Carlos Pontes percorre o PNPG para fotografar a vida selvagem e garante que não há ‘lobo mau’

“Uma gestão cinegética bem feita poderia evitar maior parte dos ataques às criações de gado”

 

Carlos Pontes

Sabe o que é um Muflão?
Não vamos conseguir ouvir a resposta, por isso deixamos na mesma a informação: Este animal de grande porte, apontado como um antecedente do carneiro doméstico, tem nos montes de Melgaço o seu habitat natural e em Portugal é quase um exclusivo do Parque Nacional Peneda Gerês a viver em estado selvagem. Um dos últimos avistamentos deste mamífero nos montes de Melgaço foi registado por Carlos Pontes, de 32 anos, natural de Ponte da Barca, que segue de perto a vida selvagem do PNPG.

Falamos com o autor de alguns dos mais impactantes registos fotográficos dos animais que fazem desta reserva a sua casa, que tem algo a dizer em defesa do lobo e assegura que este não é “o lobo mau” das histórias infantis.

 

A Voz de Melgaço (AVM) – O que o motiva a fotografar a paisagem e a fauna do PNPG?

Carlos Pontes (CP) – A minha motivação surge pelo facto de ter crescido numa vila que tem mais de metade da sua área inserida do Parque Nacional Peneda Gerês (PNPG) e ter percorrido desde sempre todo o seu território. Faço fotografia em várias zonas fora da área do Parque, mas aqueles com que mais me identifico e tenho mais contacto tenho são sem dúvida os cinco concelhos que fazem parte do PNPG, destacando entre eles Arcos de Valdevez, Melgaço e, obviamente, Ponte da Barca, que são os que mais percorro.


AVM – Tem captado um número considerável de planos onde o lobo é o centro das atenções, dir-se-ia que sabe onde o procurar. Faz trabalho nesta área?

CP – Já gostava de fotografia, mas posso dizer que o lobo foi o animal que me ‘empurrou’ para a compra da minha primeira máquina fotográfica. A minha infância não se fez de histórias como a do Capuchino Vermelho, já via os lobos desde pequeno.
Um dia, um lobo em particular e uma história triste levaram-me a estudá-lo com afinco e a observar este magnífico animal no terreno. Nos primeiros dois anos fiz recolha de amostras para estudos científicos numa alcateia do Alto Minho e desde então tenho seguido a reprodução de cinco alcateias e apostado em duas para seguir mais de perto e poder fazer registo deste acompanhamento em fotografia e vídeo. Acompanhar e observar de perto esta espécie é um trabalho árduo e contínuo, são anos de trabalho, dias e noites longas. Vivo a cerca de 40 quilómetros das alcateias que acompanho, o que significa menos horas de sono quando não pernoito nos locais. Desde 2009 que não lhes perco muito rasto; em qualquer condição atmosférica tenho de lá estar, observar e aprender, o mínimo que seja é mais um dado a apontar. Fazer um seguimento fotográfico de uma espécie nos vários estágios requer conhecimento, mas, acima de tudo muita paciência, determinação, paixão e preparação física.


AVM – Enquanto espécie protegida do PNPG, o lobo-ibérico é amado por uns, mas odiado por aqueles cuja actividade económica fica comprometida pelos ataques do lobo, como é o caso dos criadores de gado. Esta luta pela preservação das criações, somada às consequências devastadoras dos incêndios dos últimos anos, pode colocar o lobo em risco pelo ataque constante ao seu habitat e às suas presas naturais?

CP – É uma espécie protegida no país e espero que assim se mantenha. Esta situação é uma guerra antiga, mas sem querer minimizar o impacto causado pelos incêndios, que são devastadores para todos os seres vivos, as medidas drásticas e incompreensíveis que as entidades competentes têm tomado é que são um risco e uma ameaça silenciosa ao lobo, como a de acabar com o subsídio por prejuízos.

Em relação à diminuição drástica de presas naturais do lobo, o problema não existe só dentro do Parque Nacional, mas em toda a região Norte, e deve-se principalmente à escassez ou à falta de gestão na caça. Se houvesse uma gestão cinegética bem feita, todo o sector ganhava com isso e como consequência haveria maior disponibilidade de presas para o lobo e menor prejuízo para os criadores de gado. Muitos deles são também caçadores e compreendem isso. As estatísticas não mentem: Nas zonas de lobo onde existe disponibilidade de presas naturais suficientes os prejuízos são quase nulos e quase não se ouve falar neles. Nessas zonas faz-se gestão cinegética e por isso há grande disponibilidade e variedade de presas, como o javali, corço, veado e o coelho. Por outro lado, se de forma prática e crua, o homem diminui drasticamente as presas do Lobo e ocupa o seu território com gado doméstico em regime livre e sem vigilância, que pensaríamos nós, humanos? É uma troca justa!

AVM – Tem alguma ideia dos concelhos do Alto Minho onde há maior número de alcateias?

CP – Claro que sim. Arcos de Valdevez tem o dobro das alcateias presentes nos outros concelhos.


AVM – Estando o país e o Minho em particular a focar a sua dinâmica económica no turismo de natureza, o lobo ibérico pode ser uma mais-valia na promoção do território ou poderá retrair alguns visitantes, pelo receio de um encontro como os que regista em foto?

CP – Toda esta área é riquíssima em fauna e flora para ser explorada pelo turismo, obviamente que com moderação e salvaguarda das espécies. O lobo, como animal mítico e raro que é, sem dúvida que contribui também para essa promoção. Relativamente aos encontros, ninguém deve recear qualquer contacto com animais selvagens, desde que os respeitem e não os molestem ou persigam. Ter um encontro com um lobo em que este esteja perto é muito raro, pois normalmente os seus sentidos estão sempre alerta e dificilmente deixa que nos aproximemos, mas mesmo que aconteça, deve-se aproveitar o momento, que por certo será muito breve.


AVM – Já fez alguma incursão nos montes melgacenses? Que imagens já recolheu da fauna deste concelho?

CP – Castro Laboreiro faz parte de muitas das minhas incursões e diria que, para qualquer lado que me vire, a paisagem é diferente e única. Desde os magníficos vales da Ameixoeira até ao vale da Portelinha, todas estas paisagens me enchem a visão! Sobre a fauna posso dizer que já vi de quase tudo! Toda esta zona é muito rica e algumas são quase exclusivas do Parque, como o Veado Vermelho, ou exclusivas mesmo, como é o caso da víbora de seoane. Numa das minhas últimas incursões tive oportunidade de registar uma outra espécie existente apenas nesta zona do Parque Nacional, o Muflão.


AVM – Pela qualidade das imagens, certamente já terá sido solicitado para expor em algum contexto temático. Qual é o principal destino desta recolha fotográfica?

CP – Sim, já tenho tido alguns convites que, conforme disponibilidade profissional, vou fazendo. O principal objectivo das minhas imagens é conseguir passar às pessoas aquilo que existe no meio envolvente através da forma como vejo e sinto, sensibilizá-las para o meio frágil que existe e que todos nós temos que preservar. No caso do lobo, o grande objectivo é desmistificar a falsa ideia do “lobo mau” e tentar mostrar às pessoas, através da fotografia e histórias, o lado real deste magnífico animal.

João Martinho
Fotos de Carlos Pontes