Paulo Azevedo investiu 27 mil euros em site a que não consegue aceder em Lamas de Mouro

Falta de rede móvel e internet limita operacionalização de sofware

 

O compromisso protocolado entre o Ministro do Ambiente, João Pedro Matos Fernandes, e as três principais operadoras de telecomunicações em Portugal (entre outras entidades e instituições envolvidas), para a cobertura de rede nas zonas ‘sombra’ do Parque Nacional Peneda-Gerês (PNPG), firmado em Maio de 2017 em Lamas de Mouro, demora em fazer-se sentir no terreno.

Apesar de consideráveis melhorias na consistência do sinal em alguns pontos do concelho, com especial destaque para Castro Laboreiro, a cobertura continua a ser deficitária em alguns dos principais pontos turísticos do concelho. Curiosamente, o problema continua a sentir-se a poucos metros do local onde o compromisso foi assinado e que previa melhorias na cobertura de rede já em Junho desse mesmo ano.

A necessidade de adaptar a comunicação do seu negócio ao novo tipo de clientes, Paulo Azevedo, proprietário da empresa de animação turística “Montes de Laboreiro”, investiu nas plataformas online. Os potenciais clientes, habituados às novas redes de comunicação, tem a internet como meio de contacto com o operador sobre o destino de férias.

Ciente da importância desta abordagem e centralização de procedimentos, o empresário avançou para a criação de um software de gestão de reservas e contacto com clientes na ordem dos 27 mil euros. A plataforma online ainda está “a 40%”, mas mesmo longe da finalização, já permite operacionalizar muito do propósito para o qual foi criada.

 

Quando finalizado, o software, aplicação para smartphone e site da empresa Montes de Laboreiro permitirão gerir reservas, pagamentos e contactos das redes sociais e contas de e-mail em tempo real, personalizando ao máximo a relação entre a empresa e os potenciais clientes.

“Daqui a dois ou três anos os clientes vão poder reservar (actividades ou alojamento) sem sequer irem ao site”, refere Paulo Azevedo, perspectivando o desinteresse dos futuros turistas nos tradicionais sites de promoção turística que hoje são base informativa de muitas empresas do sector. “Daqui a dez, quinze anos, as aplicações vão ser o futuro deste mercado e os sites vão entrar em desuso. Desta forma, as pessoas guardam a aplicação e daqui a uns anos vão-se lembrar disto para mostrar aos amigos ou trazer a família”.

Perante um mundo cada vez mais comodista, cabe aos operadores turísticos grande parte do trabalho que outrora era discutido ao balcão de uma agência ou era definido pelo potencial cliente, com base nas informações que recolhia na internet ou por telefone. Hoje, como esclarece Paulo Azevedo, o primeiro contacto dos clientes é através de mensagem nas redes sociais. E por vezes uma longa conversa com uma pergunta simples: “Quero ir para aí. O que é que me recomenda?”.

 

“Recebemos diariamente cerca de 40 ou 50 e-mail, mas através do Facebook e Instagram chegamos a receber 60 a 70 pedidos de informação por dia. Seja para saber de alojamento ou simplesmente porque viram uma publicação nossa e querem saber onde é. Outros perguntam sobre coisas que não tem a ver com alojamento ou actividades. Tenho pessoas que querem saber os preços da piscina de Melgaço, o número de telefone do Museu de Castro Laboreiro, onde é que se pode comprar um cão de Castro Laboreiro ou onde é que se pode comprar Alvarinho, é temos de estar preparados para isso também”, explica.

 

A melhoria na fluidez da comunicação entre o potencial cliente e o operador turístico, transformando a troca de informações em conversações do Messenger e não em e-mail, tem garantido ao empresário melgacense alcançar pela sua própria gestão mais de 50% das reservas de alojamento e actividades, mas também muitas horas em frente ao computador. A centralização do serviço obriga o Paulo Azevedo a dedicar grande parte do seu dia à gestão de contactos, esclarecimentos e reservas, que tem de ser feita a partir de casa, a mais de 20 quilómetros do principal ponto de atendimento aos clientes, em Lamas de Mouro.

“No Facebook, mando uma mensagem ao cliente e vai para o Messenger. Isso para nós faz toda a diferença, porque se transforma numa conversa. Se a pessoa perguntou agora, quer saber para já e quem responde pode prender-lhe a atenção no momento, não daqui a duas horas”, esclarece, dando nota das dificuldades.

“O facto de não termos rede móvel dificultou-nos bastante. A [empresa] Montes de Laboreiro tem a base de actividade no Parque de Campismo, mas não conseguimos gerir estas comunicações a partir de lá. Até a fibra, que supostamente será instalada até à Porta de Lamas de Mouro, desde que começaram a obra está pior. Temos wi-fi no parque para os clientes, mas por vezes temos de desligar o sinal para poder responder a um e-mail”,revela Paulo Azevedo.

“Este ano, pelo facto de termos a plataforma e ter subido a procura, eu não consigo estar lá [no Parque de Campismo]. Podiam estar lá duas pessoas, uma a tratar do atendimento presencial e outra a gerir os contactos online, mas não posso”, constatou.

De que forma esta contrariedade molda a rotina do empresário? “Estou todos os dias a fazer isto. Vou ao Parque diariamente, mas volto a casa e fico a responder aos contactos ou a organizar as publicações para o dia seguinte até às quatro da manhã, em horas em que não há respostas online. De outra forma, com rede móvel em Lamas de Mouro, apenas com um telemóvel poderia fazer muito deste trabalho”.

 

Autarquia garante “boas expectativas” para Lamas de Mouro a curto prazo

Questionado sobre o avanço das melhorias previstas, o presidente da Câmara Municipal de Melgaço, Manoel Batista, garante que a construção da torre de comunicações de Lamas de Mouro, já em curso, resolverá a breve trecho a cobertura naquele território. “A torre de Lamas de Mouro cobrirá toda a zona da Freguesia e uma boa parte de Castro Laboreiro, portanto quem está em Lamas tem boas expectativas relativamente à cobertura de rede móvel”, avançou.

No entanto, algumas das actuais zonas “sombra” já identificadas poderão ter de esperar mais tempo por boas notícias, como é o caso dos lugares de Ribeiro de Cima e Ribeiro de Baixo, onde as melhorias operadas na maior parte do território castrejo não se fizeram sentir. “Estamos a convocar uma reunião com as três operadoras para, com os presidentes de Junta, dar nota às operadoras daquilo que são as dificuldades em cada um dos pontos do território. É uma forma de os pressionar e uma forma de eles perceberem as necessidades do território”.

O autarca de Melgaço promete não abandonar a pressão sobre as operadoras e, embora considere que “por vezes” as reivindicações do território sejam “pregar aos peixes”, pede igualdade no tratamento dos cidadãos. “Todos os portugueses têm os mesmos direitos, e os portugueses de territórios como o nosso têm o direito a ter as mesmas condições de acesso à informação que tem qualquer outro português em qualquer outro ponto do país. Não há negócio como em Lisboa, no Porto, ou em Braga, mas nós não somos negócio, somos gente de pleno direito que temos de ter acesso a essas vias de comunicação”, reiterou, lamentando a “cobertura lamentável em algumas Freguesias da região”.

João Martinho

(texto publicado na edição impressa de Setembro do jornal “A Voz de Melgaço”, pág. 24)