A linguagem também é património!

Sistelo, a vida no campo e a sua forma de a contar

Com a campanha em torno do concurso 7 Maravilhas de Portugal – Aldeias, no qual o Alto Minho apresentou quatro finalistas – Castro Laboreiro (Melgaço), Sistelo (Arcos de Valdevez) e Lindoso (Ponte da Barca) – o momento não foi só de promoção da paisagem. O mediatismo do programa da RTP renovou interesses e descobriu talentos daqueles que nasceram ou foram criados nas localidades divulgadas, que guardavam para si importantes contributos para a história do seu canto natal.

No concurso “7 Maravilhas de Portugal- Aldeias, Sistelo acabaria por tornar-se a única localidade do distrito a trazer o troféu de vencedor para ‘casa’, mas as localidades minhotas em concurso tiveram muito para mostrar durante o tempo de antena que lhes foi dedicado.

O dialecto e as expressões cultivadas nas localidades minhotas são um dos seus importantes legados em termos de património imaterial. Já muito se fez no levantamento das cantigas tipicamente minhotas, muito devido ao trabalho que os grupos folclóricos têm nas comunidades que representam, no entanto, ainda pouco se fez para registar com o mesmo zelo aquela que era a forma de comunicar das comunidades locais.

“A Voz de Melgaço” deu nota, e tem publicado no site e na edição impressa do jornal, o levantamento do dialecto e tradições que o projecto “Lá de Riba” têm feito na sua comunidade, em Riba de Mouro (Monção). A iniciativa de Alda Barreiros e Maria Alves, por ser a mais finalizada em termos de comunicação, foi a primeira a ser apresentada por este jornal.

Segue-se agora Sistelo, que apresentamos neste primeiro exercício por uma conterrânea daquela freguesia arcuense, e seguir-se-á Castro Laboreiro que, pela sua especial característica do dialecto, o “verbo”, merecerá uma contexto e explicações mais detalhadas, em próximas edições.

Sistelo, Perspectiva da Estrada Nacional 202-2 [Arcos-Monção]

O orgulho no legado linguístico de Sistelo, por um dos seus

 

Liliana Neves

iliana Neves, com 23 anos, acarinha o legado da terra que a viu crescer. Um dos seus textos mereceu a atenção da comunidade ligada às redes sociais, por altura do concurso 7 Maravilhas de Portugal – Aldeias.
Nele, Liliana Neves realçava a importância das características da comunicação daquela comunidade, desde o “sotaque” aos nomes das coisas que, não raras vezes, são baptizadas em cada terra com nomes específicos. Influências de uma Gallaecia que continuava a ramificar o seu linguajar.

Mestre em História pela Universidade do Minho, Liliana conhece a linguagem do seu povo como poucos, fruto da convivência com os aldeãos que, mesmo na viragem do milénio, ainda guardava a ruralidade que lhe era própria, nos hábitos de trabalho e nos modos.

 

João Martinho

‘Tchobe mas ê tchuber!’

Nota da autora: Leiam-se todos os “s” do texto com a mesma sonoridade do “s” na palavra “casca”, usando-se a mesma sonoridade quando se encontram dois “ss” também.

 

– Ó nossa Rosa, anda-te êmbora! Ui, Jasus! Agôra tchobe quê tchuber! Deixa as bideiras p’ra lá, ó! Senam mando-to bantal galego da jinela!

– Brigada ti Maria! Está tam anebuado, eu bou p’raí êmcanto num alebía.

– Anda moça! Sobe as scaleiras e’mpurra o cancelo, home!

-Ai, que bô luminho têm aceso! Olhê q’eu atê a combinaçom tenho molhada!

– Ó mulhêr, eu fora à jinela bazar o bacio e bi-te! A ber se bêm um bocanho p’ra ires acabar de podar a lata. Senta-te aí no escabeu um pouco! Eu antes bou p’ró moutcho!

