As zonas industriais são necessárias? Verdadeiro, mas…

 

As zonas industriais ou zonas empresariais são essenciais em qualquer território que se queira moderno e amigo do crescimento económico, da criação de riqueza. Sem espaços devidamente preparados, com infraestruturas e acessos facilitadores da atividade empresarial, não podemos ambicionar atrair novos investimentos dinamizadores da economia local.

Mas serão estes espaços, estas zonas empresariais, novas e modernas, capazes de, por si só, influenciarem os empresários na hora de decidir onde localizar os seus investimentos?

 

Os fatores que pesam, na hora de um investidor decidir onde situar a sua empresa, são vários e a sua importância relativa também se vai alterando em função da conjuntura. Como referi, a existência de espaços com infraestruturas modernas e bem preparadas, aliada a uma boa localização geográfica, próxima dos mercados e/ou das principais vias de comunicação que ligam a esses mercados, são um fator com muita influência na tomada de decisão.

Os territórios lutam entre si, concorrem numa lógica de mercado, tentando convencer esses potenciais investidores da mais-valia da sua situação geográfica e da grande qualidade das condições oferecidas. E vão aproveitando os programas comunitários para conseguir financiamentos que permitam criar ou melhorar essas condições, ao mesmo tempo que investem em marketing, tentando evidenciar e divulgar toda a sua atratividade.

Seguindo esta lógica, as zonas empresariais vão proliferando por todo o país e a oferta de espaços com boas condições é abundante. Neste cenário, a disponibilidade de espaços adequados deixa de ser uma mais-valia suficientemente relevante para atrair os investidores.

A verdade é que, à cabeça dos critérios a ponderar na hora de decidir onde instalar uma empresa, vem a força do trabalho, a disponibilidade de mão-de-obra. É decisivo perceber se naquele território existe uma quantidade de recursos humanos disponível, suficiente para garantir o preenchimento do quadro de pessoal projetado.

Na atualidade, com taxas de desemprego historicamente baixas, este fator ganha uma relevância ainda maior, o que não beneficia territórios como Melgaço, onde esses valores se situam abaixo da taxa natural de desemprego. Quer isto dizer que a economia existente no concelho já absorveu todos os recursos humanos disponíveis.

Com esta realidade, qualquer empresa que pudesse vir a instalar-se no território, teria que tentar “roubar” trabalhadores às empresas aí existentes, o que criaria nestas um problema.

A solução passa por atrair mão-de-obra, por criar condições potenciadoras da fixação de população. Cabe assim aos responsáveis políticos locais perguntarem o que procuram as pessoas, o que precisam as famílias para se sentirem tentadas a fixarem-se nos seus territórios.

As famílias decidem onde viver e constituir família atendendo à oferta de emprego, mas também às questões de habitação, serviços de saúde, qualidade do ensino, entre outras.

Não raras vezes ouvimos falar da falta de oferta habitacional no nosso concelho. As pessoas ou famílias que aí pretendem fixar-se enfrentam sérias dificuldades no momento de encontrar casas ou apartamentos que dêem resposta às suas necessidades. É imprescindível atuar a este nível, promovendo o arrendamento, desenvolvendo novos projetos de habitação a custos controlados.

Ao nível da saúde, é verdade que tem surgido algumas respostas privadas responsáveis por alguma melhoria do cenário. Mas no que diz respeito aos serviços públicos, quer seja pela falta de profissionais no centro de saúde, quer seja pelos cem quilómetros que nos separam do hospital distrital, a realidade é muito adversa. Urge exigir políticas centrais que nos protejam.

É também sabido que, felizmente, as famílias dão cada vez mais importância à qualidade da educação dos seus filhos. E, gostemos ou não, concordemos ou não, o instrumento de medição ao dispor dos cidadãos, são os rankings das escolas, periodicamente publicados. O facto de os desvalorizarmos não é uma solução. Muito pelo contrário. Deve ser feito um trabalho conjunto, por toda a comunidade escolar, percebendo onde cada um dos intervenientes pode fazer mais e melhor, recusando aceitar que estar entre os piores é, para os melgacenses, uma inevitabilidade.

Como referido no início deste texto, as zonas industriais são essenciais. Mas essencial é também que venham inseridas em planos de desenvolvimento mais abrangentes, que acautelem uma série de fatores como os aqui referidos.

A criação de zonas industriais sem o necessário planeamento territorial, mais que um fator de crescimento, podem representar apenas um desperdício de recursos ou, pior, um fator de desestabilização, prejudicial à economia local, com todas as consequências negativas daí decorrentes.