É em Castro Laboreiro que Sónia Nogueira tem o part-time mais “apaixonante” da sua vida

Novos povoadores são também promotores do turismo local

 

pormenores de Castro Laboreiro

Mostrar o Parque Nacional Peneda-Gerês (PNPG) a quem ruma a Norte para conhecer esta área protegida do país é a missão que cada vez mais empresas de animação turística quer abraçar. No entanto, é através dos próprios, que interagem a cada dia com novos potenciais clientes, que nos chegam testemunhos de pessoas que desconhecem a versatilidade ou a riqueza turística dos territórios para cima do Douro.

No entanto, a oferta turística do PNPG é muito mais do que as panfletárias cascatas do Gerês ou a mata de Albergaria, apesar de importantes promotores deste território. Os operadores turísticos, atentos à tendência do turismo mundial, são os principais motores do sector, mas reconhecem que o esforço na criação de condições para uma boa experiência do visitante neste território tem de envolver mais organismos e empresas.

Sónia Nogueira

Sónia Nogueira divide o seu tempo entre Vila Nova de Famalicão e Castro Laboreiro, onde comprou casa e sediou a sua empresa de animação turística, a Just Natur, há cerca de um ano e meio. Organiza experiências turísticas em Castro Laboreiro, assim como noutros pontos do Parque Nacional, e tem muito a dizer sobre aquilo que é o turismo de hoje e o que poderá ser no futuro, se o trabalho de capacitação do território acompanhar as necessidades da nova vaga de turismo que vem até ao início do país.

Mais do que uma empresa de animação turística, queríamos que tivesse um cunho diferente. Apostar em experiências mais personalizadas, nas tradições, na cultura e nos hábitos dos sítios. Coisas que as pessoas procuram cada vez mais, sentimos isso”, conta-nos Sónia Nogueira.

O turismo de montanha tem um perfil próprio e público-alvo mais marcado, mas a empresária pretende que as experiências nos meios naturais sejam agradáveis para todos, desde os aventureiros que partem para o mundo apenas com a mochila às costas, aos mais reservados e que não dispensam o conforto na mobilidade e na estadia. Para já, falemos da tendência da maioria.

Hoje em dia o turista não quer vir meter-se num quarto de hotel ou numa casa de turismo rural, por mais qualidade que estes hoje em dia tenham. O turista quer viver experiências, estar com as pessoas, saber o que se faz ali, o que se come, o que se pode ver, experimentar como os locais”, explica ainda.

o ‘entroido’ castrejo

Fazer o típico pão castrejo, assistir à mística da Queima do Ano Velho ou do ‘entroido’ castrejo, provar chás ou comidas que utilizam as ervas locais são parte deste envolvimento que Sónia Nogueira quer proporcionar a quem visita terras castrejas. Provar o mel de Castro Laboreiro, ou o fumeiro? E porque não falar directamente com o produtor, saber como se faz, como se guarda, como são os processos de fabrico ou colheita? O turismo de experiências está apostado em explicar a origem das coisas a quem está mais habituado a comprá-las na apática prateleira de supermercado e a tendência está a ganhar adeptos.

 Antes de comprar casa e montar este modelo de experiencias, Sónia Nogueira tem já um “longo trabalho de casa” que lhe serviu para construir da melhor forma aquilo que quer agora divulgar. Depois de longas temporadas no Parque Nacional e em Castro Laboreiro em particular, a empresária tem agora um know-how com a solidez necessária para adaptar programas ao visitante.

A vida profissional afasta-os alguns dias do ambiente castrejo, mas o apego à serra, que mostra as suas cambiantes ao longo do ano, são uma “paixão”, para os novos povoadores. “Estamos uns dias da semana longe daqui a desejar voltar. Gostamos deste tipo de ambiente, conseguimos moldar-nos porque gostamos disto, temos paixão e sentimos que há sempre algo para descobrir”.

