Despesa mensal acima dos 30 mil euros inviabiliza Termas de Melgaço em época baixa

Há tubos em corrosão, equipamento obsoleto e facturas de peças que nunca chegaram a ser instaladas, diz nova gestão

 

A apresentação do momento de viragem na história das Termas de Melgaço já teve várias datas.

Em 2013, o primeiro grande momento da nova fase das termas, após profunda intervenção no balneário, o então Presidente da República, Aníbal Cavaco Silva, marcou presença na inauguração das instalações, com honras de placa, mas o chefe de Estado não quis ficar com o mérito nela gravado para a posteridade. “Quem fica com a placa é aquele que inaugura, mas talvez devesse merecer mais apreço aquele que a põe a funcionar, que a torna rentável e a contribuir para a melhoria das populações”, referiu no acto inaugural. Nos anos que se seguiram, o apreço a que Cavaco Silva se referia ficou por atribuir. As épocas termais não chegaram a afirmar-se como se perspectivava e o grupo Casais, parceiro na Empresa Municipal Cura Aquae até 2017, não chegou a rentabilizar o activo termal do complexo.

Termas de Melgaço | Balneário

A 14 de Julho de 2017, o Grupo Pinto da Costa & Carriço Lda, apresentou-se à imprensa e comunidade em geral enquanto novo parceiro integrante da Cura Aquae, EM (51% pertencentes ao Município, 49% ao Grupo Pinto da Costa & Carriço) para a gestão do complexo termal, e a proposta era arrojada: Manter o balneário e restantes valências abertas todo o ano. Não havia memória recente de uma estratégia assim, nem com tal celeridade. A data de arranque da época estava agendada para o dia 17 do mesmo mês.

No entanto, as surpresas começaram a surgir depois, como asseguram os gestores Ricardo Ferreira e Carina Pinto da Costa, em entrevista ao jornal “A Voz de Melgaço” após o fecho temporário, até Abril de 2019, por falta procura desta estância termal que viabilize a despesa em época baixa.

Até se chegar a este encerramento do balneário, quebrando a promessa panfletária avançada em 2017, viveram-se duas meias épocas que não encheram as medidas – nem os bolsos, segundo os gestores do Grupo Pinto da Costa & Carriço – sobressaltadas por constantes falhas de equipamentos e uma despesa mensal na ordem dos 30 mil euros para manter os serviços em funcionamento “em época alta”, isto é, com temperaturas mais elevadas.

 

Carina Pinto da Costa, CEO do Grupo Pinto da Costa e Carriço Lda

“Como em qualquer serviço que não tenha suficiência em termos de aderência para manter todos os serviços activos, percebemos que não tinha sentido estar a ter os custos de toda uma equipa laboral a funcionar quando não temos procura nesta época baixa. Não fechamos as Termas, fechamos apenas aquilo que é óbvio, porque apesar de a Cura Aquae ser uma empresa municipal, é gerida por uma empresa privada. Não é a Câmara, não são os contribuintes que assumem a despesa a cem por cento. Se fosse uma empresa municipal gerida por recursos municipais, eu acredito que as pessoas não quereriam ver o seu dinheiro mal gasto. Não sendo, sendo uma empresa privada, também temos essa mentalidade”, explica Carina Pinto da Costa, CEO do Grupo.

 

Ricardo Ferreira, CEO do Grupo Pinto da Costa e Carriço Lda

 

“Fomo-nos adaptando. Não era nossa intenção fechar nesta altura, mas o balneário não tem a procura que as pessoas acham que tem”, refere por sua vez Ricardo Ferreira, o gestor que também dá nome ao grupo investidor.

 

 

 

“Achamos que haveria bom senso e ética, acabou por não haver”

Além da falta de mão-de-obra e à baixa procura da estância, somaram-se “todos os problemas inerentes à má estrutura do balneário”. O edifício de boa aparência e tubos inox reluzentes escondia problemas técnicos que empurravam as facturas para valores que surpreenderam os novos gestores, chegando a gastar 8000 euros de gás em quinze dias, para manter a temperatura do circuito da piscina e climatização do restante balneário nos meses de Verão. “A facturação em época alta, com várias pessoas a frequentar o balneário, não colmatava sequer as despesas básicas de manutenção”, sublinham.

