Histórias de Vida Lá de Riba: ‘Diz que nun ê bô’…

 

a publicação de Fevereiro da rubrica “Lá de Riba” recordamos as crenças populares das gentes de Riba de Mouro. Algumas são crenças daquela povoação, outras serão transversais a outras povoações rurais. “Diz que nun ê bô” era um género de policiamento que procurava limitar certas práticas… Incutindo a dúvida no ‘transgressor’ que, na dúvida, não desafiava as leis nem alguma sobrenaturalidade (?) que este “num ê bô” carregava. 

Nesta rubrica de Alda Barreiros e Maria Alves, que fazem o levantamento das tradições e hábitos da população ribamourense, recordamos ainda as ‘sopas de leite’ de vaca. Durante o aleitamento da cria, era mugida (ordenhada) para alimentar também os que em casa, ou vizinhos, gostavam deste alimento.

 

‘Diz que nun ê bô’

“Diz que nun ê bô” é daquelas frases que nos habituámos, desde sempre, a ouvir dos mais velhos. Diz respeito a tudo que se deve ou não fazer para algo não correr mal. É simples, vaga, quase sem sentido e, no entanto, ainda hoje, ouvi-la provoca-nos um arrepio na espinha e temos por ela tal respeito que, na dúvida, cumprimos.

“pentinho a pentear, menino(a) a falar”

Por serem frágeis e em fase de lhes ser traçada a sorte, as crianças foram sempre os mais acautelados relativamente àquilo que “nun ê bô”. Ficam alguns exemplos:

– A gravidez devia ser mantida em segredo o máximo de tempo possível. Caso contrário, a criança não nasceria bonita.

– A mãe não devia dar o peito sentada na soleira da porta para não dar a gota à criança. Pela mesma razão também não devia beber ao mesmo tempo que amamentava.

– As mulheres não deviam carregar as crianças no colo à noite, fora de casa. Tinha de ser sempre um homem para não lhes dar o ar da noite.

– Uma criança nunca devia ser passada por uma janela. Se fosse passada de fora para dentro, dava ladrão; de dentro para fora, dava “cadrilheiro”.

– Devia evitar-se pentear uma criança em idade de começar a falar. Se tivesse mesmo que ser, quem penteava devia dizer “pentinho a pentear, menino(a) a falar” enquanto passava o pente. Caso contrário, a criança falaria muito tarde.

– Não se devia pôr as crianças em cima da mesa porque podiam morrer. Também não se deviam passar por baixo porque não cresciam. Por esta mesma razão, quando se metia ou tirava o pão do forno, não se devia passar a pá por cima da criança.

– Casa que tivesse uma criança sem batizar não devia emprestar nada a ninguém. Nestas casas, enquanto a criança não fosse batizada, nenhum vizinho pedia lume, fermento, gás prá candeia…

Trata-se de crenças em que a maior parte deixou de crer mas, cá por riba, “pol’o xi pol’o non”, há ainda quem cumpra escrupulosamente.

 

Vaca com cria

 – Dende bôtas, Marquinhas?
– Ó mulhêr, fui buscar esta mantcheia d’erba pra dejaguar a baca que tênho prênhe.
– A erba agora esta mi remitchada, pouca xe topa.
– Xó a que estaba criada, que a que está a bir a geada come-a toda.
– Ê, ê! Eu, ende andei a xegar, ficou tudo dejempelado. E a Briôja ten cria?
– Ten, ten um touro mi bô. Derriça-le no ubre que da cabo dela. Cando pariu, deu-le uha dada que nos bimos mal. Tínhamos que lo ater que nun o deixaba mamar.
– E agôra, ja mama o leite todo ou inda le xobra?
– Per ‘ora inda le xobra um corrutcho. Xe quijêres pra uhas xopas, inda te arrenjo un cartilho.
– Ai qu’ês uha abeiçoada! Osdespois mando lá a moça buscá-lo.
– Bou-me la entôn!
– Bai cun Deus e beiçôn!