Terá a colonização da Europa ocidental começado no Vale do Minho?

Escavações em Remoães reforçam a tese de termos sido um dos primeiros refúgios do homem de Neandertal

 

Uma das jazidas, em Remoães

Melgaço inaugurou, a 6 de Novembro, a primeira de quatro edições das Jornadas sobre Património Cultural de Melgaço, uma iniciativa que assenta na retrospectiva histórica sobre o património cultural melgacense, percorrendo, cronologicamente os períodos Paleolítico, Neolítico, Época Medieval e as Épocas Moderna e Contemporânea. 

Na primeira iniciativa, com visita ao local das escavações e sessões de esclarecimento que decorreram na Casa da Cultura para a população escolar e na antiga Escola Primária de Remoães para a população em geral, as jornadas abordaram as escavações arqueológicas que decorrem desde o Verão de 2016 na freguesia de Remoães, tendo sido já descobertas peças de assinalável valor para o estudo da presença do Homem na região do Vale do Minho. 

O projecto transfronteiriço designado “Os primeiros habitantes do Baixo Minho”, coordenado por João Cunha Ribeiro, professor de Arqueologia na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, decorre em ambas as margens do Rio Minho, desde a origem do troço internacional até á foz, em Caminha.

Terá sido o Vale do Minho uma das primeiras paragens do homem de Neandertal, vindo de África? A história que há para contar tem mais de 200 mil anos, mas o tempo dará informações e até datas mais concretas.

 Para já, a questão que está mais ao menos esclarecida é a de que “os primeiros indivíduos que trouxeram as indústrias acheulenses [os bifaces, ou pedra lascada] que aqui encontramos tenham vindo directamente de África”, explica o arqueólogo João Cunha Ribeiro.

Alguns dos bifaces encontrados em Remoães

A hipótese, ser estudada na margem portuguesa do Rio Minho, começou contudo na vizinha Galiza, após achados feitos numa jazida perto de As Neves. “Esse foi um dos motivos que nos levou a desenvolver os trabalhos nesta margem, porque os espanhóis tem desenvolvido um trabalho continuado e interessante na margem direita e nós achamos que não vale a pena fazer um trabalho separado nas duas margens, por isso é que o nosso projecto para o Baixo Minho estuda as duas margens”.

E também por cá o resultado tem permitido saber mais. “Os resultados são bastantes promissores porque encontramos vários tipos de ocupações, vários momentos desde aqueles que pensamos que são as mais antigas ocupações do homem do Paleolítico nesta região, há mais de 200 mil anos”, revela Cunha Ribeiro.

“Para termos datas mais definidas temos de fazer análises laboratoriais. Tivemos uma equipa de especialistas australianos que estiveram no território em 2016, recolheram amostras e vão dar, a curto prazo, resultados mais pormenorizados”, nota ainda o arqueólogo.

Os sinais de que o Vale do Minho foi colonizado a partir de África estão, mais uma vez, nas pedras. Os materiais acheulenses, os bifaces, desde os mais antigos aos mais recentes, estão associados à presença do homem de Neandertal na região, mas só uma particularidade leva a que a viagem de vinda tenha sido do continente africano.

“Há a tese de que os materiais acheulenses encontrados nesta região, por vezes são de grandes dimensões, comparáveis com os de grandes dimensões dos objectos similares encontrados no mundo africano. Fomos colonizados a partir de África, portanto estas indústrias acheulenses tiveram origem em África”, esclarece o arqueólogo.

Se tal viagem pode parecer-nos, à luz do conhecimento de hoje, intrigante, talvez o tempo – literalmente – explique a colonização. “200 ou 300 mil anos parece uma data muito antiga, mas em África já existiam há mais de um milhão de anos. Chegaram cá muito posteriormente, até porque tiveram de adaptar-se a condições climáticas bastante diferentes, à abundância e penúria das estações”, notou Cunha Ribeiro.

Com a busca em Remoães a traduzir-se frutífera para a equipa, toda esta riqueza de vestígios no território melgacense terá uma justificação, como sugere o arqueólogo. “O rio a partir da fronteira, onde conflui com o rio Trancoso, na fronteira de São Gregório, alarga o seu leito. Ali em Remoães é pontual, mas a partir de Monção de forma cada vez mais larga para se tornar um grande rio, com uma grande planície aluvial até à foz, e isso dá outras hipóteses para encontrarmos vestígios arqueológicos”.

Apresentação em Remoães

Para o autarca de Melgaço, Manoel Batista, estas jornadas pretendem dar a conhecer à população escolar e população em geral o trabalho desenvolvido em Melgaço nos últimos dois anos de escavações e “dos achados como prova da ocupação diferente ao longo do tempo que tem acontecido no nosso território”.

“Esta equipa de investigação gostaria de provar que o povoamento do ocidente, da Europa, poderá ter tido aqui uma das suas primeiras expressões, no Vale do Minho. É importante percebermos que fomos um dos territórios no ocidente, tal como o conhecemos, que primeiramente mereceu a ocupação humana”, referiu Manoel Batista.

O que fazer com estes testemunhos da história? Alguns ficarão por cá, poderão ser vistos e devidamente explicados. “Com a recuperação da antiga Escola Primária da Vila e a criação de condições para podermos acolher ali o nosso arquivo municipal e o Centro Documental Jean Loup Passek, criaremos também condições para poder albergar o património que tem sido resgatado nestas escavações”, avançou o edil melgacense.

As jornadas sobre o património melgacense continuarão em 2018 e explorarão o período Neolítico, Medieval e Contemporâneo, em sessões a decorrer até Maio ou Junho do próximo ano.

João Martinho
(texto publicado na edição de Dezembro do jornal “A Voz de Melgaço”)

Sessão na Casa da Cultura para os alunos das escolas de Melgaço