Histórias de Vida ‘Lá de Riba’: “Levar a vaca à feira” e “Talhar o ‘lixo'”

 

Levar a vaca à feira

 Levar uma vaca à feira e fazer um bom negócio era o regalo de todo o lavrador. Já por isso se dizia: “Bale mais um dia de feira de qu’on mês de laboeira”.

– Jajus, mulhêres, ele bós end’ ides caras a baixo desta hora? Lubade-la à feira?
– Imos ber xe a bendemos. Ja nun emprenha bai pra dous anos e tê-la xó pra limpar os poulos nun adianta.
– Ná, temén eu digo, ficando matchorras nun dan rendimento. E já nun bai pra noba.
– Esta ben está, esta ja ê mais belha de q’a xalba rainha.
–  Mais ela há couja de três mejes nun andou levantada?
– Andou berroeira uha tempada mais lubamo-la ó boi e nun pegou.
– Ná, que x’amôle, nun dando rendimento, hai que as despatchar.
– Puis ê, e o ti Zé d’Arroteia diz que binha hoje e que nos trazia uha toura noba que ja ben amanxada. A ber…
– Pronto, ide la entôn que está axi esta mormaceira e x’ê precijo desmeidia bem pra’í uha treixada q’alaga tudo.
– Pois, por mor dixo ê que nós imos agôra e tamén nun contamos de ficar entê ós ferretchos.
– Ide entôn cum Deus!

 

Talhar o “lixo”

Segundo nos contaram, quando alguém tinha o rosto com muitas borbulhas, pontos negros ou outras marcas que deixavam a pessoa com a “fachada” menos apresentável, procurava-se uma talhadeira para tirar esse “lixo”.
O ritual consistia no seguinte: A talhadeira levava a pessoa à corte dos porcos e levava também a vassoura (de giesta) de varrer a casa. Já na corte, ia passando a vassoura na pia dos porcos e na cara da pessoa, alternadamente, e ia dizendo:

“Lixo catuxo, xai-te daqui; c’o a baxoira de barrer a casa, na pia dos porcos te barro a ti. A conxonte eu hoje comi e bubi, axi tu hoje fiques tolheito aqui, por a graça de Deus e da Birge Maria, um Padre Noxo e uha Abe Maria!”

Repetia-se três manhãs seguidas, em jejum.