Moradores do centro histórico partilham memórias da sua história

A exposição Memórias no Centro Histórico, patente no Solar do Alvarinho, assinala o Dia Nacional dos Centros Históricos (comemorado anualmente a 28 de Março), mas também prova que a comunidade melgacense não rasgou as memórias da juventude vivida numa das principais artérias da vila.

A inauguração da colectânea de imagens contou com a participação de quem as viveu, por isso foram os outrora jovens e crianças que viviam no centro histórico que quiseram tomar a dianteira no dia de abertura da exposição ao público, recordando e partilhando entre si impressões dos momentos captados nas fotos.

As fotografias, captadas ao longo do século XX, são também um espelho da evolução e regeneração urbana do centro histórico que agora é recordado a pretexto do dia temático… E na segunda metade do século XX muita coisa mudou a nível social e paisagístico.

Autênticos suportes para uma viagem no tempo pelas memórias que trazem acopladas a quem as vê à distância de mais de cinco décadas, estes registo transportam também consigo as venturas e desventuras que, com mais ou menos mágoa, provocaram aos seus protagonistas.

Maria da Conceição Gonçalves, junto da sua foto “ousada”

Numa das fotos vemos uma adolescente (com quinze anos, soubemos pela fotografada), penteada, de camisola escura e calças brancas, numa composição cénica e de pose característica daquele tempo. E aquele tempo foi há pouco mais de cinquenta anos, mas em momento nenhum adivinharíamos que aquele registo – hoje uma simples foto, como tantas outras – pudesse representar um gesto de ousadia, com consequente punição.

A adolescente fotografada é Maria da Conceição Gonçalves, hoje com 68 anos. Morava na Rua Direita, frente ao (hoje) Solar do Alvarinho. Via algumas amigas vestirem calças e um dia quis experimentar, mas não tinha como. Pediu umas calças emprestadas e, no mesmo dia, fizeram-lhe fotos com o novo estilo.

“O meu pai soube que eu andava de calças, ao chegar a casa levei uma coça com o cinto. Não se podia andar de calças naquele tempo, era uma vergonha”, encerra assim Maria da Conceição a narrativa desta ‘transgressão’.

Tem outras fotografias de família, “tiradas na feira pelo Serôdio” [fotógrafo], mas é daquela em que aparece sozinha que lhe vêm as memórias te um tempo em que havia muita gente, “mas era muito severo. Quando o sino tocasse para a reza, tínhamos de estar em casa, senão ‘papávamos’ [batiam-nos]”, acrescenta hoje, com um toque de humor.

Humberto Sousa recorda um Centro Histórico outrora cheio

Humberto Sousa, hoje com 66 anos, também contribuiu para que este mural de memórias fosse ainda mais completo. Morou no centro histórico até ao momento em que o serviço militar o chamou a prestar provas, tinha 20 anos. Guarda a “boa” memória de ver sempre muita gente, de jogar à corda, á macaca e ao pião nas ruas da vila.

Continua a passar, “quase todos os dias”, nas ruas onde cresceu e lamenta que o centro tenha perdido a vida de outrora. “Dá-me tristeza não ver gente nestas casas. A maior parte foi para França, outros foram para a cidade, agora já tem os filhos lá a estudar… Ficaram aqui meia dúzia”.

A Rua Direita, hoje com o piso em pedra lisa ajuda a compor uma imagem mais organizada deste núcleo histórico, mas também havia beleza na rusticidade das casas pintadas a cal e no empedrado irregular da estrada, reconhece Humberto Sousa. “A rua tinha buracos e as casas estavam velhas, eram só caiadas a cal, mas toda a gente tinha flores à porta, e quando estava tudo florido as ruas ficavam muito bonitas”, recorda o antigo morador deste centro urbano.

Patrícia Meleiro e Elisa Vilarinho, técnicas da Câmara Municipal de Melgaço e curadoras desta exposição fotográfica, reconhecem a importância desta mostra de memórias que tem um significado especial para os melgacenses e para quem visita o concelho.

Neste segundo ano de exposição temática, as técnicas recolheram as fotografias de quem respondeu ao apelo de participar e iniciaram um processo de selecção. À partida, iam assegurando lugar nos quadros as imagens que reunissem mais informação sobre a vida social e da organização arquitectónica e paisagística da vila.

“As pessoas ofereceram-nos várias fotografias, mas como o espaço físico é reduzido, seleccionamos as que estão situadas perto de edifícios emblemáticos, ou que fossem mais fáceis de situar actualmente”, esclarecem.

“Todos os moradores que cederam fotografias estão aqui representados”, adiantam ainda. Como as paredes da sala de exposições e eventos eram limitadas para o espólio, optaram por montar um diaporama com o arquivo que conseguiram reunir a propósito da iniciativa e que complementa a exposição, passando em repetição num ecrã colocado no mesmo espaço.

Além da divulgação deste acervo fotográfico, as curadoras realçam a proximidade com a comunidade. “Criou-se uma relação fantástica com os moradores [do centro histórico]. Estas pessoas gostam de recordar, e até já nos estavam a sugerir outros temas sobre os quais tem fotos. Faremos outras exposições se nos permitirem, porque certamente teremos material para isso”.

O Dia Nacional dos Centros Históricos comemora-se anualmente a 28 de Março, data do nascimento de Alexandre Herculano, seu patrono. Foi formalmente criado em 1993, sendo rapidamente adoptado pela maioria das autarquias portuguesas com centro histórico, com o propósito de promoverem todas as actividades com vista à conservação, recuperação, reabilitação, revitalização e animação dos centros históricos dos aglomerados urbanos.

João Martinho

(texto publicado na edição de 01 de Abril do jornal “A Voz de Melgaço”. Versão online com alterações relativamente à data de permanência da exposição no Solar do Alvarinho)