Melgaço despede-se de Artur Rodrigues: “Obrigado pelos anos dedicados ao município, não o esqueceremos nunca”

Melgaço perdeu um dos seus rostos mais conhecidos e reconhecidos pela sua comunidade.
Ontem (dia 5 de Março) a autarquia anunciou o falecimento do engenheiro Artur Rodrigues, “um nome incontornável na história da democracia melgacense”, aos 77 anos. 

Em jeito de homenagem, repescamos algumas das suas últimas intervenções que assinalam a sua vontade política, assim como imagens ou gestos de reconhecimento que nesta breve retrospectiva podemos documentar.

De personalidade forte e ideologia política bem vincada, Artur Rodrigues destacou-se na comunidade melgacense enquanto presidente da Assembleia Municipal, função de desempenhou entre 1993 e 2017, mas também enquanto professor de Matemática, recordado com saudade por muitos dos seus alunos.

Nos discursos comemorativos do golpe de Estado de 25 de Abril de 1974, promovidos pela autarquia nos últimos dois anos, o Engenheiro Artur Rodrigues era o testemunho que abria a sessão, relatando momentos e vivências, para que a memória da mudança política operada há mais de quatro décadas não ficasse esquecida.

Assim, a cada ano de comemorações, a assistência presente nos Paços do Concelho ouviam de Artur Rodrigues relatos sentidos da sua experiência num dos centros nevrálgicos da inconformidade política à altura do golpe de Estado, pois enquanto estudante viveu de perto a “revolução pacífica” de um povo “isolado” que se dedicava a uma agricultura e pesca “artesanais” e tinha de “atravessar os Pirinéus a pé” na busca por melhores condições de vida.

Defensor de novos valores para o seu país e para as pessoas, rejeitava “um país de miséria, orgulhosamente só, onde a cultura e a saúde era só para alguns, de portugueses de primeira e de segunda”. Quando o Governo caiu, “ao fim de meia dúzia de rajadas de metralhadora, disparadas para as paredes do Quartel do Carmo, onde se refugiara Marcello Caetano”, Augusto Rodrigues comemorou a mudança que traria para a “população madrugadora, de jornada de sol a sol”, colhida de surpresa pela novidade que a madrugada trazia.

Contudo, não se iludiu com a evolução dos tempos. Dos seus discursos, no dia em que se comemorou a democracia, retiram-se ainda importantes chavões, a que os anos não têm tirado a razão:

“O presente, sabemos que está longe de ser perfeito, mas sabemos que estamos no bom caminho”

“Na Europa sem fronteiras, falta ainda o reconhecimento da igualdade dos países que a compõem”

 

Recordamos ainda a última sessão de Artur Rodrigues enquanto presidente da Assembleia Municipal, a 14 de Outubro de 2017, na sessão de tomada de posse do executivo autárquico e Assembleia para os anos 2017-2021, na qual passou o testemunho a Fátima Pereira.

Em pé, a Assembleia fez soar um longo aplauso de reconhecimento. O Engenheiro levantou-se, agradeceu o aplauso, inclinou a cabeça para enxugar algumas lágrimas, mas não escondeu a emoção. Manoel Batista, que tomava posse para o segundo mandato na presidência da Câmara de Melgaço, agradeceu pelo “legado cívico e político que o município recebeu”. “Obrigado pelos anos dedicados ao município, não o esqueceremos nunca”, disse Manoel Batista.

Assim seja.

 

O corpo estará em câmara ardente no Convento das Carvalhiças até as 12 horas de hoje, dia 6 de Março, seguindo depois para a Igreja Paroquial de Castro Laboreiro, onde se realizam os serviços religiosos, pelas 15 horas. Será sepultado no Cemitério de Castro Laboreiro.

Até sempre, Engenheiro!

João Martinho/A Voz de Melgaço