Abel Marques: “Programação cultural está a envolver mais a comunidade” mas há “falta” na organização da visitação ao património edificado

 

Desde Junho de 2017 que Abel Marques, responsável pela programação cultural, espaços museológicos e Porta de Lamas de Mouro, tenta incentivar novos públicos a sair à rua, participar em actividades culturais ou simplesmente festivas (embora estas encerrem também na sua génese alguma manifestação cultural), do concelho de Melgaço.

O seu propósito e o da equipa que o acompanha nestas realizações era “apostar na dinamização da programação, introduzindo actividades novas e dar outra visibilidade às que já existiam”, e assim se fez. Desde a data de início, o programa cultural de Melgaço adicionou à sala agenda o “All Music Fest”, um festival alternativo de música made in Portugal, desenvolvido em parceria com o município de Ponte da Barca, que traz a Melgaço seis concertos (um em Outubro e os restantes entre Janeiro e Maio) de sonoridades que marcam a diferença no panorama nacional e nas noites musicais do Alto Minho.

Estreou-se também em 2018 o Mercado Medieval, inserido na programação “Melgaço em Festa” para a primeira quinzena de Agosto e que traz de volta a vertente medieval que outrora o concelho tinha como referência nas suas festas concelhias.

A “Noite dos Medos”, já com duas edições, a Passagem de Ano Mais a Norte, o programa “Cultura Mais Mulher” ou as jornadas de património cultural “Reditus”, foram algumas das novas apostas para revitalizar ou reforçar a vertente cultural local.

Das dinâmicas que apelam à participação popular, como é o caso da Noite dos Medos, do Entrudo ou da estreia do Mercado Medieval, o interesse da população faz-se sentir nas ruas, por “sorte” ou “estratégia” de promoção acertada, como aponta Abel Marques, a verdade é que se em algumas o lançamento é auspicioso, noutras pede-se o comprometimento dos parceiros que também assumem a missão de promover o concelho.

As jornadas culturais de património REDITUS, apesar do “destinatário específico” e sem intenção de dinâmica popular, procurando apenas informar os serviços de atendimento ao público e os alunos das escolas do concelho, poderá no futuro envolver as empresas de animação turística que colaboram com a componente cultural do município, em programas próprios de visitação aos espaços museológicos.

Sobre a aparente falta de programas de visitação ao centro histórico do concelho, com rota pelo património edificado e guia turístico que crie o interesse de grupos nesta vertente, Abel Marques diz que essa será uma preocupação e oportunidade que compete às empresas de animação turística explorar.

“Mas será que o movimento o justifica? Será que a procura desse tipo de produto é suficiente para uma empresa de animação apostar nessa área? São questões que não posso responder agora, mas notamos essa falta, também”, considerou, salvaguardando o papel que as entidades públicas e privadas devem ter no território.

“No desenvolvimento sustentável, um dos princípios é o desenvolvimento integrado da parte pública, da parte privada e da comunidade local. Mas cada um tem as suas funções e nós, como parte desse princípio, não pretendemos substituir os privados, não vamos cortar-lhe essa fatia. É como as visitas, ou trilhos pedestres, nos não o vamos fazer, porque para isso estão as empresas privadas. Este pode ser um desafio, insistirmos nessa parte, mas para implementarmos com as empresas”, reiterou.

A iniciativa REDITUS volta a 12 de Abril de 2018 e desta vez irá explorar o tema do contrabando, orientando a acção de promoção, com dinâmica de rua, para o espólio e histórias do espaço museológico Memória e Fronteira.

 

Saber o quê, quando e onde

Além das exposições permanentes, que são base temática, os espaços museológicos do concelho mudam esporadicamente as telas ou materiais em destaque, visando proporcionar uma experiencia nova aos visitantes mais frequentes.

No entanto, a divulgação das novas exposições temporárias peca ainda pela forma forma utilizada para chegar – ou neste caso, por não chegar – ao público eventualmente interessado.  

“Posso reconhecer que poderíamos ter mais acções de promoção ou divulgação dos espaços, mas tem-se feito sempre que há uma exposição nova. Muitas vezes é por outros canais” nota Abel Marques, defendendo por outro lado a especificidade de algumas matérias, como é o caso da Porta de Lamas de Mouro, uma das cinco portas do Parque Nacional Peneda-Gerês, cuja estratégia de promoção tem tido em atenção o público escolar.

 

“O parque de merendas da Porta de Lamas de Mouro é o melhor. Até para o turista de garrafão”

Sobre a simbólica porta do Parque Nacional da Peneda-Gerês (PNPG) situada em Lamas de Mouro, Abel Marques garante que esta “segue muito bem os princípios idealizados no projecto e insistiu muito na educação ambiental”. “Pode à partida parecer que é um trabalho apenas direccionado para as escolas, mas é um trabalho que acaba por ter um efeito de informação e comunicação que tem retorno”, assegura.

Mas, além da vertente pedagógica, as portas do PNPG são ainda “centros de recepção que funcionam como triagem da visitação” que agradam a quem quer saber mais sobre o parque ou apenas relaxar um pouco.

“Na minha opinião, dos parques de merendas que conheço, o melhor é o de Lamas [de Mouro], pelas condições e o contexto natural. Uma das funções das Portas do PNPG, que é talvez um modelo copiado do americano, do Yellowstone National Park (criado em 1872), é serem filtros, segurar o turista que pode não ter interesse nos valores naturais do Parque Nacional, da fauna e da flora, e criar condições para que esse turista, designado de ‘garrafão’, se possa fixar na entrada. Por isso é que digo que a Porta de Lamas segue com rigor o que foi definido na criação do projecto”, sublinha Abel Marques.

Mas é enquanto responsável pela programação cultural que considera haver franca evolução no envolvimento da comunidade local. Mesmo nas mais populares, embora de inspiração venha de outros países, há sempre “um toque endógeno” que aproxima os locais.

Por isso, naquele que foi um auspicioso regresso de Melgaço à época medieval e às recriações históricas que nos últimos anos ganharam novo fôlego – e o concelho “não foi caloiro” deste tipo de recriações com a edição de 2018 do Mercado Medieval – Abel Marques pretende que a edição de 2019 conquiste novos máximos na missão de “envolver ainda mais a comunidade, seja através dos produtos locais que se enquadrem nesta temática, seja na envolvência dos comerciantes da vila de Melgaço”.

Para já, é certo que esta era uma das iniciativas que tinha deixado mais saudades por entre locais ou visitantes, outrora frequentadores da Ceia Medieval. Estará o município a encontrar o equilíbrio no programa cultural e popular que derrube o argumento ‘parece-que-falta-qualquer-coisa” que a população apontava?

João Martinho
(texto publicado na edição impressa de 01 de Fevereiro do jornal “A Voz de Melgaço”)

 

 

Em Lamas de Mouro. Turismo?