Verão surpreendeu mas acabou por dar “a colheita perfeita” para o Alvarinho de Melgaço

“Ligeira” quebra de produção não assustou as principais marcas

Setembro, 34 graus (ao sol). Um pouco por todos os vinhedos de Melgaço, a azáfama é notória em época de vindimas. Afinal, o tempo não foi o que parecia e surpreendeu os produtores com a maturação da uva. Houve quem a planeasse para 15 dias mais tarde, mas após a análise aos cachos, havia margem para se cumprir o calendário habitual.

Paulo Cerdeira Rodrigues, da Quinta do Regueiro, em plena época de vindima, lamentava apenas a inclemência do sol sobre a cabeça dos homens e mulheres que vindimavam para que pudesse cumprir o calendário de colheita estipulado.

Vindimas (Quinta do Regueiro)

Enquanto despeja cestos de uva sobre o desengaçador, que conduz o melhor da colheita até à enorme prensa em funcionamento, Paulo Cerdeira Rodrigues fala-nos de “uma ligeira quebra” mas de um ano que já dá sinais de ter criado “excelentes vinhos”. A confirmação só sairá após as primeiras provas, mas o produtor adianta que, quer em aroma, quer em teor alcoólico, 2018 estará muito próximo do que se verificou o ano passado.

Se assim for, o responsável da Quinta de Regueiro renovará votos para uma presença destacada no concurso promovido pela Comissão de Viticultura da Região dos Vinhos Verdes (CVRVV), onde os seus vinhos de 2017 conquistaram dois prémios “Best Of” no Concurso Melhores Verdes de 2017.

 

“Boa intensidade aromática” nos vinhos Soalheiro

António Luís Cerdeira (Quinta de Soalheiro)

Para António Luís Cerdeira, da Quinta de Soalheiro, o ano de menor produção foi compensado com o aumento do número de produtores que constituem o Clube de Produtores, constituído este ano, e já conta com 150 parceiros.

“Até estamos admirados, porque apesar de ter havido alguma incidência de doenças, como o míldio, os nossos produtores conseguiram combater muito bem esse tipo de problemas e temos produções muito agradáveis”, diz o enólogo e membro da família fundadora da primeira marca de vinho Alvarinho de Melgaço.

Um Verão particularmente quente nos meses de Julho e Agosto, fez com que a vindima se adiantasse aos primeiros planos. “Estávamos a contar começar com quinze dias de atraso, mas estamos sempre em cima das vinhas, acabamos por abrir adega no dia 4 de Setembro. Foi uma aposta ganha, a qualidade da uva é excelente”.

A extensa fileira de cubas da adega Soalheiro guarda o precioso néctar em estágios diferentes. As primeiras, à entrada, guardam um adocicado sumo que mais tarde a fermentação transformará no produto definitivo, resultado daquela que é “a colheita perfeita”, assegura António Luís Cerdeira.

“Teor alcoólico moderado, muito boa acidez e muita frescura. Como vindimamos cedo, vamos ter claramente uma boa intensidade aromática, os vinhos em fermentação demonstraram isso. Estamos optimistas”, adiantou o enólogo.

Promotora da valorização do produto e da inovação, a marca Soalheiro quer também que os seus 150 membros do Clube de Produtores estejam informados daquilo que vai mudando no sector, atraindo para si aqueles que tenham como estímulo a produção de “uva de qualidade”.

Para o efeito, a associação, embora ainda “em fase embrionária” mas já oficialmente constituída, “vai abordar três vertentes: Conhecimento técnico; conhecimento do ponto de vista da mecanização das vinhas, que entendemos importante face à cada vez menor mão-de-obra que existe na nossa região; e por outro lado falar da parte ambiental e do enoturismo”.

Mas o investimento não se fica pela aposta no savoir-faire. A enorme grua e o aparato junto ao edifício principal da quinta denunciam um futuro aumento da adega e nos espaços para salas de prova. O enoturismo, que no corrente ano já soma cerca de 5000 visitas, merece uma considerável atenção da marca neste aumento de infra-estrutura que representa no total um investimento próximo de 1 milhão de euros. “Este investimento tem duas partes fundamentais: 90% para a parte produtiva e o restante para o enoturismo, onde queremos qualificar-nos para podermos trazer gente a Melgaço”, adiantou ainda o representante da Quinta de Soalheiro.

“O fruto da videira e o trabalho do Homem”… lado a lado, na adega Soalheiro

 

Colheita “heterogénea” com máximos superiores a 14% de álcool

A quebra de produção não se afigura um problema para os principais engarrafadores do concelho. Pedro Soares, Administrador Delegado das Quintas de Melgaço, diz que a recolha deste ano, na ordem de 1 milhão de quilos de uva, manterá a média produtiva ao nível dos registos anteriores.

“Poderá haver uma quebra ligeira, mas não é uma quebra como se perspectivava inicialmente”, notou Pedro Soares, assegurando que o número de associados com vinhas afectadas pelo míldio ou queimadas pelo sol foi reduzido.

Por outro lado, a “heterogeneidade da colheita” permitirá manter os perfis de vinho que são já marca da empresa melgacense. Os graus de maturação mais elevados nas vinhas junto ao rio, onde se registaram máximos de 14,5 de teor alcoólico, contrastam com os mais ligeiros das parcelas a mais altitude, com o mais baixo a registar 11,4, como indicou o administrador. “Na Quintas de Melgaço, a grande parte da uva tem um teor alcoólico superior a 12%. Estes números demonstram que há uma disparidade, mas com capacidade para fazer um lote equilibrado”.

Para que o consumidor não confunda a identidade dos vinhos QM, a empresa desdobra-se em “experimentações” para que não haja surpresas no dia da prova. “Contactamos o accionista A, B , C ou D no sentido de interpretar como se comportaria a uva desse produtor isolada em termos de vinho e depois vamos criando um histórico, de forma a conseguirmos manter perfis de vinho homogéneos. Como recebemos tanta uva, num dia podemos receber cem toneladas ou mais, as marcas precisam de uma determinada identidade, e para a manter temos de saber quem é que nos forneceu a uva que deu origem, para manter aquela linha”, explica Pedro Soares.

Nos espumantes, o universo de produtores é mais restrito, como explica ainda o responsável:

“Muitas das vezes temos um núcleo de produtores afectos ao espumante. Se alterássemos não significaria que que o espumante não pudesse ser bom também, mas poderia adulterar o perfil e o consumidor hoje em dia é muito sensível a essas alterações”.

 

João Martinho

(texto publicado na edição impressa de 1 de Outubro do jornal “A Voz de Melgaço”)