Os ‘carboeiros’ eram os guardiões da noite no Alto Minho, de São Gregório a Arcos de Valdevez

 

Quando, no final dos anos 70 do século XX, os últimos carvoeiros de Riba de Mouro deixavam a dura actividade sem qualquer saudosismo – mas também sem remorso, já que era um tempo que não apresentava muitas escolhas – jamais imaginariam que, quase quatro décadas depois, os cascos de uma burra carregada de carvão voltariam a soar nas ruas estreitas da vila de Monção.

No passado mês de Janeiro, o ritual repetiu-se, com o cuidado possível, num 2018 cheio de ruas onde desponta o plástico dos contadores eléctricos, de sinais de stop e de sentido proibido, ou até de ruídos como o de um telemóvel inteligente (imagine-se!), que nos traz de imediato de volta a realidade do novo milénio no momento em que era preciso silêncio e criatividade no plano para voltar atrás.

Uma das cenas do filme “Carboeiros”, gravada em Janeiro no centro histórico da Vila de Monção, retrata o momento da distribuição do carvão pelas casas. Numa primeira passagem, o carvoeiro distribui os sacos pelas portas. No regresso, bate à porta dos clientes para cobrar o serviço e, eventualmente, somar outros recados a que possa dar resposta.

VIDEO: momentos das gravações: ensaio e uma das cenas do filme documental

A breve passagem, fará parte de um trabalho de ficção que retrata a vida de uma família que vive do carvão, desde a queima da lenha na serra, no alto da Seida, até à entrega porta a porta, na madrugada de cada dia.

O filme que tem por base a recolha de depoimentos de antigos carvoeiros de Riba de Mouro (Monção), é também uma odisseia para a equipa que há cerca de quatro anos abraçou o projecto e o viu ganhar forma. A estreia está prevista para o final do Verão de 2018, mas até lá, ainda há muito trabalho a fazer.

Para já, ainda só há a impressão do trabalho no terreno e nesta fase da produção, o cuidado com o rigor histórico e da salvaguarda das práticas retratadas merece nota positiva de quem viu de perto quando se fazia sem ser a ‘fingir’.

Casimiro Sousa, natural do lugar da Corga, Riba de Mouro, viveu a realidade da vida dos carvoeiros entre 1957 e 1966. Tinha 16 anos quando deixou o carvão e foi para França trabalhar. A ida era arriscada, mas ficar também não era mais tranquilo. “Era um modo de vida escravo, mas não havia outra hipótese”, recorda.

Além de exigente pelas horas necessárias para o trabalho, a actividade não deixava margem para contemplações. “Uns iam fazê-lo, outros vinham vendê-lo à vila, a pé, atrás da burra”, nota ainda o ribamourense, que hoje acompanha a equipa de filmagens para aconselhar relativamente aos procedimentos que envolvem todo o processo de produção e distribuição do carvão.

Em nome do rigor histórico, a equipa de filmagens teve de ir para o monte da Seida fazer o carvão. Um exercício que custou à equipa pelo sacrifício, mas que o ex-carvoeiro reconhece ter valido a pena. “Vai ficar uma boa memória do tempo antigo, como muita gente gosta de ver”, adianta.

Ou a pé ou montados na burra, os carvoeiros eram viajantes frequentes em toda a região alto-minhota. “Chegávamos a ir vender em São Gregório (Melgaço), em Valença e até nos Arcos [de Valdevez]. Muitas vezes íamos da Seida aos Arcos e voltávamos para buscar mais. Vendíamos para todo o lado, porque encontrávamos gente na feira que nos perguntavam, e às vezes pediam para sítios mais longe. Pagavam-nos mais, mas não negávamos o serviço”, recorda ainda.

Todo o processo que hoje se assume como filme de base documental, é agora muito diferente da concepção inicial, como conta João Capela, realizador do filme.

“Começamos por recolher informação para fazer um documentário. Alguns foram carvoeiros, outros testemunharam essa realidade e nós queríamos registar essa memória, porque não havia nada escrito. Começamos a fazer as entrevistas e foi aí que começou a surgir a necessidade de explicarmos certas situações, como se fazia o carvão ou como se carregava o burro. Começamos por dramatizar algumas passagens, e de uma cena à outra, chegamos à conclusão que podíamos fazer um filme completo, com princípio meio e fim”, explica.

A vida, no entanto, está ali toda, tal como foi vivida ou contada. “Nada é inventado nestas representações, tudo foi feito com base nos relatos que recolhemos”, esclarece João Capela.

E já muito se fez e descobriu desde o final de 2014, quando a ideia começou a ganhar forma, ou até mesmo desde 2015, quando se fizeram as primeiras entrevistas. “O filme fez-se a ele próprio. Conforme fomos descobrindo as coisas, fomos dando ao filme esta dimensão. Por um lado é interessante porque há muita coisa que teria certamente caído no esquecimento daqui a dez ou vinte anos, mas há ainda bastantes coisas que não pudemos por no filme por questões de produção, mas que são memórias bastante duras, porque eram tempos bastante difíceis”, revela João Capela.

Para o realizador, além de ser um documento para resgatar a memória de uma actividade, será também “uma homenagem à gente que criou economia, trabalhou e desenvolveu a região. À dimensão daquele tempo, mas no fundo fazia parte da economia daquela época”.

Em termos de apoio financeiro, o realizador diz que se foram fazendo “omeletes e os ovos foram aparecendo”, mas só quando se começaram a mostrar algumas imagens “as pessoas começaram a perceber o real valor do documento que estamos a produzir. Acho que nem nós próprios no princípio tínhamos noção de que íamos chegar a este ponto. E temos tido muito boa recepção das pessoas que nos estão a apoiar”, assegura.

Agora vem o processo de montagem, sonorização, edição de imagem. Todo dentro de quatro paredes, mas não menos dispendioso, quando há que dispor de estúdios ou mesmo de apagar postes de electricidade, geradores eólicos ou caixas de contadores para esconder, como referíamos no início, mas João Capela diz que agora há estrutura para avançar e acabar o projecto ainda este ano.

Depois, fará o circuito dos festivais, bibliotecas e auditórios, eventualmente acompanhado de explicações e exposição, mas para já, a ansiedade, de todos os que até agora acompanharam o processo, é conseguir um dos primeiros lugares na sala para ver bem o que sai de todo este longo processo.

Para o presidente da Câmara Municipal de Monção, António Barbosa, o futuro do concelho passa por estes exercícios de revisitação ao passado. “Diria que o futuro dos concelhos, mesmo em termos turísticos, passará muito por aí. Preservar aquilo que é muito nosso, termos a capacidade de mostrarmos aquilo que tínhamos, conseguir manter os territórios com as suas tradições e identidade própria.  Só dessa forma conseguiremos ser diferentes e ser uma mais-valia na hora de convencer os turistas a visitar o nosso território”.

Sobre o projecto que visa preservar o património imaterial de Riba de Mouro, António Barbosa sublinha que a autarquia estará sempre na dianteira no apoio a estas iniciativas, reconhecendo no entanto a capacidade de iniciativa da comunidade. “Quando temos a sorte de ter uma sociedade civil que avança para estes projectos, é sinal de um dinamismo enorme no nosso concelho, o que, enquanto presidente de Câmara, faz-me ter a certeza de que vamos ter um futuro próspero no nosso concelho. Porque temos tudo, e temos essencialmente aquilo que é o principal nos territórios: Gente dinâmica, e isso é meio caminho andado”.

João Martinho

(texto publicado na edição impressa do jornal “A Voz de Melgaço” de 01 de Fevereiro 2018)