Do Norte, com portugalidade

 

A propósito do meu último artigo, onde sublinho o orgulho em ser do Norte, uma leitora especialmente atenta, com quem conversei de forma prolongada e enriquecedora, dizia-me ter algumas reservas quanto a estas questões.

Na sua opinião, por sinal bem estruturada, ao afirmarmos ser do Norte, estamos implicitamente a dizer que não somos do Sul. Quando nos identificarmos como nortenhos, estamos a demarcar-nos das restantes regiões e isso terá subjacente, para essa leitora, uma carga negativa na qual não se revê.

Deste prisma, pertencermos a uma região, um país, um grupo ou família, é a negação de pertença a outro qualquer. Trata-se de um posicionamento quanto a esta questão da identidade que, em teoria, será sustentável.

Pessoalmente, encaro este assunto de forma positiva e eventualmente mais prática. A necessidade de nos organizarmos em grupos mais restritos e homogéneos, permite-nos tomar decisões e defender posições que melhor se nos adaptem, que melhor respondam às especificidades de que comungamos.

No entanto, a pertença a esse grupo mais restrito, não nos afasta de outro(s) mais alargado(s). Identificar-me como melgacense, reforça a minha condição de minhoto. Também o afirmar-me nortenho, nada retira à minha portugalidade. Muito pelo contrário.

Carta de Lei que aprova a abolição da Pena de Morte, reconhecida pela C.E. como Marca do Património Europeu, em Abril de 2015

Esta portugalidade que partilhamos, independentemente do pedaço de território onde nos inserimos, e que faz de Portugal o único estado-nação da Europa, deve ser preservada e valorizada.

Todos nós teremos factos aos quais nos agarramos, para valorizar esta qualidade de ser português. No meu caso, sempre que penso na questão da portugalidade, no sentimento de identidade e de afeição por Portugal, no orgulho de ser português, algo me ocupa de imediato o pensamento – fomos o primeiro povo a abolir a pena de morte.

Para quem não se apercebeu, comemoraram-se em 2017 os 150 anos da abolição da pena de morte em Portugal. Em 1 de Julho de 1867, durante ao reinado de D. Luís, era aprovado o decreto que fazia de Portugal pioneiro na abolição da pena de morte para crimes civis.

Este feito, colocou Portugal à frente, na Europa e no mundo, deu um impulso decisivo para que a discussão do tema ganhasse fôlego nos restantes países e contribuiu para um forte avanço civilizacional, na medida em que o exemplo foi seguido pela grande maioria das nações.

Confesso que gosto de referir isto sempre que digo que sou português. São factos como este que, na minha perspetiva, reforçam a nossa portugalidade.

Deveria ter sido dado outro relevo à data. Foi parca a sua divulgação, face à importância histórica e civilizacional do assunto. Não podia terminar 2017 sem aproveitar este espaço para dar o meu contributo, homenageando os portugueses que, há 150 anos, tiveram a coragem de dar aquele enorme passo para a humanidade.

“Desde hoje, Portugal está à frente da Europa. Vós, os portugueses, não haveis cessado de ser navegadores intrépidos. Ides sempre para a frente, outrora no oceano, hoje na verdade. Proclamar princípios é ainda mais belo do que descobrir mundos.” Carta de Victor Hugo a Brito Aranha, de 15 de Julho de 1867.

Feliz 2018 para todos!

Jorge Ribeiro
Consultor