O tempo frio, das matanças do porco e de “encher as tchouriças”

Nesta primeira colaboração do projecto “Lá de Riba” com o jornal “A Voz de Melgaço”, apresentamos uma história desta época. Em Dezembro faz-se sentir o frio, há a tradição natalícia, mas é também (ou era) o tempo das matanças do porco, geralmente criado na corte pelos agricultores minhotos. O tempo frio era o ideal para que a carne não se estragasse durante o processo de desmanche até ser guardado na salgadeira.

Nas histórias de vida “Lá de Riba”, recordamos umas das tarefas que resultavam deste hábito.

 

Encher as “tchouriças”

– Pode-xe?
– Entra, noxa Zeres! Estou de bolta da sorça.
– Jajus, que frio! Paxei ali end’ó balado de Casemiro e ê xó fujos pendurados daquela auguinha que la escorre.
– Aqui nun xe esta mal mais entra un tchiasco por exa tralisca…Ó Tone, bôta-le uha atcha ó lume que já nun ten mutchêna.
– Bás inctchêr? Têns uns cornos* ben bôs, endi os arrinjaste?
– Na feira. Trouxe dous, inda han-de dezer que xô uha borneira.
– Ná, hai que comprar o que faz falta pra xe estar gobernado. Já te beu a atença?
– Inda nôn. Mais nun há-de tardar e boua falta faz. 
– Bôta ca um corno que te dou uha demán.
– Entôn beiçôn! Hoje intchemos xó as de carne, as finas; aminhán entcho as groxas, xe nôn nun paro das rêns.
– Têns agulha prás’spitchar?
– Olha aí por riba do pial.
– Jajus, ê a de cojer o carneiro pr’Assunçôn? Ai que bouas febras! Tinhas uha boua cêba.
– Ná ixo tinha. Era cm’ón latagôn. Tênho ali un bô lacôn pra mandar arrematar no Xant’Antone. 

*Chama-se “corno” ao funil de encher as chouriças porque, antes do aparecimento deste, usava-se para o efeito um bocado de um corno de vaca. Mudou o utensílio, ficou o nome.