O que é que falhou, no momento de garantir que o Balneário e restante equipamento estavam em boas condições de funcionamento? Aparentemente, “bom-senso e ética”, garantem os gestores.

“Foi-nos feita a passagem de que estava tudo em condições. Quando chegamos aqui, o balneário não estava em funcionamento, nós só vimos aquilo que dava para ver. Parecia bem conservado, tinha boa aparência, não andamos a ver se os canos tinham ferrugem ou não”, diz Ricardo Ferreira.

A boa-fé, segundo revelam, acabaria por passar-lhes para a mão uma série de eventos inesperados. “Se fosse uma venda entre privados, teríamos tido outra cautela. Assim, achamos que haveria bom senso e ética, que acabou por não haver. Depois de estarmos dentro, apuraram-se responsabilidades que nem sequer eram nossas, porque eram consequência do que tinha sido feito no passado”.

“Até contas atrasadas, que estavam facturadas em nome da Cura Aquae e que não tinham sido pagas, tivemos de pagar, senão nem fornecedores teríamos para trabalhar connosco. Além de termos a dificuldade em ter gente para trabalhar connosco, porque já havia a fama de serem maus pagadores, e nós levamos com isto tudo”, revela Carina Pinto da Costa.

“Quando descobrimos a dimensão do problema, já tínhamos as Termas abertas. Tínhamos reclamações todos os dias porque de manhã a água estava quente, a meio da manhã estava fria e de repente voltava a aquecer. Havia equipamentos completamente descontrolados que causavam um gasto excessivo de energia e obrigava a que outros equipamentos funcionassem de forma errada”, explicam.

Tecnicamente difícil, mecanicamente quase impossível. Uma observação especializada descobriria mais tarde que alguns equipamentos eram “obsoletos” e outros… Fantasma. As facturas emitidas à altura da instalação revelaram, segundo Ricardo Ferreira, que “milhares” de equipamentos que não chegaram sequer instalados ou sequer entregues nas instalações.

“Tivemos que chamar os técnicos que fizeram a construção porque conheciam melhor o circuito, que nos alertaram para um conjunto de problemas técnicos que já tinham sido comunicados na altura a quem cá estava, mas que fizeram ouvidos moucos. Portanto fizeram-se as coisas para estarem abertas, não para funcionar”, atira Ricardo Ferreira. “Colocaram-se equipamentos novos, mas obsoletos. E se na altura eram novos mas obsoletos, agora são velhos e obsoletos”.

A surpresa das ausências surgiria quando os novos gestores procuraram responsabilizar a anterior concessionária pela garantia de alguns equipamentos.

“Eles tinham de fornecer a garantia de alguns equipamentos que aqui estavam, portanto ficamos nas mãos deles, à espera que assumissem a garantia. Houve coisas que assumiram, outras não, porque acharam que não deveriam assumir. Aparentemente, as coisas deveriam ter sido feitas de outra forma, eles insinuaram sempre que entregaram [os equipamentos] e a Câmara na altura aprovou, portanto se estava aprovado é porque estava tudo bem. Certo é que faltavam equipamentos, que estão facturados mas não constam. Há centenas de milhares de equipamentos facturados que não estão aqui”, assegura o director executivo do Grupo Pinto da Costa & Carriço.

 

Terá sido face a um moroso processo de troca de correspondência entre a actual e anterior concessionária que a época termas, que se previa estar resolvido a tempo da abertura, na Primavera de 2018, reabriu em contra-relógio em pleno período balnear, sem uma campanha que realmente a fizesse notar.

“Não foi possível porque havia um conjunto de equipamentos que não nos foi entregue a tempo e horas. A própria Casais teve atrasos consideráveis porque dizia que não dependia deles, mas dos fornecedores. Temos dezenas de e-mail’s que provam isso”, diz Carina Pinto da Costa, lamentando que o interesse mediático em torno da actividade das termas não se tenha efectivado no usufruto desta valência para a saúde no concelho.

