[Re]começar: Quando emigrar passa de necessidade a oportunidade

Primeira parte:  Quando emigrar passa de necessidade a oportunidade

 Para muitos venezuelanos, o acto de viajar passou de algo prazeroso para uma necessidade. O que antes significava conhecer lugares, novas culturas e pessoas, converteu-se em saída à crise para procurar algo tão simples e a que todos temos direito: Uma melhor qualidade de vida.

Saí de Venezuela há cerca de um ano, com uma mala cheia de ilusões, medo, tristeza e até felicidade, mas acima de tudo, muito optimismo.

Deixar a família, amigos e tudo aquilo pelo qual se luta durante anos é tremendamente difícil e entender que essa é a melhor decisão a tomar demora a assimilar. Mas, era sair de todo aquele caos ou ter que chegar ao ponto de não poder comprar alimentos nem produtos básicos para a minha filha.

A crise económica no país crescia a cada dia, a hiperinflacção absorvia o salário dos venezuelanos, entre eles o meu, que com um ordenado só podia adquirir três produtos da cesta básica [cabaz de bens de primeira necessidade].

Ver morrer crianças em hospitais por falta de medicamentos é o ‘pão-nosso-de-cada-dia’ em Venezuela. Miúdos desnutridos por falta de alimento, pessoas nas ruas a irem a pé para o trabalho – eu fiz parte dessa população – era uma realidade que não estava disposta a continuar a viver.

Motivei-me, empreendi a grande viagem, com a minha filha. Nova horas de voo, quase 16 num aeroporto, sem saber falar português, dominando medianamente o inglês…  Mas finalmente chegámos ao nosso destino: Melgaço.

A minha preparação em Venezuela (além do jornalismo, profissão que me apaixona) foi entender como sobreviver à adaptação a outro país sem me deixar quebrar. Li muito sobre como ultrapassar os processos emocionais e de adaptação, mas como dizem, nada é como é até que o vivas.

Chegamos e era realmente maravilhoso o que via: Paisagens, natureza, cultura, clima… Um misto de emoções. Por momentos não acreditei que estava na Europa, o primeiro mundo, como chamam os latinos.

Logo ao fim de uma semana consegui um emprego, graças ao apoio de muitas pessoas e familiares, mas estava acostumada a trabalhar frente a um computador e esta oportunidade era algo completamente diferente, que nunca tinha feito. Começar do zero é uma fase assustadora, mas que realmente nos mostra os erros do passado e nos faz melhorar como pessoa.

Comecei no novo trabalho a 27 de Junho (2018), no dia em que se comemora o Dia do Jornalista em Venezuela. Fui bem-disposta e com vontade de aprender, mas com muito medo de não entender nada.

Os primeiros dias foram complicados, mas desde o início trabalhei com dedicação e a dar o melhor de mim e ainda hoje o faço. Entendi que Deus nos põe nos lugares certos, para que possamos crescer. É primordial ver o lado positivo das coisas, isso é sem dúvida o que nos levanta e nos torna melhores pessoas.

Esse é o momento de quebra, pelo qual nós, os emigrantes, passamos. Damo-nos conta de que a nossa realidade é outra, de que estamos a experienciar coisas diferentes e que é ali que começa a luta: O processo de adaptação, entender que não estamos de férias, mas sim a começar uma nova vida. Deixamos de ser o Director, o Gerente ou o Coordenador que éramos no sítio de onde nos erradicamos e passamos a ser apenas nós mesmos.

Estou convencida de que o truque e única forma de avançar sem morrer no processo é sermos optimistas e ver o lado positivo em tudo. Nós os venezuelanos somos gente trabalhadora, lutadora e que não se rende perante uma oportunidade. Aproveitamo-la para continuar a crescer assegurando-nos de que, onde quer que estejamos, fazemos o bem.