NORTADA: Quanto mais eleitoralista, melhor

O conferencista dirigiu-se à plateia, formada por cerca de duzentas pessoas e perguntou se os presentes achavam que os nossos governantes tomam medidas eleitoralistas, ou seja, se faziam determinadas opções apenas com o objetivo de conseguir o voto dos eleitores.

A resposta foi imediata e unânime: Todos acenavam afirmativamente com a cabeça, ao mesmo tempo que encolhiam os ombros, no sentido de expressar que essa era uma fatalidade à qual seria difícil fugir.

Depois de olhar calmamente para os seus ouvintes, deixou mais duas perguntas:

Mas, em democracia, não é isso que se espera? Não é suposto os eleitos fazerem o que os eleitores querem para, dessa forma, merecerem o seu voto?

Fez-se silêncio. Conseguíamos ouvir o pensamento uns dos outros: “Pois, de facto… nunca tinha visto a coisa desse prisma…”.

David Dinis, jornalista e à data diretor do jornal “Público”, conseguiu com poucas palavras, abalar algo que eu tinha muito claro – tomar medidas eleitoralistas é uma coisa feia, não se deve fazer!

As perguntas deixadas no ar pelo orador, conduzem-nos para uma linha de raciocínio tão simples quanto, pelo menos aparentemente, assertiva – se as opções de determinado eleito, tomadas mais perto ou mais longe do dia das eleições, agradam aos eleitores, e estes, em consequência, lhe atribuem o seu voto, então, em teoria, essas opções foram as corretas e esse político está a governar bem, está a ser um bom governante.

Muitos dos leitores dirão que um bom governante é aquele que cumpre com o programa ao qual se apresentou às eleições. Mas há também quem não concorde com esta ideia, defendendo que os programas não podem ser estanques, tendo muitas vezes que ser ajustados em função de fatores externos e conjunturais. Os maiores defensores desta segunda posição são, desde logo, os próprios governantes, que dificilmente conseguem cumprir com os programas eleitorais, seja porque as condições externas se alteraram, ou simplesmente porque os programas eram inexequíveis.

Apesar disso, por mais fortes que sejam os argumentos que colocamos em confronto, para defesa de uma ou outra posição, há algo que deverá ser consensual – em democracia o julgamento é feito pelos eleitores, na hora do voto. E, assim sendo, se determinado governante é reeleito, significa que a maioria da população votante aprova, dá avaliação positiva à sua atuação, ou, pelo menos, acha-o merecedor de exercer novo mandato.

Podemos, individualmente, entender que a escolha foi errada, sentir-nos até revoltados por ser claro, para nós, que outro candidato era mais merecedor do voto dos eleitores, que seria uma opção muito melhor para o nosso país, para o nosso concelho, para a nossa freguesia. Podemos até ficar desiludidos e com vontade de não pertencer àquele grupo de eleitores. Não podemos é fugir à vontade do povo, expressa nas urnas – Quem vence as eleições, quem tem mais votos, deve governar. Essa é a regra.

No entanto, é muito comum ouvirmos dizer que os mandatos dividem-se em duas partes. Na primeira, que se segue ao ato eleitoral devem tomar as medidas necessárias, as mais duras, o que significa, governar em prol do território e da população. Na segunda metade, há que pensar nas próximas eleições, ou seja, tomar medidas populares, as tais medidas eleitoralistas. Governar para o voto, se quisermos ser mais claros.

De uma forma muito simples, podemos dizer que, segundo esta teoria, muito alicerçada entre os nossos fazedores de opinião, as medidas que são realmente boas para a população são más para os votos e as medidas que são más para o futuro da população, são as melhores para obter os desejados votos. Estamos então, segundo os muitos que partilham desta opinião, perante uma população eleitora incapaz de perceber o que é melhor para si e para o seu futuro.

Tenho para mim que os que classificam certas medidas como eleitoralistas, ou seja, más para a generalidade da população, mas capazes de influenciarem positivamente a votação, não terão levado este raciocínio até ao fim, nem terão percebido o atestado de incompetência que estão a passar aos eleitores.

Se assim for, se esta perspetiva estiver correta, só nos resta um caminho – lutar por uma sociedade mais culta, com pessoas mais informadas. Com eleitores capazes de verem além do imediato, de esperarem mais dos eleitos do que pequenas benesses para si ou para o seu grupo. Onde a maioria deseje um futuro melhor para si e para os seus. Onde o bem comum seja mais importante que os pequenos interesses pessoais.

Devemos caminhar para uma sociedade onde apenas se conquistem votos com trabalho em prol de um de um mundo, de um país, de um território melhor. Onde medida eleitoralista seja sinónimo de medida boa.

Jorge Ribeiro
Consultor