“Era algo de extrema importância para os melgacenses, mas não vimos ninguém da oposição [política local] nem os que criticam, nenhuma dessas pessoas veio fazer um único tratamento termal. O senhor Vítor Cardadeiro queria mandar todos os diabéticos do mundo para aqui e ainda estou à espera que ele os mande! Ou só se preocupou com a saúde quando estava na tentativa de ser eleito? Ele próprio é uma pessoa que, só pelo seu aspecto físico, precisa de ajuda, e não bebe água!”, considerou a CEO.

 

A abertura “a medo” em plena época balnear, durante a qual ainda se faziam testes, trouxe até ao complexo um público essencialmente proveniente da vizinha Espanha “na ordem dos 80%”, mas longe de sustentabilizar as despesas da plena abertura.

“Não há parcerias, não há relação com as pessoas da própria terra, nem dinâmica. As termas funcionam por si só, assim. Se não houver uma ligação entre todos, nem nós podemos ajudar possíveis parceiros locais, nem eles nos ajudam a nós. O único parceiro local que até tem tido um trabalho simpático connosco é o Centro Hípico de Melgaço”, confessa Carina Pinto da Costa.

 

Tubos corroídos por falta de manutenção é problema a longo prazo

O aspecto exterior dos equipamentos, que terá iludido os investidores de que bastaria apenas ligar a energia para fazer tudo funcionar, escondia uma série de problemas a longo prazo, como notam os responsáveis do grupo Pinto da Costa & Carriço.

Segundo a avaliação técnica, a água parada nos canos e a falta de utilização frequente, ainda que apenas de manutenção, terá provocado alguma corrosão na tubagem, que a breve trecho terá que ser substituída. “É algo que não se consegue ver, mas que nos vai dar algum trabalho para substituir”.

“A Casais quando fechava não tinha ninguém a fazer manutenção a todas as torneiras para evitar, não só a água estagnada, mas também possíveis infecções bacteriológicas. Nós, mesmo com o balneário fechado, temos uma equipa que todas as semanas põe o circuito da água a funcionar e a qualquer momento estamos em condições de abrir. Se o senhor Vítor Cardadeiro ou alguém quiser mandar camionetas de pessoas para vir fazer tratamento, é só avisar-nos com dois ou três dias de antecedência, que nós teremos tudo preparado para funcionar! Mas obviamente que, pela lógica, não se justifica as termos o balneário aberto, porque temos uma despesa mensal acima dos 30 mil euros”, sublinha a CEO, Carina Pinto da Costa.

Em funcionamento regular, em época de utilização plena, os equipamentos terão de estar ligados “24 horas”, notam os responsáveis. “Os mecanismos estão todos interligados. A água da piscina é aquecida por um equipamento que trabalha a gás e electricidade. Se estiver desligado, não aquece inclusivamente a água das torneiras e dos chuveiros, portanto, mesmo que só se use o serviço de massagens e se precise de água quente nos chuveiros, vamos ter de usar o equipamento que faz o aquecimento da piscina, do ar e de toda a estrutura”, esclarecem.

Desta forma, a despesa de 30 mil euros, calculada em época balnear, poderá ser maior nos meses mais frios. “Temos facturas da EDP de 7 mil euros, fora o gás, que é entre os 10 e os 15 mil, mas depende da afluência de pessoas”, notam.

Desta forma, e em período de reajustamento da estratégia, dizem-se menos “iludidos” do que à altura da chegada sobre a sustentabilidade de toda a estrutura, se dependente apenas do interesse dos locais. “O ano passado, pensamos que sim. Depois, com a constatação de que estamos sozinhos aqui, não, porque todos os meses temos de injectar dinheiro”.

Parque e Bar das Termas de Melgaço

Bar das Termas: Exploração anterior “não pagava nada e ainda deixou dívida de 3000 euros!”

