Álvaro Domingues deu a “Volta a Portugal” e guardou retratos de identidade de uma nação de contrastes

Na eventualidade de se cruzar com o livro “Volta a Portugal”, do geógrafo melgacense Álvaro Domingues, deixamos desde já o esclarecimento – feito pelo próprio – do que esta obra não é: Não é um ensaio sobre fotografia, não é um livro sobre arquitectura, não é um livro sobre viagens e acima de tudo, não é um compêndio sobre a volta a Portugal em bicicleta.

No momento de o colocar nos escaparates, os livreiros recorrem às categorias e géneros comuns, mas não é uma obra sobre desporto (categoria onde já figurou), nem é o novo “Viagens na Minha Terra”. Na verdade Álvaro Domingues saiu para “dar uma volta” e foi do Minho ao Algarve e ilhas de máquina fotográfica em punho para utilizar a fotografia como “metáfora”. Depois, “vestiu-as” com textos, na maioria de outros autores portugueses, que não são a explicação literal do que vemos na imagem. Ainda com dúvidas? É bom sinal, mas já daremos mais pistas.

Não são raros os registos fotográficos que nos parecem insólitos, caricatos, ou simplesmente retratos de habilidosos exemplos de aproveitamento de espaço, mas em nenhum dos exemplos o autor tece considerações. Cabe ao leitor, depois de “lamber” com o olhar cada centímetro da fotografia, cheia de informação sobre a identidade dos povos, construir o seu próprio parecer. São mais de 300 imagens, distribuídas em 328 páginas, que constroem este desafio que o autor coloca os leitores.

Desde o lançamento, no final de 2017, o livro “Volta a Portugal” tem recebido considerável atenção mediática, que tem valido a Álvaro Domingues inúmeras sessões de apresentação um pouco por todo o país. Não sabemos se a volta a Portugal se vai repetir, agora pelos auditórios e bibliotecas de Norte a Sul, mas tem passagem prevista por Melgaço, em Maio deste ano.

A terra-mãe do autor merece destaque em alguns apontamentos fotográficos do livro. Na paisagem, na arquitectura, no culto, o olhar é atento, a explicação é vaga. Numa das imagens há um espigueiro, “ou o que resta dele”, nas traseiras de um prédio, no centro urbano.

“O que me interessa documentar é o confronto entre a modernidade e um elemento da pré-modernidade, que está descontextualizado. As pessoas riem-se, pensam que é porque gosto de fotografar coisas bizarras ou paradoxais, e não é nada disso. O mundo é feito de coisas muito contrastantes, na maior parte dos casos, nós é que privilegiamos as que não contrastam. E eu foco-me muito nisso”, explica.

Tal como Portugal e os seus curiosos acasos que pontuam a sua história, também este livro pode ser aberto em qualquer página, sem que se perca o fio à meada. “A maior parte das páginas são muito autónomas. Tem uma fotografia e um texto, que muitas vezes nem sequer é meu. O autor mais velho é do Século XVI e o mais novo pode ser um poeta contemporâneo. A partir daí, deixo ao leitor toda a liberdade para perceber o que vê”.

 

A urbanização e o cliché sobre a vida no campo

“Geralmente, quem escreve que a vida no campo é alegre e saudável nunca trabalhou no duro”

Desde o seu primeiro livro, “Rua da Estrada”, lançado em 2009, que Álvaro Domingues olha para o território de uma forma singular, sem receio de desconstruir conceitos ou mitos sobre o urbanismo ou a ruralidade do país.

Em “Rua da Estrada”, o ensaio é sobre a urbanização e a edificação ao longo das estradas. Em foto e texto, o autor tece considerações sobre “a urbanização e as suas múltiplas expressões”.

Em “Vida no Campo”, de 2012, o objecto de estudo é a suposta ruralidade do país nos dias de hoje. Somos ainda hoje um país rural?

“Quando usávamos o adjectivo com algum significado, rural significava que a economia era de base agrícola e que a paisagem estava toda tomada pelas actividades agrícolas. Actualmente, a agricultura em Portugal não chega a 3% do PIB, é uma actividade residual em termos económicos”, revela o autor, a propósito deste tema.

“Em Melgaço, onde qualquer pessoa diz que é um concelho rural, eu pergunto porquê, se a maior parte dos rendimentos são de poupanças e de remessas de emigração. Mesmo a produção agrícola que tem mais importância, que é o Alvarinho, se medirmos o valor que lhe corresponde no total de rendimento que as pessoas têm, vamos ter uma percentagem mínima”, observou ainda.

O mundo rural já não existe, “a palavra tornou-se anacrónica” considera o autor da obra que pretende questionar sobre a “mágoa” da perda do campo. E o campo é mais do que “aquelas tretas todas” que se escrevem, que fazem uma apologia inebriante às virtudes do trabalho no campo para a saúde e para os estados de alma. “Geralmente, quem escreve isso nunca trabalhou no duro, não sabe o que é”.

Vida no Campo é, por isso, uma reflexão profunda acerca das “muitas mitologias que existem sobre o campo”.

João Martinho

(texto publicado na edição impressa de Março do jornal “A Voz de Melgaço”)