Centro de Apoio ao Doente Oncológico em risco de não poder acompanhar utentes

“Se não tivermos apoios, teremos de deixar de prestar alguns serviços”

 

Apresentado publicamente em 2016, na Fonte Principal das Termas de Melgaço, o Centro de Apoio ao Doente Oncológico (CADO) de Melgaço poderá ter em risco o apoio e serviços que ao longo dos últimos dois anos tem garantido a mais de uma dezena de utentes do concelho.

A sustentabilidade, face às despesas mensais, estimadas na ordem dos 500 euros, é agora a principal preocupação da fundadora da associação solidária, Catarina Malheiro.

Ao longo deste período de actividade, a associação já promoveu uma campanha de crowdfunding para a aquisição de uma viatura, que ficou aquém do montante definido (pouco mais de 16 mil euros) para realizar o anseio. Perante o objectivo gorado, os voluntários chegaram a realizar o transporte dos doentes para os tratamentos semanais no IPO do Porto ou serviço de Oncologia do Hospital de Viana do Castelo na sua própria viatura, mas a despesa avultada acabaria por determinar a entrega desse serviço aos bombeiros locais.

Em termos de apoios, a associação conta com uma verba da Câmara Municipal de Melgaço e com a colaboração de apenas seis – Vila e Roussas, Alvaredo, Paderne, Gave, S. Paio e Prado e Remoães – das treze Freguesias ou Uniões de Freguesias do concelho.

A redução do apoio da autarquia à associação no ano de 2018, para “quase metade” do que tinha recebido no ano transacto, em contraponto com o aumento de utentes do serviço, conduziu ao sufoco que aquele apoio social está a viver.

A funcionar nas instalações do antigo quartel dos Bombeiros Voluntários de Melgaço, o CADO apoia actualmente dez pessoas com doenças do foro oncológico. Ao longo da sua missão já viram partir alguns dos seus utentes, mas também já foram chegando novos pedidos de apoio a esta lista que a associação garante tratar com a maior discrição.

 

“Vamos buscar medicamentos à farmácia, ou dar-lhes a medicação em casa, em alguns casos. Quando são pessoas com alguma idade e estão medicadas com morfina, é preciso mudar-lhes os selos ou dar as gotas de morfina, porque há a probabilidade de se enganarem e a morfina é bastante perigosa. Temos voluntários que também vão fazer as compras, quando os doentes estão mais debilitados”, conta Catarina Malheiro.

No entanto, a responsável diz que a associação está a lutar pela manutenção do serviço “com o que tem e o que não tem” e só a colaboração mais activa de entidades e comunidade local poderá sustentabilizar a continuidade deste apoio. “Ou recebemos mais apoio por parte das Juntas de onde são os nossos utentes, ou da autarquia, ou temos de deixar de fazer o transporte, porque não temos verbas, não conseguimos”, atentou.

“Melgaço tem uma população envelhecida, que tem filhos ou familiares longe, a maior parte em França, ou no Porto. Há pessoas com carência familiar em termos de apoio e nos damos este apoio, muitas vezes diário, quando as pessoas estão mais fragilizadas depois de uma sessão de quimioterapia. É esta ferida que tem de ser tocada, as pessoas não podem fazer de conta que em Melgaço não existe isto”, apontou ainda Catarina Malheiro.

Catarina Malheiro, fundadora do CADO, na apresentação pública da associação

 

“Nunca poderemos pensar o trabalho do associativismo alavancando-o apenas numa fonte de rendimento”

 

Questionado pelo jornal “A Voz de Melgaço” acerca do corte considerável no apoio ao CADO em 2018 – em 2017, a autarquia atribuiu uma verba de 4500 euros, em 2018 atribuiu cerca de 2500 – o presidente da Câmara de Melgaço, Manoel Batista, indicou que o próximo orçamento para 2019 poderá reajustar para outros valores o apoio à associação, após o “ajustamento” feito em 2018.

“Temos um enorme respeito pelas associações e pelo trabalho que fazem no nosso município. Eu próprio venho da área associativa, no passado tive desempenhos na área do terceiro sector, sei o que é esse trabalho. Não houve nenhum retrocesso naquilo que consideramos ser o mérito do trabalho da associação. O CADO faz um trabalho excepcional de acompanhamento dos utentes com problemas do foro oncológico”, notou o autarca.

Sobre os cortes, Manoel Batista diz que foi necessário “fazer um ajustamento neste ano, precisamente neste esforço que temos feito, de aumentar o leque de apoios às associações. Este ajustamento foi feito porque o ano passado, como era o primeiro ano da associação, sentimos que teria uma maior necessidade, não só na sua gestão operacional, mas também naquilo que era a componente de investimento”.

Ainda assim, o autarca admite não fechar a porta a novo ajuste, atendendo às necessidades da associação. O Orçamento Municipal para 2019 terá em consideração “rubricas orçamentais para voltar a ter condições de apoio às associações”.

Apesar de assumir parte do compromisso, o autarca diz que o associativismo é também “um desafio à sociedade civil” e que outras entidades e empresas devem ser chamadas a participar neste projecto.

“Nunca poderemos pensar o trabalho do associativismo alavancando esse trabalho apenas numa fonte de rendimento, seja da Câmara Municipal ou outra entidade, tem de haver um envolvimento grande de toda a sociedade civil. O desafio é também de outros organismos, como as Juntas de Freguesia, ou a população em geral. A Câmara nunca se esquivará àquele que é o seu compromisso. Tivemos aqui uma pequena redução, mas com certeza no próximo ano [2019] poderemos ter uma nova atenção para esta associação, mas que temos de alargar a outras associações”, observou Manoel Batista.

 

João Martinho

(texto publicado na edição impressa do jornal “A Voz de Melgaço” de 01 Janeiro 2019)