– Está mais perto do lume assi! Têm uma boa terreira, ó Ti Maria!

– Graças a Deus moça! E esta minham nosso Tone botou-me este canhoto aqui, têm ardido bêm! Agôra pus a putcheira ô lume, que pariu onte a baca e bou fazer filhóses c’o nosso moço gosta munto! A ber se num se m’esborda.

– Eu gosto ê de bandulho! Inda tenho na masseira uhas brouas de póm e uma massa de bandulho que fiz onte, p’ra cozer! A ber se nosso Zê logo me trás a bosta p’ra fitchar a borda da porta ó forno.

– Olha, eu hoje num cozi. Nós am pouco ô jentar comemos uha éuga d’unto e fiz um bolo da pedra! Soube que regalou!

– Bocê tém uha garcídela!

-Tenho moça, mas num m’amanho c’o ela! Inda logo, pr’á ceia, bou fazer uhas papas rousseiras, mas bou-as fazer no pote. Bi-me perdida p’ra moer a farinha que se me enludou o munho e num tinha quêm m’ajudasse, c’o nosso moço e Tone forêm buscar um carro de mato ò monte. Olha que num tínhamos nim tóijo nim fénto ninhum na pilha pr’a istrar a corte! Agôra, num há meio d’abucanhar p’ra eles birêm!

-Eu bi-os cando iam! Cangaram as bacas às abessas! O moço bêm puxaba a soga e o Tone cariaba, mas tá queto! Num habia meio d’andarêm! Depois a Som ê que deu n’éla!

-Omessa! Eu bêm digo ô Tone c’o moço num s’ajeita co’as bacas! Inda onte le disse p’ra num se esquêcer de por a barela na canga p’ra num cair o canziu, e p’ra bater bêm a xabelha q’inda se le desprêndia o carro. Mas à bô, num botam conta ninhuma. Deus queria qu’ô descer ô menos apêrtim as tarraichas, senam ai Jasus, inda bêm o carro porriba deles e bam todos à corga ôs trambulhõns.

– Cantê! Teu home sabe trabalhar! Num faz cumo Ti Abeu! Outro dia estaba na leira fundeira, porriba da coutada! Num quis escangalhar o portêlo, olha soutou porriba do balado ô caminho e quase se matou! Cumsonte caiu, caiu a sachola anda ele! Caje le tiraba a mam! Inda espetou a ponta da gadanha num braço! Está deitado no xaragão, num se lubanta e só berra que le dom as rens e os cartos!

-Oh cum raio! Ai nossinha, am pouco tamêm me caiu a nossa moça! Mandei-a apanhar landras p’ró pórco, ô Cabo, ela num tupou a tchabe no postoiro atirou-se por riba da cancela trossegou um pê. Intchou-le têm lá um toutiço!

-Arre diabo! Num se está bêm êm lado ninhum!

-Nam! Ai Jasus, cando me lembra c’o Nelo Trigueiro caiu da medeira de feno e morreu! Passo o tempo a matutar nisso!

-Num era de feno, era de palha! Eu andaba êm riba a’sfolhar! O Maneu deu-le uha copa, ele p’rá agarrar agatchou-se e catrapumba! Deu um tombo tamanho, esculhambou-se todo! Mais le balia ter lubado as cousas p’ró palheiro! Mas dezia que depois no Bram as lubaba!

– Ele tamêm tinha tanta matusia! E a rês quêr cumer! Eu atê inda tenho aculá um cesto de espigas p’ra debulhar! Ouguhas som duras cuma tornos!

– Ó mulhêr, estamos aqui a tanganhar e secalha abucanhou! Bou-me imbora! Bou cubrir um bantal pu-la cabeça, pareço um manhuço, mas ou menos sempre emparo ouguha.

-Bai lá mulher qu’eu tamêm bou ber se arrenjo um adubinho p’ró caldo na saugadeira!

Liliana Neves