“Temos de criar esta dinâmica de gostar daquilo que é nosso”

Casa do Povo de Melgaço apresenta Grupo Etnográfico onde a história do seu povo é estudada ao detalhe

 

O atelier de Rosa Maria, no Centro de Artesanato com o mesmo nome, localizado em Prado (Melgaço), é um dos importantes centros de criação para aquele que será a breve trecho, um dos grupos de folclore minhoto mais fiel às suas raízes e ao concelho que representa.

Uma das ‘jóias da coroa’ do Grupo Etnográfico da Casa do Povo de Melgaço, com data de apresentação agendada para o dia da Festa do Emigrante (16 de Agosto), será um vestido de noiva que Rosa Maria tem vindo a aperfeiçoar há alguns meses.

Mas a história que lhe está na origem tem décadas. Um dia cederam-lhe o vestido para tirar as medidas e estudar o exemplar, com todos os pormenores. A réplica que se verá está há cerca 25 anos no álbum de projectos da artesã – uma recolha rica também em imagens e outros apontamentos que por si só deviam ser considerados património cultural – e tem por base uma peça com mais de 90 anos de história.

A artesã Rosa Maria e o traje em projecto

O mesmo acontecerá com os padrões, cores e até o tipo de tecido usado nos trajes. Nada foi deixado ao acaso, nem preterido em prol de um conjunto de encher o olho, de vermelhos a contrastar com verdes ou preto a servir de contraste com cores garridas.

“Todos os trajes que vamos ter é com base nos trabalhos de pesquisa de trajes de Melgaço. Não vamos usar as imagens comuns, com as cores fortes, de vermelhos ou da lavradeira de Viana. Aqui não havia essa tradição”, esclarece Fernando Pereira, presidente da Direcção da Casa do Povo de Melgaço e coordenador desta equipa de trabalho que já trabalha em várias frentes.

A suportar as teses do que agora se fala está a pesquisa de vários professores experimentados no trabalho de investigação e registo do passado dos povos: Valter Alves [autor do blog “Melgaço, entre o Minho e a Serra” e da rubrica “Viagens Nesta Nossa Terra”, publicada neste jornal] e Álvaro Domingues, antropólogo.

Como suporte, Fernando Pereira vai fazendo algumas incursões ao passado através de importantes registos em papel que se revelam fundamentais para a construção do retrato final, como é o caso do livro de Ruth San Payo, “Tempos que já lá vão”, cujos textos são ilustrados com fotos de San Payo e por isso um valioso registo de acontecimentos e modos de vida de outrora.

 

“Um povo que não guarda as suas raízes, que não homenageia o passado, não pode ter futuro”

Traje
Foto do livro de Ruth San Payo

O avental às riscas, feito com lã de ovelha branca e castanha, sem recurso a tingimento, ou mesmo os padrões das camisas, tem em muitos casos como base de trabalho os ‘levantamentos’ que a máquina de San Payo fazia em genuíno retrato daquilo que à altura se usava e vivia.

Coube também a Álvaro Campelo grande parte do trabalho de procura daquilo que se poderá ver e ouvir. E nem sempre foi só abrir livros para resgatar toda a história. “Praticamente, começamos do zero. Nas zonas de montanha, em Castro Laboreiro, Gave e Parada do Monte, talvez por terem sido comunidades mais fechadas, tudo está mais preservado. Então começamos por lá, juntamos gente no centro cívico, falaram e colaboraram connosco”, indicou Fernando Pereira, enaltecendo o importante contributo de localidades e pessoas para este projecto.

“A nível de pesquisa, foi importante a ajuda de Castro Laboreiro, do professor Valter Alves e de Rosalina Alves. Mas a pesquisa não pára aqui, continua. Talvez consigamos introduzir mais elementos, creio que quando apresentarmos, vamos ter o interesse de mais gente”, perspectiva.

Desde Outubro de 2018 que começaram o ensaio das danças, sob a batuta de José Rodrigues, de Castro Laboreiro. No grupo de dançadores “há gente com vontade de aprender”, mas também já houve “gente que sabe dançar, mas não quer assumir o compromisso”. “Tem de ser um esforço de todos”, reforça Fernando Pereira.

O dirigente da Casa do Povo de Melgaço conta com satisfação o entusiasmo que os bailes mensais, organizados pela Casa do Povo, tem gerado nas comunidades vizinhas, recordando uma das chamadas à qual responderam “cerca de 80 pessoas provenientes de Paredes de Coura, Ponte de Lima, Arcos de Valdevez, Vila Nova de Cerveira e Melgaço”, naturalmente. “É gente que gosta”, enaltece.

Rosa Maria e Fernando Pereira, no atelier da artesã

Há ainda que fazer o registo da história do traje, dos cantares e das danças de Melgaço em todos os suportes que as tecnologias actuais permitam. “Queremos que tudo isto fique em áudio e escrito em livro. É importante até para o concelho, esta base de pesquisa” frisa Fernando Pereira.

De certa forma, o município apoia esta revisitação histórica, tendo já aprovado um subsídio “para a pesquisa e para os trajes” na ordem dos seis mil euros. “É um investimento caro, mas temos de criar essa base, esta dinâmica de gostar daquilo que é nosso. Um povo que não guarda as suas raízes, que não homenageia o passado, não pode ter futuro”.

João Martinho