O mercado local não teme “a ilusão” dos grandes retalhistas

Supermercados garantem qualidade e já se preparam para o regresso consciente da nova geração ao pequeno comércio


Radar, Supermercado Carla, Pegue e Pague e Nova de Melo são alguns dos estabelecimentos de venda de produtos de mercearia na vila de Melgaço que não estão associados às marcas de referência nacional. Alguns já estiveram, outros mantêm apenas a cadeia de fornecimento, mas preferem assumir uma imagem própria e criar as suas próprias campanhas e selecção de produtos.

Estes exemplos contrariam a tendência de consumo das novas gerações e asseguram que conseguem criar um cabaz familiar mais económico do que as sonantes estratégias publicitárias das grandes superfícies, que acabam por estimular o consumidor a “gastar mais” e a um “desperdício” de recursos. Mas, numa altura em que o paradigma mudou o conceito de convívio, as grandes superfícies são, mais do que um mercado, a nova Praça, onde se vai para “ver e ser visto”.

Quanto à qualidade, os responsáveis dos supermercados que gerem a sua própria montra e escolhem os fornecedores, garantem que a qualidade é superior e com mais vantagens de preço. Tendo em conta a qualidade e poupança que dizem garantir, quisemos saber o que estão a fazer para cativar os clientes mais jovens, para que a nova geração assegure a continuidade destes negócios em que “ter a loja organizada e a mercadoria para vender” já não é suficiente.

 

Radar: “Estar do lado de quem compra na hora de fazer as contas”


Há 29 anos que Maria Clara é a responsável e o rosto do Supermercado Radar. Ao longo das quase três décadas de loja aberta numa das principais artérias da vila melgacense, a comerciante teve de renovar a montra, negociar os melhores preços e sobretudo “dar sempre razão ao cliente”, mesmo que às vezes os argumentos sejam discutíveis.

Supermercado Radar

 Primeiro em nome individual, depois em sociedade, Maria Clara teve de fazer várias modificações para que o ‘seu’ Radar fosse de facto do Êxito, tal como se identifica fiscalmente.

Os anos de experiência na praça comercial do concelho ensinaram a empresária a “estar do lado de quem compra, na hora de fazer o cálculo dos preços”. “É o que me compete. Se fizer um bom negócio com um fornecedor, sabendo que eles sacrificam a margem deles e nós fizermos o mesmo, o cliente vai beneficiar porque vai encontrar um leque de produtos a um preço apelativo”.

Atenta às promoções e ao público mais jovem, que tem nas redes sociais uma fonte de informação para decidir o que e onde comprar, Maria Clara diz que “a necessidade económica obriga-os a estar mais atentos”, mas não manipula ou tenta moldar os hábitos de consumo.

“Sempre que se faz uma promoção, faz-se naquilo que o cliente gosta de comprar e não naquilo que lhe queremos vender. Não podemos mandar no gosto, podemos é sugerir e incentivar a que façam a experiência. E o cliente só o faz se o produto for bom ou tiver um brinde, um mimo”.

Mas a mudança não pode estar apenas na montra, considera Maria Clara. Os trabalhadores também têm que estar bem com a sua função, sentir gosto pelo serviço que presta e ver reconhecido o seu esforço, quando pedido. “O comércio peca muitas vezes porque tem os funcionários a cargo e em vez de os incentivar a terem gosto pelo trabalho que fazem, fazem com que eles sintam vontade é que o dia acabe depressa. Aqui, já há dez anos que temos máquina de picar o cartão. Por vezes, por motivos pessoais, as funcionárias podem ter pressa mas atende-se o cliente e depois vamos embora. Contudo, sabem que todos os minutos extra são somados e são pagos. Se faz falta, trabalham mais tempo, mas também recebem”, sublinha.

Diz que nunca temeu a pressão das grandes ou médias superfícies próximas. “Se soubermos respeitar o cliente, será sempre nosso”.

E o que resulta para cativar os consumidores mais jovens? “O que chama os mais novos é o factor preço/qualidade do produto. Não adianta estar a apresentar um produto novo, com melhor preço, mas com menos qualidade”, esclarece.

E para que a sintonia seja perfeita e não perca a corrida, apresenta os seus preços nas redes sociais e em folheto mensal (excepto Janeiro e Setembro) e uma quase diária ao e-mail, onde recebe as melhores propostas de preços do produtos que são a primeira escolha do seu cliente tipo.

 

Supermercado Carla: “Há uma concorrência que faz bem a todos”

 Há 18 anos que Carla Lima está a gerir o supermercado, hoje com o seu nome como marca identitária. Já esteve associada a uma cadeia de distribuição alimentar internacional, mas assegura que saber gerir melhor as promoções e o que vender no seu contexto comercial do que uma plataforma de vendas que organiza as promoções consoante o que quer escoar, sem atender às especificidades regionais de um país que não tem os hábitos de consumo uniformizados.

Imagem: Facebook da página “Supermercado Carla”

“Quando comecei a trabalhar aqui, bastava termos a loja organizada e a mercadoria para vender, porque estava praticamente vendida por si só, não era preciso muita estratégia”, notou a responsável.