Após a integração da nova gestão na Cura Aquae, o Bar das Termas, um dos novos atractivos do parque, passou também a ser gerido pelo grupo Pinto da Costa & Carriço, inviabilizando a exploração que até então mantinha aquele estabelecimento aberto porque, segundo os empresários, “a concessão não permite subconcessões”.

O que, como questionam os gestores, deixa a situação do anterior explorador do espaço sem margem para entendimento legal. “É algo que não se entende. Como é que está aqui uma pessoa que não consta em lado nenhum, nem como sendo um funcionário nosso [da Cura Aquae] nem como empresa?”.

“Temos ouvido críticas de que expulsamos ou queríamos aumentar o valor da renda à pessoa que explorava o bar. A pessoa que estava aqui pagava zero! E deixou-nos dívidas, porque não pagava telecomunicações, não pagava energia, renda, nada”, sublinham.

“Facturava para a Cura Aquae, não pagava as facturas, mas foi embora com todo o material que dizia que era dele e não pagou absolutamente nada, e nós para podermos abrir tivemos de pagar mais de 3 mil euros de dívidas do senhor”, esclarece ainda Carina Pinto da Costa.

 

Sobre a sustentabilidade desta valência do parque das Termas de Melgaço, que o grupo promete manter em funcionamento mesmo em época baixa, dizem que também aqui o esforço continua a ser da empresa.

“A facturação do Bar, em Setembro, foi de 800 euros. Não paga um funcionário sequer. No mês de Agosto, que é quando há muito mais gente em Melgaço, foi de 2 mil euros. Por isso, é muito bonito as pessoas darem palpites quando são pessoas que não têm negócios, porque se tivessem saberiam que isto são decisões puramente empresariais. E pelo que sei há gente por aí a dar palpites que são gestores tão maus que até levaram negócios da família à falência. Nem deviam dar palpites”, retorquiu a gestora.

 

Novo hotel é para avançar. “Se vai ser daqui a um ano ou dois, é um problema nosso”

Imagem 3D do projecto do Boutique Hotel do Peso aspecto dos quartos)

Os percalços do balneário termal e o arranque algo tímido das duas últimas épocas levaram os investidores a avançar com outros tempos de implementação dos projectos. A intervenção no antigo hotel do Peso, cujo projecto foi apresentado ainda em finais de 2017, poderá não avançar com a celeridade que inicialmente se poderia entender.

“Nós fizemos uma aposta puramente empreendedora aqui em Melgaço. Começamos pelas termas, e acreditamos que um hotel iria alavancar o restante. Ainda não construímos o hotel porque não é inteligente da nossa parte, com as termas ainda nesta circunstância, estar a avançar com um investimento de mais de 5 milhões de euros, seria um suicídio económico. Se vamos construir o hotel, vamos, se vai ser daqui a um ano ou dois é problema nosso”, reitera a CEO do Grupo Pinto da Costa & Carriço.

Carina Pinto da Costa manifestou ainda o seu descontentamento com as críticas a que a sua empresa e o projecto termal tem estado sujeito e considera que a “perseguição política” consegue apenas “desmotivar” os potenciais investidores no concelho. “Se as pessoas falarem muito, construímos zero! Porque começa a deixar de ser interessante um investidor apostar numa terra, com pessoas tão medíocres constantemente a deitar abaixo quem vem para aqui gastar dinheiro. Desmotiva qualquer investidor”.

“Estamos cansados da perseguição política, que as pessoas julguem e critiquem sem perceberem de gestão e acima de tudo, pessoas que criticam e que querem ver isto tão bem, mas não venham cá”, remata a gestora.

Texto: João Martinho
Imagens: AVM/CM Melgaço/Divulgação

Termas de Melgaço

 

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  1. […] a parceria na empresa municipal Cura Aquae – ao jornal “A Voz de Melgaço” (que pode ler AQUI) fez-se sentir e o teor das declarações proferidas foi um dos temas da Assembleia Municipal do […]

  2. […] da esquerda à direita. As declarações de Carina Pinto da Costa e de Ricardo Ferreira ao jornal Voz de Melgaço deixaram os deputados da Assembleia Municipal a ferver. São ambos diretores do Grupo Pinto da […]

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