“Ilha do Sal, meu ouro branco” – Experiência médica em Cabo Verde

Parti para a ilha do Sal, Cabo Verde, a 29 de Março, com duas amigas médicas. Fui cheia de receios, mas com sentido de missão e espírito aberto.

Partimos com o intuito de ajudar, mas rapidamente percebemos que éramos nós que estávamos a ser ajudadas, a compreender a pureza da partilha e a ter a experiência mais gratificante das nossas vidas. À chegada, chocou-me a noção de tempo que ali se vive. O tempo passava devagar. Não existem sinos, relógios, não se ouvem sirenes, badaladas nem despertadores. Não há a constante lembrança que o tempo corre. Não existe pressa, a rapidez é muito relativa. A vida é ao ritmo de cada qual, não há ritmos impostos.

A manhã chegava com a luz a entrar em nossa casa (as cortinas não isolavam a luz natural) e o nosso relógio biológico parecia alinhar-se com a natureza. Embora acordasse cedo, nunca acordava cansada ou com sono.

Com a manhã, começam também os latidos. Os cães, donos de si e donos das ruas do Sal, arrastam o lixo deixado debaixo das palmeiras, à espera de ser recolhido. Brigam, rosnam… mas no fim dá para todos. No Sal, aquele local abençoado, tudo dá sempre para todos. Entretanto, o senhor do colete amarelo vem limpar, por entre pregões de peixe e barulho de chinelos a bater no chão. Ficava sempre tudo limpo e por isso tudo bem. O dia começava.

Levantávamo-nos e íamos para o Centro de Saúde de Santa Maria, iniciar a jornada de trabalho diária. A realidade era díspar, mas ao mesmo tempo tão semelhante. O médico estava para servir qualquer cidadão que necessitasse dos seus serviços e que tirasse a senha numerada, no início da manhã. As consultas sucediam-se até às 15 horas, sem pausas. O volume de doentes era desarmante.

Para meu espanto, a sala de espera era silenciosa, sem reclamações nem posições menos respeitosas. Sempre que vinha à porta chamar o próximo paciente, lá via um ou outro cão sentado aos pés do seu dono, acompanhando-o. A tranquilidade dos doentes e a sua resignação à espera pela sua vez causava-me estranheza e até me incomodava, por ser tão rara na nossa realidade portuguesa.

Não existem computadores, nem relógios, como se o tempo não fizesse parte da equação. Cada um tinha o tempo que precisava, tanto o doente como o médico. Mais incrível ainda é que todos eram consultados e saíamos sempre a horas. Fantástico alinhamento entre o tempo que não se contabiliza, mas que é adequado às necessidades.

Realizei pela primeira vez uma Consulta Aberta com o objectivo pela qual foi pensada – doença aguda com necessidade de consulta no próprio dia. Aliás, muitos dos doentes precisariam de consulta mais cedo, mas tinham esperança de melhoria. Ninguém queria estar doente, nem tirar benefícios desse estatuto. Uma grande diferença que me chocou. Nunca, durante cinco semanas, ouvi um utente dizer: “Eu sou uma pessoa muito doente”… e alguns eram-no, de facto.

As consultas eram faladas em crioulo, o que constituiu mais um desafio delicioso. Ali, as pessoas percebiam bem o Português, mas tinha que simplificar a linguagem para que a relação e conversa fossem eficazes. E a vontade de tratar e a de ser tratado fazia com que a consulta decorresse sem sobressaltos. O diálogo e as mãos eram os meios dos quais dispúnhamos e, sem relógio nem computador, senti que a relação médico-doente existia na sua verdadeira essência.

Contudo, é uma realidade diferente: Há pessoas jovens com HIV e outras doenças sexualmente transmissíveis, um grande número de gestações na adolescência, Tuberculose de forma endémica e alcoolismo pesado.

Nunca senti, perante isto, tanta utilidade na minha prática diária. O Sal constitui um sítio privilegiado para a prática da educação para a saúde e intervenção comunitária. A gratidão pelos ensinos prestados é impagável. Todos os dias saía do trabalho com a sensação de ter feito diferença na vida de alguém. Relembrei diariamente o motivo pelo qual tinha escolhido ser médica.

Prescrever medicação é um processo difícil. Não há computadores, por isso o prontuário terapêutico passou a ser o meu melhor amigo, como auxiliar de memória. Iniciava a prescrição em papel e a enfermeira interrompia constantemente com: “Não vale a pena receitar essa medicação, cá não há”; “não passe isso porque cá é muito caro e ninguém compra”; “o seguro não cobre”, ou então “está esgotado na ilha”.

Dúvidas e dúvidas. Inicialmente, a revolta por saber que não estava a oferecer o melhor. Aceitava e engolia a ansiedade e até a compaixão que sentia e passava a receita. O doente agradecia esticando a mão, mas sentia que um carro me passava por cima, até aprender a aceitar que era assim e era eu que tinha de me adaptar… Não estava ao meu alcance mudar certas realidades.

Os recursos humanos e materiais são parcos. Faltam médicos e não existe capacidade económica para realizar exames complementares. Chocou-me que praticamente ninguém estudasse a função tiroideia e que a realização de uma Densitometria Óssea, Espirometria ou Ressonância só se encontrava ao alcance de doentes abastados o suficiente para viajar até à ilha de São Vicente e pagar pelo exame.

Incrivelmente e talvez pela escassez de medicamentos ou de recursos para os comprar, os doentes aceitavam bem e cumpriam as alterações no estilo de vida propostas. Senti que eram muito predispostos, mais ativos e que preferiam mudar a vida do que levar uma receita para casa.

Assim passei cinco semanas da minha carreira médica e principalmente da minha experiência enquanto pessoa. Com a escassez de livros, internet e sem televisão, levando banhos de gente, aprendendo um dialecto novo, apreciando a natureza, a música e o diálogo desinteressado e genuíno.

Brinquei na rua, dei abraços, recebi mimo, fiz juras de voltar. Recebi obrigados por tudo e por nada, dei e recebi tanto amor, sei que dei saúde, eduquei e de certo modo também me curei e me orientei.

Lidar com tantas diferenças em tantas áreas, principalmente na saúde, torna-nos engenhosos e mais audazes. A satisfação e sensação de dever cumprido nunca foram tão reais na minha vida como nestes momentos.

A ilha do Sal encerra em si uma essência que é difícil de exprimir, mas que devia ser obrigatória de sentir por todos. Talvez assim a valorização do nosso quotidiano fosse maior, e o respeito pela vida e a entrega ao próximo fosse mais real.

O Sal é hoje a minha segunda casa, por tudo o que me deu. Voltarei.

Alexandra Táboas, Dra.