Festival de cinema documental de Melgaço é a primeira vítima da ‘ditadura’ do politicamente correcto na região

“Filmes do Homem” é agora MDOC por temer “questões de género”

 

O Festival Internacional de Documentário de Melgaço, conhecido até à edição de 2018 essencialmente como “Filmes do Homem”, mudou de nome e é talvez a primeira vítima da ‘ditadura’ do politicamente correcto no rol de iniciativas culturais do Alto Minho.

Enquanto evento agregador em torno da arte, o festival de cinema documental de Melgaço não quis “ferir susceptibilidades” e cedeu aos alertas de quem considerava o nome anterior ‘algo sexista’ num momento em que a sociedade está especialmente atenta às questões de género.

Em 2019, já sob o epíteto MDOC – Festival Internacional de Documentário de Melgaço, o evento que celebra o cinema documental reforça a sua vocação internacional – embora já o fosse, quer pela recepção de filmes a concurso, provenientes de todo o mundo, quer pela apresentação de uma versão ‘portátil’ do festival já feita no Brasil – mas também se livra das críticas relacionadas com as questões de género e identidade.

“Houve alguma resistência ao nome, por se achar que ele poderá ser sexista. Daí a necessidade de um nome mais abrangente, que foque menos nesta questão do Homem, porque há sensibilidades a esse nível, e houve uma série de pessoas que foram dando nota da necessidade de fazer este ajuste”, explicou o presidente da Câmara Municipal de Melgaço, Manoel Batista.

O autarca considera que, “embora o Filmes do Homem era um nome que já soava”, a nova designação “rapidamente se afirmará”.

“Quem somos os que aqui estamos?”
Foto: MDOC

“Quem somos os que aqui estamos?” – Freguesias de Prado e Remoães em estudo social

De resto, o festival continuará fiel ao seu programa. O evento organizado pela Câmara Municipal de Melgaço e pela Associação AO NORTE, continuará a “promover e divulgar o cinema etnográfico e social, reflectir com os filmes sobre identidade, memória e fronteira, e contribuir para um arquivo audiovisual sobre o território”.

Além das sessões âncora enquanto festival, como é o caso da mostra dos documentários candidatos ao prémio Jean Loup Passek, que terão sempre como tema central a identidade, memória e fronteira; há ainda o Curso de Verão Fora de Campo e o Plano Frontal, a residência cinematográfica e fotográfica que a cada edição do Festival produz documentários e projectos fotográficos sobre a região.

“Quem somos os que aqui estamos?” é talvez – a par dos trabalhos realizado no âmbito do Plano Frontal – o projecto que interroga o “espaço geográfico e a sociedade local”. E talvez o que mais pede a colaboração da população residente e ali retratada enquanto elemento activo e protagonista.

A União de Freguesias de Prado e Remoães Prado é a comunidade abordada no trabalho de campo realizado sob coordenação de Álvaro Domingues, produção executiva de Rui Ramos e colaboração de Albertino Gonçalves, Carlos Eduardo Viana, Daniel Maciel, Miguel Arieira, Daniel Deira e João Gigante.

Depois e Parada do Monte e Cubalhão em 2018 – que ainda tem material para mostrar este ano – é a vez das localidades ribeirinhas se submeterem a esta análise atenta.

“Entre a Vila e as termas do Peso, pelas terras baixas do vale do Rio Minho, Prado e Remoães constituem-se como um conjunto de lugares espalhados ao longo de três vias: a mais antiga, provavelmente de origem romana, liga igrejas paroquiais e a velha capela de Stº Amaro; a segunda é uma estrada moderna por onde, no séc. XIX, se pensou construir a linha férrea de Monção a Melgaço; a terceira é uma via rápida recente. (…) O rio Minho corre encaixado entre penedos e pesqueiras e, por vezes, depósitos de coios, os seixos de pedras polidas que a corrente foi moldando. Ainda há lampreias. Nas margens abruptas e no primeiro patamar de terra vermelha e pedregosa, estão os baldios, terras de mato e pastagem por longos tempos já passados. Hoje há hotéis, centros hípicos, equipamentos desportivos e escolas superiores.

Porque foi mais a gente do que a terra durante séculos de agricultura de subsistência, aqui também se emigrou, particularmente para o Brasil e, mais tarde, para França ou mais além”.

A apresentação da comunidade em ‘estudo’, constante do site do festival, explica também as vertentes realizadas no âmbito desta recolha de testemunhos, nomeadamente: Registo audiovisual – Fotografia Falada; exposição de fotografia documental, a inaugurar na Casa da Cultura de Melgaço durante o MDOC; um catálogo sobre a exposição de fotografia documental; recolha e digitalização de fotografias de álbuns familiares de habitantes de Prado; exposição de fotografia a partir dos álbuns familiares, a inaugurar no antigo edifício da Escola de Prado e uma publicação sobre o trabalho realizado.

“É muito bom que o festival entre na comunidade, traga conteúdos para Melgaço, gente de fora, pelos conteúdos que somos capazes de trazer, mas envolver as pessoas na produção de conteúdos e documentos que ficam e são fundamentais para a nossa história e para o nosso património imaterial” destacou Manoel Batista, apesar as “resistências” que ainda se fazem sentir.

“É um produto que vai ter sempre resistências muito grandes, que vão sendo quebradas aos poucos. É algo de que as pessoas se começam a orgulhar, mas é uma resistência difícil de quebrar, mesmo ao nível político”, observou ainda o autarca, que defende esta aposta cultural do concelho desde 2014.

João Martinho

(texto publicado na edição impressa de 01 de Julho do jornal “A Voz de Melgaço”)