NORTADA: Memórias de Agosto, da emigração e da Nação

Venham Sempre!

Há cerca de 25 anos, tive oportunidade de conhecer Paris, pela primeira vez. Eu e uns colegas de curso fomos visitar a Feira Internacional de Agricultura, que anualmente decorre naquela magnífica capital europeia.

Como bons estudantes que éramos, as noitadas não podiam deixar de fazer parte do programa. Numa dessas noites, eu e o Vitinho, meu colega, amigo e companheiro de luta, encontramos um grupo de emigrantes portugueses, num café da zona de Pigalle, e por ali ficamos a confraternizar noite dentro.

Já a meia-noite tinha passado há um par de horas quando me apercebi de uma discussão, cada vez mais acesa, entre o Vitinho e um grupo desses portugueses emigrantes que havíamos acabado de conhecer. Aproximei-me com alguma preocupação, para tentar perceber o que se passava e se possível, contribuir para acalmar os ânimos.

O Vítinho, com a educação que lhe era característica, mas sem deixar de dizer o que pensava, estivesse onde estivesse, afirmava que o seu pai e o seu avô, ao não terem emigrado, tinham trabalhado para construir um Portugal melhor, tinham contribuído para o progresso do país. E o Vitinho era inteligente. Argumentava muito bem aquilo em que acreditava.

O grupo de emigrantes que o rodeavam diziam, visivelmente arreliados, que se não tivessem vindo para fora ganhar o dinheiro que enviavam para Portugal, sem as suas remessas de divisas, não haveria como que construir um país melhor. Falavam com a razão de quem sentiu na pele as dificuldades desta opção, da opção de deixar o seu lar.

Com o avançado da hora, não era possível atingir consensos, pelo que tivemos que optar por mandar vir mais uma rodada, refrear os ânimos e mudar de assunto.

Aqui, como na maioria das situações, as nossas posições são condicionadas, ou até mesmo alicerçadas, na nossa realidade, nas nossas vivências, naquilo que é o nosso meio social e familiar.

Os pais e os avós do Vitinho não tinham emigrado e, com a admiração que ele lhes dedicava, achava que essa tinha sido uma opção de coragem. Os nossos conterrâneos ali presentes, emigrantes, obviamente discordavam, pois todos eles tiveram que “se fazer à vida”, no estrangeiro, para ganhar dinheiro que enviavam para a terra.

Antes de me debruçar sobre o muito que se podia discutir e argumentar sobre as duas posições, há algo que merece o meu destaque, respeito e admiração – a inegável coragem e honestidade intelectual do Vitinho. Ali, já tarde e no meio de umas canecas de cerveja, não se permitia abdicar da sua opinião, ainda que, aparentemente, menos simpática para todos os que o rodeavam. E eram muitos. Era assim o meu amigo Vitinho.

Estou convencido que apenas o avançado da hora, e as bolinhas do gás da cerveja, nos impediu de ver o óbvio. Todos tinham razão.

De facto, muito provavelmente os que cá ficaram (incluindo o pai e o avô do Vitinho) não teriam as mesmas condições para transformar Portugal sem as remessas vindas do estrangeiro, enviadas pelos nossos emigrantes, nem o dinheiro enviado pelos nossos teria a mesma utilidade se não ficassem cá pessoas a trabalhar, a zelar pelos interesses de todos.

Eu cresci assim, a sentir esta simbiose entre os tios, primos, vizinhos e amigos que regressavam todos os anos, em Agosto e outros que cá ficávamos. Era inegável a ansiedade pelo dia em que os nossos amigos chegavam de França. Tudo ficava diferente, mais alegre, com mais vida, quando os emigrantes chegavam.

Provavelmente os rebuçados e os chocolates que traziam, juntamente com uns presentinhos, ajudavam a este sentimento. Mas sim, miúdos e graúdos, esperávamos, ansiosamente e de braços abertos, por eles, os nossos amigos emigrantes. E era evidente, da mesma forma e com a mesma intensidade, a vontade e a alegria com que eles regressavam.

Em minha casa, guardavam-se sempre umas lampreias (das melhores) para comer em Agosto, com família e amigos que vinham de França. Havia um programa rico, pré-definido, com dois piqueniques, três ou quatro almoços da festa. Quase todos os dias recebíamos a visita de alguma família amiga.

É esta a imagem que eu guardo, da relação com os nossos emigrantes e da sua chegada, todos os meses de Agosto – com alegria, em festa. Com alegria de termos entre nós aqueles amigos e familiares que partiram, à procura de uma vida melhor, para si e para os seus. Conscientes de que dessa forma ajudaram todos os que cá ficaram a construir um Portugal maior e melhor para todos. Venham sempre. Porque quando vocês cá estão, tudo fica mais alegre.

À memória do meu amigo Vitinho. À pessoa admirável que foi.

Jorge Ribeiro