontecer outras de que não estava à espera”, recorda.

 O grande projecto durante estes três meses foi  “Refúgio”, um espectáculo com texto escrito pelo próprio Miguel del Arco, sobre os questões relacionadas com a integração dos refugiados. “O Miguel tem um amigo iraniano, refugiado, que veio viver para Madrid há cerca de sete anos. Eles ficaram grandes amigos e como é um tema muito presente em Espanha, a peça fala a questão política e do descontentamento dos espanhóis, é um espectáculo muito político e com um tema fracturante”, descreve João Esteves.

No entanto, o jovem melgacense estava no coração do teatro em Madrid. “É de facto uma cidade que vive mesmo o teatro. Cá em Portugal temos quase um estereótipo de público, mas nem sei se há exactamente um público… Dez por cento serão público, o restante serão colegas ou pessoas relacionadas com a área. Em Espanha existe mesmo um público que vai ao teatro regularmente e cultiva esse hábito”, identifica.

No entanto, mesmo a mais de 500 quilómetros do seu país, Portugal cruzou-se com ele na rua e João Esteves não ficou indiferente. Portugal era o país convidado da Feira do Livro de Madrid, foi por isso num ápice que o jovem melgacense integrou a comitiva de poetas, actores e fadistas que ao longo do evento participavam no evento, fazendo recitação de poemas para os reis de Espanha e para o Presidente da República portuguesa, Marcelo Rebelo de Sousa, lado-a-lado com a actriz portuguesa Maria João Luís.

com Maria João Luís e Marcelo Rebelo de Sousa

Entre sessões, houve tempo para selfie com o Presidente da República Portuguesa, Marcelo Rebelo de Sousa e com Maria João Luís, mas o deslumbre fora com o evento. “Foi um convívio muito gratificante, pudemos levar ao exterior um pouco mais de Portugal e a própria organização admitiu ter sido um dos melhores anos desta feira”, conta João Esteves. “Os livros de Saramago, de Pessoa, de Raul Brandão, de Gonçalo M. Tavares, esgotaram, houve uma grande afluência de público espanhol na compra de literatura portuguesa, o que foi fantástico”.

Neste período, João Esteves encenou ainda a peça “AMOR.TE – To Kill Or Not To Kill” criada em parceria com a actriz portuguesa Marta Ribeiro e apresentada da galeria performática de maior referência em Madrid, La Juan Gallery.

Tem em gaveta um projecto pensado para “voltar a fazer renascer a lenda da Inês Negra” no contexto do programa Melgaço em Festa e na linha do contexto das reconstituições históricas exploradas pela associação Panmixia, do Porto, na edição de 2017, onde se recordaram os arganões, o contrabando e a época medieval.

“O meu plano seria trazer três ou quatro actores profissionais para a parte do texto, para tornar a representação mas densa, e depois tentar a aproximação às associações locais e comunidade em geral”. O projecto não saiu ainda da gaveta, mas o futuro poderá dar margem às suas ideias. “Se eu poder contribuir de alguma forma para as festas, faria com todo o gosto e disponibilidade possível”, adianta ainda João Esteves.

Sobre o programa e temáticas exploradas na edição de 2017 das festas concelhias, João Esteves elogiou o “projecto muito dinâmico e interessante” que consiste em estudar os locais, as histórias e levar as pessoas a contarem retalhos daquele que foi também o seu mundo, participando enquanto intérpretes de momentos muito próprios da história local. “Só por aí já e uma aposta ganha”, considerou o jovem artista melgacense.

João Martinho

(texto publicado na edição de Dezembro do jornal “A Voz de Melgaço”)