A crescente oferta de superfícies comerciais e média e grande dimensão obrigou os comerciantes locais a modernizarem-se para sobreviver, mas nem tudo foi mau nesse processo de coexistência, assume Carla Lima, sem querer adivinhar o futuro. “Há uma concorrência que faz bem a todos. Temos que nos reafirmar e procurar soluções, apostar no asseio das lojas e na apresentação das coisas. Esta concorrência até certo ponto é salutar, não sabemos até quando. Poderá chegar a um ponto em que se torne insuportável”.

Hoje um supermercado, mesmo com vocação de venda para a sua comunidade, precisa de apostar nas redes sociais e inclusive agregar outros serviços. Carla Lima quis que o seu espaço comercial fosse também um ponto de pagamento de serviços payshop e até do streaming Netflix, para cativar novos clientes.

“Aguentar o pequeno comércio implica termos capacidade de mudança e sabermos que se por acaso não conseguirmos suportar, ser versáteis para podermos fazer outra coisa qualquer. Porque o pequeno comércio não é moda, as pessoas gostam de ser vistas, alguns mercados são como uma passerelle”, observou a gerente.

Num momento em que o conceito de convívio social trocou a praça pelo Facebook, Carla Lima diz que a nova forma de aparecer e os apelos de consumo tornam os consumidores de hoje menos atentos à poupança.

“Se calhar não têm noção do que amealhariam no final do ano, se fossem ao pequeno comércio”, diz a gerente, notando que o contexto em que a camada jovem foi criada dificulta o processo de consciencialização para a poupança. “Não orientamos os nossos filhos para serem autónomos. Muitas das pessoas daqui da zona não tiveram necessidades, não ponderam preços. Um dia, quando tiverem de desenrascar-se por si próprios, vai-lhes ser mais difícil”.

Apesar da tendência de consumo apostar menos na qualidade do que se põe à mesa e mais no que se veste ou se mostra, Carla Lima diz que o mercado local tem de trabalhar a ideia de preços competitivos, sem perder a qualidade que lhe é característica. “No Natal, há pessoas que vem cá de propósito para comprar o polvo e o bacalhau porque sabem que é bom”.

“Gostava que as pessoas fossem mais bairristas, deixassem aqui o dinheiro. Eu própria faço aqui as minhas compras, não sei se as pessoas acham bem ou se sou palerma”, sublinha, contestando a ideia de dinâmica económica que as grandes superfícies comerciais criam nos concelhos onde estão instaladas.
“Não estão a gerar riqueza e estão a criar uma falsa expectativa de gente nas vilas. Não vão deixar aqui nada. As pessoas que estão a trabalhar nessas grandes superfícies são menos do que as que estavam a trabalhar no comércio local”.  

Dedicada em apostar num mercado diversificado e atractivo para diferentes tipos de clientes, Carla Lima vê com agrado uma maior afluência de turistas espanhóis. “Temos de aproveitar melhor isso. Eu tenho produtos típicos daqui e lembranças, porque também eu, quando visito algum sítio, quero trazer de lá uma lembrança. Mas nós temos tanta coisa para ver, para sentir, para fazer, e muitas vezes isso não chega às pessoas”, confessa a comerciante, que diz já ter sido ponto de informação a inúmeros turistas. Talvez a localização, à porta do centro histórico da vila, seja vantagem nesta procura informativa – e também de lembranças – de quem procura o concelho para visitar.

 

Peque e Pague: Nas grandes superfícies “é tudo uma ilusão, as pessoas acabam por voltar”

Pegue e Pague

Manuel Alves assume a marca Pegue e Pague há doze anos. Bem perto do Chafariz da rua da Calçada, a imagem é replicada em foto de média dimensão no interior do estabelecimento que nunca saiu da esfera da gestão familiar.

Está associado a uma rede nacional de retalho, mas nunca saiu do contexto do comércio local, que foi renovando para atrair novos clientes. É também nas redes sociais e num folheto quinzenal que promovem o seu negócio, sem perder a proximidade que cultivaram ao longo dos anos.

A faixa etária mais jovem não é actualmente a mais expressiva, mas asseguram que os clientes mais fidelizados, os que até “mandam mensagens a pedir o cabaz de produtos habitual”, gostam desta relação de confiança. “Às vezes a pessoa senta-se ao pé da caixa e não sai dali, pede o habitual, paga e mete as compras no carro”. E quando assim não é possível, facilitam ainda mais o processo, e levam a casa as encomendas recebidas por telefone.

Como ponto forte da sua proximidade – se a relação com o cliente não for já considerada uma vantagem – garantem a frescura dos legumes. “Três vezes por semana chega o carro dos legumes e tento comprar tudo o que tenha o mínimo de produtos químicos, a produtores da região”, garantem.

Sobre a pressão das grandes marcas de retalho, dizem que conseguem viver vem com essa pressão por terem como trunfo o equilíbrio de preços “Aquilo é tudo uma ilusão, é tudo muito mais caro. Tem uma promoção quinze dias a bom preço, mas depois é tudo mais caro e as pessoas acabam por voltar ao comércio tradicional”, conclui Manuel Alves, garantindo ainda não ter perdido os seus clientes frequentes para nenhuma das propostas aliciantes das retalhistas de expressão nacional e internacional.

João Martinho

(texto publicado na edição impressa de 01 de Março do jornal “A Voz de Melgaço”)