Histórias de Vida “Lá de Riba”: Duas tradições alto-minhotas do tempo frio

Na publicação de Dezembro da rubrica Histórias de Vida lá de Riba, de Alda Barreiros e Maria Alves, recordamos duas tradições outrora enraizadas na cultura de Riba de Mouro, mas também um pouco por todas as povoações rurais alto-minhotas.
A reza do pão, que era feita sobre a massa ainda na masseira, para que levedasse mais depressa (mas não azedasse!), antes de ir a cozer ao forno; e o cebar dos porcos, cuja matança geralmente se fazia nos meses frios. além do frio, um conservante natural, a carne do porco era guardada em salgadeiras (ou seca) e consumida durante os meses de Inverno… 

 

Reza ao pão

A farinha milha, a mastura, o fermento da fornada anterior, uma suadela para amassar, três horas para levedar, o forno (de pedra) bem aquecido e tapado com bosta, duas horas a cozer e parece estar lançado o segredo para “uha boua fornada de pon” mas… Não chega.

Logo depois de amassar, prepara-se a massa para levedar. Quando estiver devidamente amanhada, faz-se-lhe uma cruz com a mão, ao mesmo tempo que se reza:

“Xan Mamêde te lebêde, Xan Bicente t’acrecente, Xan Joan te faça pão, Deus noxo Xinhor te ajude, que eu já te fiz tudo que pude. Por a graça de Deus e da Birge Maria, um Padre Noxo e uha Abe Maria.”

Agora sim, está garantido.

Nota: Mesmo que o processo tenha sofrido alterações, em algumas das poucas casas onde ainda se faz broa cá por Riba, a reza não pode faltar.

reza ao pão

Cebar o porco

Diziam os antigos que “Um porco, pra xer bô, ten que comer duas cereijas”. Quer isto dizer que tinham que estar na corte do lavrador duas épocas de cerejas (um ano) e depois mais 6 meses até aos Santos, altura de os matar.

Eram comprados ainda leitões entre junho e julho e por isso se dizia que “No xantiago, cabeça e rabo”, ou seja, eram comprados tão pequenos que quase só tinham cabeça e rabo. A partir daí eram mantidos a “coubas”, cocos, cozedalho, labadura e farelo da fornada durante um ano e meio.

“As coujas antigamente xabian milhôr! Nun xei xe era da fome, porque xe paxaba muita nacidade, mais que tudo nos xabia milhôr, ixo xabia”. A nacidade talvez ajudasse mas que o sabor desta carne devia ser único devia. 

A maioria dos lavradores criava dois ou três porcos. Era praticamente a única carne que comiam. “As bacas criabam-xe pra tarabalhar, num era pra comer. Galinha xó por festa, por doença ou cando as mulhêres tinham um canalho que comiam trinta”.

– Bás arrinjar Roja?
– Bou, mais aqueles demónios num me quêren a farinha da caja, xó da da lojia.
– O meu tamén nun come nada. Botei-le maçans rabianas e decerto cortarem-le os dentes q’agôra num me quêr a labadura. Coubas tamén nôn, mais côcos entê os bêbe.
– Os meus, a um deu-le o gripo mais já le botei mi ben binagre e agôra esta milhôr. A ber xe xe me ceba. Foçam-me a côrte toda. Aminhán, xe estibêr um bocanho, bou roçar uhas gabelas de tojo brabo pra la estrumar.
– Tchama Tone pra te le meter um arganêl q’eles num foçam mais.
– Puis la terá que xer!

 

cebar o porco