Política: As ´Jotas’ e as novas causas sociopolíticas

 

Manuel Luís Gonçalves (JS): “Há um certo carreirismo nas juventudes partidárias, mas não podemos tomar o todo pelas partes”

 

Manuel Luís Gonçalves, natural de Paderne, actualmente com 41 anos, foi o rosto do combate político que afrontava os jovens melgacenses em meados dos anos 90 do século vinte.

Estaria a terminar o ensino Secundário na escola de Melgaço quando assumiu a função de Coordenador da Concelhia da Juventude Socialista de Melgaço, à altura um grupo de jovens que informalmente começara por constituir-se, inspirado por “magnifico grupo de professores” que foram “modelos de inspiração” para os jovens das áreas de Humanidades, Filosofia e História, com uma irreverência “de natureza mais cívica do que política”.

Naturalmente, integravam as campanhas políticas do partido e em 1995, viviam-se momentos de alguma tensão política. O país mudava um dos seus representantes políticos. “Foi um período de uma certa turbulência e contestação social, que coincidiu com o final do ‘cavaquismo’, que foi substituído pelo Eng. António Guterres nas eleições legislativas de Outubro de 1995. Recordo-me que nessa altura tivemos vários debates, várias acções de campanha de apoio a António Guterres. Era uma altura de contestação, como o buzinão na ponte 25 de Abril”, recorda Manuel Luís Gonçalves, hoje advogado e membro da Assembleia Municipal de Melgaço, pelo partido onde iniciou a sua actividade política activa.

Uma das grandes causas que alimentava o espírito de contestação dos jovens era a Prova Geral de Acesso (PGA), obrigatória para o acesso ao ensino superior que compreendia uma prova de português e de cultura geral. A base da revolta da Juventude partidária baseava-se no facto de “os conteúdos dessa prova não serem leccionados no ensino básico e secundário”, nota.

Refira-se no entanto que esta prova “acabou por ser substituída por um sistema de avaliação misto, constituído quer por provas de aferição, quer por provas específicas relativas às disciplinas do 12º ano”, esclareceu ainda Manuel Luís Gonçalves.

A realidade, com a viragem da década – e o novo milénio – acabaram por trazes outros focos de interesse para a nova geração. A geração posterior já tinha outro foco para a sua revolta, e as novas formas de comunicar tiraram a juventude do formato tradicional de manifestação.

Mas no que aos organismos de iniciação à vida política diz respeito, Manuel Luís Goncalves reconhece que o entendimento popular acerca das ‘Jotas’, como são conhecidas as juventudes partidárias, é hoje pouco mais do que uma porta de entrada para a carreira política.

“As juventudes partidárias, quer socialistas quer de outros quadrantes políticos, ou as ‘jotas’, é um termo que tem uma certa conotação pejorativa. Sobretudo devido à ideia de um certo carreirismo de muitos dos membros que, nos diversos quadrantes políticos, não tendo nunca feito nada mais na vida do ponto de vista profissional, lograram ascender a cargos de topo e de grande influência nos centros de decisão nacional”, analisou, deixando no entanto a ressalva de não tomar “a parte pelo todo” e desconsiderar o trabalho dos jovens válidos na causa política que despontam nestes grupos.

 “Apesar de isso ser verdade, e é, porque todos nós conhecemos situações dessas, corre-se o risco de tomarmos a parte pelo todo e não reconhecermos que dentro destas estruturas houve e há jovens muito válidos, muito competentes e com elevada formação, com características únicas para poderem desempenhar cargos de elevada responsabilidade no futuro”, frisou.

Hoje, a Europa e as suas causas políticas já não são as mesmas. Nos anos 60 e 70 do século XX derrubaram-se muros e regimes totalitários que mantinham o continente em sobressalto. As causas já não são ‘de vida ou morte’ como eram naquela fase de transição, mas a vontade política não pode esmorecer apenas porque tudo parece mais calmo, resolvido.

“É importante que os jovens se sintam motivados pela missão nobre que é a política. Hoje não é vista assim, mas é uma missão nobre. Nos anos 90 a vontade política era forte, mas se calhar menos forte do que nos anos 60 e 70. É verdade que nos dias de hoje é mais difícil sustentar os ideais revolucionários que sobretudo nos anos 60 e 70 motivaram as lutas, porque estava tudo mais latente, quer em Portugal quer no estrangeiro. No tempo dos nossos pais e avós, havia dificuldades económicas e no acesso às necessidades mais básicas de saúde, educação e justiça. Hoje estas dificuldades já nos parecem tão longe, com a normalização dos valores da democracia, mas vivemos problemas diferentes e também preocupantes”.

 

Emília Cerdeira (JSD): “Hoje a política se faz de uma forma mais directa, sem ter que ser sob forma de revolução”

 

Emília Cerdeira, com 29 anos de idade, é a Vereadora mais jovem do executivo da Câmara Municipal de Arcos de Valdevez. Integrou a Juventude Social Democrata em 2011, foi vice-presidente da Concelhia de Arcos de Valdevez entre 2013 e 2017 e presidente da distrital do Alto Minho.

Em Outubro de 2017 integrou o executivo liderado por João Manuel Esteves na autarquia arcuense pelo Partido Social Democrata, no qual assume o cargo de Vereadora e a responsabilidade pelas áreas da educação, associativismo; juventude e desporto, sistema de gestão da qualidade, gestão do sistema de informação e modernização administrativa.

É por isso um dos rostos da nova geração que abraça a causa política como missão. Entende que “a participação numa juventude partidária ou numa associação juvenil causa, mesmo que de forma inconsciente, uma maior preocupação com o que nos rodeia” e nega o afastamento da nova geração da política, mas das linhas orientadoras dos órgãos centrais.

“Não concordo quando dizem que os jovens estão distanciados da política, muito pelo contrário. Eles fazem política diariamente a mesa do café, no grupo de amigos, nas redes sócias ou na actividade associativa. Creio é que eles estão cada vez mais afastados e descontentes com a política partidária e os órgãos de decisão central”.

Sobre os eventuais casos de “carreirismo” político e desinteresse popular das lutas políticas, Emília Cerdeira refere que, “como em todas as áreas da sociedade, há bons e maus exemplos neste meio”, mas reconhece que “não são só as juventudes partidárias que não participam em revoltas ou convulsões”.

“Vivemos numa realidade em que a política se faz de uma forma mais directa e em que também é mais fácil fazer chegar as reivindicações da juventude às mais altas patentes sem ter que ser sob forma de revolução. Creio que as questões mais pertinentes serão as que estão relacionadas com a diminuição demográfica, o envelhecimento da população e a diminuição drástica da natalidade, a garantia de emprego qualificado e adequação da oferta formativa à procura laboral e a sustentabilidade de entidades como o serviço nacional de saúde e a segurança social”.

Texto: João Martinho
Fotos: Município de Melgaço / Município de Arcos de Valdevez / Arquivo/DR
(texto publicado na edição impressa de Outubro do jornal “A Voz de Melgaço”)