Eutanásia: A perspetiva de uma jovem médica

 

A Eutanásia, por definição, é a morte a pedido. Trata-se de um ato intencional de proporcionar a alguém uma morte indolor para aliviar o sofrimento causado por uma uma doença incurável ou dolorosa.

Desdobram-se as opiniões de quem é a favor e contra como se fosse possível decidir com leviandade estas questões e como se ambas as posições fossem estanques. Ouço muitas vezes: “se não és a favor, és contra”, “se fosse contigo, não gostavas de ter o direito de morrer com dignidade?”, “eu tenho direito de escolher o que é melhor para mim”, “tu como médica devias ser a favor de ajudar o doente”.

Independentemente do tipo de argumento que se use ou das várias conversas que tenha ao longo do tempo, penso tantas vezes que nunca vou conseguir escolher qual é o meu lado da bancada. Covardia? Consciência? Não sei!

Quando decidi ser médica, achei que a minha função iria ser sempre a de salvar. Enquanto fui estudante de Medicina e frequentava as aulas de Ética e Bioética sempre me foram incutidos os deveres e os direitos que assistem a um médico. Sempre ouvi que um dos princípios básicos do nosso código moral era “Primum Non Nocere” que significa “Primeiro, não prejudicar”. Como poderia eu, ajudar alguém a morrer? Estaria a prejudicá-lo ou a ajudá-lo? Não é isto paradoxal?

Dali passei para os estágios hospitalares em que corria os corredores do Serviço de Medicina Interna e Cirurgia Geral. Pude ver o definhar de muitos doentes em fim de vida, a ser internados repetidamente com agudizações das suas doenças incuráveis, a ser abandonados pelas famílias (que hoje de famílias só tem o nome). E a pedir para morrer! E a berrar que queriam morrer! A cerrar os dentes enquanto eram alimentados porque queriam morrer! Pude assistir ao traçar do seu caminho descendente e à perda de humanismo durante essa caminhada. Ía para casa e pensava: “Se fosse comigo, preferia morrer…atirava-me da janela”, “não seria melhor alguém aliviar o desespero desta gente?”.

Hoje, sou médica há quase 4 anos e continuo a sentir a mesma ambivalência que senti sempre. Surgem-me pensamentos durante a minha prática em que penso: “Neste caso a eutanásia seria um ato quase de caridade” e ao mesmo tempo outra voz me surge e diz. ”Eras tu que a irias aplicar…quem és tu?”. Como se lida com acordar todos os dias para ajudar alguém, sabendo que isso pode passar por te deitares nesse dia, depois de lhe tirares a vida. O que vai ser dito sobre a morte daquela pessoa? “Foi aplicada a Eutanásia pela Dra. X.” Seremos médicos carrascos? Ou seremos anjos da salvação? Depende dos olhos que nos julgarem. No fundo, seremos sempre ambos.

Nós médicos, que lidamos diariamente com o poder/responsabilidade da decisão, com a vida e a morte, com o fim e o início de vida não conseguimos de forma clara e objetiva ter uma posição indubitável nesta temática. Sou acérrima defensora dos cuidados paliativos, mas sei que esta questão não os inviabiliza, nem lhes tira o seu lugar. Há situações que transcendem a sua atuação.

A eutanásia é em si um tema divisor, onde os absolutismos não cabem. Não se pode escolher que sim ou que não, sentados num café. Não é um tema trivial…é provavelmente dos mais complexos colocados em praça pública. Não se poderá nunca colocar de forma superficial, uma questão que implica um alguém decidir sobre si e sobre o fim da sua vida mas que passa o ónus da atitude de o fazer para um outro alguém, que tem consciência e sentimento.

De repente, estou aqui…sou médica e para além de salvar vidas também me é permitido retirá-las, ainda que alivie a dor de alguém. A minha opinião é de facto, que não consigo ainda ter uma opinião neste assunto.

Dra. Alexandra Táboas