Norte: uma Região sem líder

Enquanto melgacense sou um homem do Norte. Dos mais nortenhos entre os nortenhos. E gosto de ser do Norte, de ter pronúncia do Norte, em especial esta nossa pronúncia melgacense, trabalhada ao longo de séculos, pelo intercâmbio com os nossos vizinhos galegos. Diria que é um privilégio ter esta pronúncia, que nos identifica. É uma espécie de selo de qualidade.

Isto de ser do Norte, é pertencer a esta região, geograficamente delimitada a sul pela Região das Beiras, a norte e nascente pela Espanha (Galiza e Castela Leão) e a poente pelo Oceano Atlântico.

Deve também existir alguma afinidade entre os povos que vivem na Região. Devemos todos saber explicar o que é isto de ser nortenho. A este propósito, Miguel Esteves Cardoso escreveu um excelente texto “O Norte é mais Português que Portugal”. Entre muitas outras ideias, nas quais, certamente, a maioria de nós se revê, diz MEC que “Para um Nortenho, há o Norte e há o Resto. É a soma de um com o outro que constitui Portugal. Mas o Norte é onde Portugal começa”.

Como qualquer região que se preze, precisa de uma capital. E parece-me pacífico que essa capital seja o Porto. É uma cidade fantástica, cheia de dinâmicas económicas, cultura, turismo, rio, mar, património. Eu gosto do Porto e gosto de ver o Porto como capital da minha região, o Norte.

Se a tudo isto juntarmos um líder, o puzzle fica completo e o Norte tem tudo par se afirmar cada vez mais. À partida, afigura-se-nos (a mim também) que o presidente da Câmara de Porto seria a personalidade melhor colocada para se afirmar como esse líder que a região precisa.

Pessoalmente tentei fazer um “reset” em alguns acontecimentos “menos felizes” que quase marcaram o anterior mandato de Rui Moreira. Refiro-me aos comentários menos próprios acerca de alguns municípios nortenhos do interior, às rixas desnecessárias com a cidade de Vigo e os seus representantes, ou à história que ficou por explicar acerca dos acordos ou negociatas com o governo, em Lisboa, com eventual prejuízo para alguns municípios do Norte, em benefício do Porto, e que levaram à demissão do então presidente da Comissão de Coordenação da Região Norte.

Dei o benefício da dúvida e até me inclinei a concordar com um apoiante seu que, em campanha, afirmou que a eleição do presidente da Câmara do Porto era a eleição mais importante das autárquicas, na medida em que se elegia, também, o líder de uma região.

 

Apesar de todas as movimentações pseudopolíticas a que assistimos, e que são características destas candidaturas quase independentes, em que alguns espreitam a sua oportunidade, mudando de equipa em função de melhores hipóteses de conseguir um lugarzito, apesar desses oportunistas que gravitam em torno da sua candidatura, achei que o Rui Moreira poderia ser esse líder do Norte.

Mas a verdade é que o atual presidente da Câmara do Porto parece revelar, dia após dia, falta de estatura para tal.

Na noite das eleições, no discurso de vitória fiquei perplexo com a forma como Rui Moreira, fez questão de identificar e sublinhas dois grandes derrotados desse ato eleitoral. Achei no mínimo desnecessário. Mas foi mais que isso. Revelou um certo espirito revanchista que não se coaduna com grandes líderes.

Mais atual, é a candidatura do Porto para receber a sede da Agência Europeia do Medicamento, a qual não foi bem-sucedida, como todos gostaríamos. Na manhã seguinte, o governo apressou-se a anunciar a transferência do Infarmed de Lisboa para o Porto, apresentando esta medida como descentralizadora.

Pareceu-me legítimo que muitas pessoas questionassem a forma como esta decisão foi tomada. Nomeadamente se foi devidamente ponderada, se os interesses os trabalhadores seriam acautelados, se descentralizar é o mesmo que transferir aleatoriamente serviços públicos de Lisboa para o Porto, fazendo crer que o centro é Lisboa e a periferia é o Porto, nada mais existindo. Parecem-me preocupações legítimas e pertinentes.

Não se afigurou como pertinente foi a reação do Rui Moreira a estas questões, quando, nesse mesmo dia, publicou nas redes sociais o seguinte comentário:

“A adorar o ressabiamento de alguns. Assim vale a pena!”

Assim vale a pena!? As medidas valem a pena por deixar alguns ressabiados!? Não, senhor presidente. As medidas valem a pena se trouxerem melhores condições de vida para as populações se induzirem algum avanço civilizacional. E a discussão deve ser valorizada. Sempre.

Confesso que é com tristeza que vejo em Rui Moreira cada vez menos um líder regional e cada vez mais um bairrista ressabiado.

 

Jorge Ribeiro
(texto publicado na edição impressa de Dezembro do jornal A Voz de Melgaço)