O boom turístico dos últimos anos, quer nos grandes centros, quer nas periferias dos locais tradicionalmente visitados, é um fenómeno que Sónia Nogueira vê com atenção e diz que a tendência vem para ficar. “Acho que se começou a descobrir Portugal. À medida que a economia começou a recuperar um bocadinho, o turismo interno, feito pelo português, aumentou. E muitos deles dizem que Castro é para vir e voltar”.

Os estrangeiros serão também a grande alavanca do sector, mas para que esta região ofereça condições atractivas a quem desconhece a realidade portuguesa, ainda é preciso intervir em aspectos fundamentais, como reconhece a empresária.

Uma região ainda com tanto por fazer só pode melhorar

A cobertura de sinal das redes móveis ou a abrangência de uma rede de transportes são ainda alguns obstáculos que, tendo sido grande parte do problema no passado, a eventual resolução poderá ser encarada como desbloqueadora de melhores dias para o turismo no PNPG. “É esse caminho que falta fazer que me faz olhar para esta área de forma positiva. Esta é uma região que o turista não conhece”.

A neve, que durante o Inverno cobre Castro Laboreiro com um manto branco

O desconhecido, se desafiante para os aventureiros, é também dissuasor dos mais reservados. Nunca como hoje houve a vontade de visitar, mas quando as estradas começam a estreitar, a entrar no interior do Minho natural de aldeias escondidas atrás da serra e de estradas municipais de uma via, a vontade de descobrir esmorece.

Sónia Nogueira assegura que a criação de uma rede de transportes amiga do ambiente e que percorra os locais turísticos do PNPG serão o desafio para o futuro próximo, ao qual espera que algum player do sector dos transportes dê resposta. A solução resolverá, por exemplo, o caso do cauteloso mas insólito bloqueio da estrada que atravessa a Mata de Albergaria (Terras de Bouro) no Verão e nos períodos de maior afluência turística, proibindo o trânsito aos visitantes, excepto aos locais ou autoridades.

Além do turista que tem medo das estradas estreitas, a empresária aponta ainda a necessidade de resposta ao turista que quer descobrir o país sem assumir o leme. “O Porto é um fortíssimo ponto de entrada de turismo para o Norte de Portugal, mas se quisermos vir directamente do Porto para Melgaço, não é muito fácil. O comboio não tem ligação, não há autocarros com horários compatíveis. Quem queira chegar aqui de transportes, não tem como”.

E como é para quem chega e quer ficar (ainda que parcialmente) em terras castrejas? “De uma forma geral, fomos muito bem recebidos pelas pessoas. Quando chegarmos a um sitio e queremos instalar-nos, não podemos nem devemos tentarmo-nos impor, temos de deixar que as coisas fluam, ter paciência”, recorda.

Ainda assim, no rol de dificuldades, Sónia Nogueira coloca apenas a parte burocrática das coisas. Nem tudo são rosas quando se procura comprar e remodelar casa, os documentos, os projectos, tudo faz parte da “burocracia que se arrasta e que prolonga o processo”.

Aparte a burocracia, é no turismo que a empresária realiza o seu objectivo. Adiciona a paixão a um serviço no sector onde é necessário subsistir mas diz que “nem tudo na vida é dinheiro. Temos de viver todos. Fazemos as actividades, mas procuramos que outras pessoas ganhem também com isso. Tanto levamos as pessoas à Feira típica Castreja, como aos produtores de fumeiro, ou do mel, aos hotéis e restaurantes locais. Todos precisamos de dinheiro para viver e pagar as contas e como digo, a rica já não chego, de pobre já não saio, se viver bem neste intermédio, melhor”.

Um dos últimos melhores exemplos de parceria com empresários e entidades locais foi a Queima do Ano Queima do ano Velho, organizada pela empresa, com o apoio da União de Freguesias de Castro Laboreiro e Lamas de Mouro. “Enchemos os restaurantes, os hotéis e tudo à volta. Tivemos a ‘casa’ cheia. Por isso estamos todos cada vez mais a convergir e, se assim for, ganhamos todos”.

João Martinho

(texto publicado na edição impressa do jornal “A Voz de Melgaço” de Março 2018)