Descargas para o Rio Minho “mancham a vermelho” a pesca e o turismo de Melgaço 

Atentos observadores da vida aquática, mas também da fauna e flora que tem nas águas ou nas margens do Rio Minho o seu habitat, os pescadores integrantes da Associação de Pesca Lúdica e Desportiva de Melgaço (APLDM) denunciam alguns casos em que as águas, geralmente límpidas, têm mudado de cor. 

O ‘fenómeno’ ocorre sobretudo nas épocas mais ‘produtivas’ para os principais sectores económicos do concelho. Segundo o presidente da Direcção da APLDM, Rui Táboas, os pescadores associados têm verificado alegados focos de poluição das águas em alguns meses do Verão e no período de vindimas.

As ocorrências verificadas pelos pescadores já motivaram três denúncias em nome da associação às entidades competentes, relativas a descargas de potenciais poluentes, alegadamente realizadas no troço do rio entre a zona de Prado e Valadares (Monção).

Um dos focos terá sido observado junto à ponte internacional do Peso o que, pela “reincidência”, indigna o responsável da associação, Rui Táboas.

“Parece-me estranho que as autoridades não consigam fazer o necessário para que a denúncia tenha seguimento. Não os estou a acusar, eles têm de ser respeitados pelo seu trabalho, mas é estranho que os prevaricadores não tenham nenhuma condenação. Se tivessem, no ano seguinte não iriam fazer a mesma coisa. Ou então são condenações ligeiras”, considerou.

“Uma vez a um sábado, ligaram-me para ver o que se estava a passar no rio. Numa zona onde costumamos ir ao Achigã, estava uma desgraça, tudo vermelho. Pelo que deu para perceber era vinho, provavelmente foi ao lavarem as máquinas, que veio na água e foi-se depositando no fundo. Com a água foi limpando por cima, mas o que estava depositado ficou e só sai com as cheias”, alertou ainda Rui Táboas.

O impacto negativo das descargas não tratadas ou mesmo do lixo de quem procura as margens para fazer piqueniques é notório a longo prazo, como ressalva ainda o responsável da APLDM.

“Há gente que deixa sacos de plástico, garrafas de vinho, latas… E não gostam que os chamem a atenção, mas eu faço-os compreender. Outras vezes sou eu que recolho esse lixo. Quando o caudal do rio baixa, o que mais se vê são sacos plásticos pendurados na vegetação, porque há gente que deita os sacos de lixo ao rio. Os plásticos são maus para os peixes, mas também para o turismo. Não causa nada boa impressão aos turistas que vem fazer Rafting verem estas ‘bandeiras’ penduradas nas árvores nas margens”, considerou ainda o presidente da associação de pesca.

 

Incidentes nas estações de tratamento durante o Verão eram da gestão da Águas do Norte

ETAR de Penso será “uma das mais modernas do Alto Minho”

 

Se quanto às descargas directas para o rio, o município pode apenas assumir o papel de “fiscalização e denúncia” como qualquer cidadão, o autarca de Melgaço, Manoel Batista, diz que há culpas a repartir entre os organismos de gestão de estações de tratamento de águas residuais.

“Sobre o mau uso por parte dos outros emissores de efluentes, a Câmara tem um papel que qualquer cidadão pode ter, que é o de fiscalização e denúncia. Não temos nenhum tipo de tutela, no sentido de sermos nós a controlar”, esclarece.

ETAR de Penso | Foto: CM Melgaço

Um dos problemas mais ‘bicudos’ do município ao longo dos últimos anos tem sido insuficiência da ETAR [Estação de Tratamento de Águas Residuais] de Penso, prestes a entrar em funcionamento após intervenção. A anterior estrutura deficitária dará lugar a “uma das mais modernas no Alto Minho, com capacidade muito considerável para o que é hoje necessário no município”, sublinhou o autarca, garantindo que a nova estação de tratamento já está preparada para receber o caudal das duas Freguesias vizinhas (Penso e Alvaredo), do actual e do futuro parque industrial e das adegas instaladas que optem por esta via de tratamento de efluentes.

“Outros emissores serão alguns dos produtores de vinho de maior dimensão do nosso município, que tem, em princípio, condições de tratamento dos seus efluentes”, observou Manoel Batista.

O autarca aponta ainda alguma incapacidade da empresa Águas do Norte na gestão eficaz das estações de tratamento em alta, cuja gestão lhe está entregue. “Neste Verão houve momentos em que uma das ETARs [em alta, gerida pela Águas do Norte] estava muitíssimo mal, não funcionava, praticamente fazia descarga directa no leito do rio e nós o que fizemos foi um alerta imediato”, assegurou o edil de Melgaço, garantindo que exigirá à empresa de gestão de estações em alta o zelo que diz manter na restante rede sob gestão da autarquia.

“Fazemos isso na nossa rede e exigimos que a empresa Águas do Norte o faça naquilo que é o seu trabalho, mas tememos que essa capacidade nem sempre seja a melhor. Por isso mesmo é que o município tomou a decisão, que passou por reunião de Câmara e pela Assembleia [Municipal] – relativamente gestão da rede de distribuição de água e saneamento em baixa – de que esse serviço ficasse connosco, porque sabemos que garantimos qualidade, que somos capazes de fazer bem e a um preço mais baixo do que o desta ideia que está a ser montada, de uma empresa no Alto Minho, para essa resposta. Este ano tivemos provas de que aqueles que querem fazer melhor, não fazem, nem de longe nem de perto, tão bem como nós fazemos”, atirou o autarca.

João Martinho

[texto publicado na edição impressa de Dezembro 2018 do jornal “A Voz de Melgaço”]