Boletim Cultural Nº10: Um contributo rigoroso para a construção da História de Melgaço

No dia em que se assinalou o segundo aniversário de mandato e homenagem a cidadãos e instituições do concelho, a 26 de Outubro, foi ainda lançada a edição Nº10 do Boletim Cultural de Melgaço.

A publicação, com 307 páginas, editada pelo Município de Melgaço e coordenada por Abel Marques e Patrícia Meleiro, é um contributo para a construção da História de Melgaço, compilando em volume de leitura a colaboração de investigadores e pensadores de diversas áreas, de forma sistemática e rigorosa.

O Prof. Doutor José Marques, que assina nesta décima edição do Boletim Cultural dois importantes contributos, apresentou na sessão o importante informativo histórico do concelho.

A síntese temática de cada um dos artigos que integram este volume, que reproduzimos abaixo, elaborada pelos coordenadores do projecto, despertará certamente o interesse dos entusiastas da cultura e da história melgacense.

João Martinho

 

 

Em “O NORTE DE PORTUGAL ENTRE DOIS PODERES”, o prof. Dr. José Marques faz uma apreciação do poder eclesiástico e do poder civil do Norte de Portugal. Afirma que no território delimitado pelos rios Minho e Lima e pelo Atlântico e a nascente pela atual fronteira portuguesa, se encontra um conjunto de circunscrições administrativas e eclesiásticas coincidentes nos nomes e nos limites territoriais, que mergulham as suas raízes na divisão administrativa eclesiástica do Parochiale suevicum, de 569.

 

“O PALEOLÍTICO DE MELGAÇO: VESTÍGIOS ARQUEOLÓGICOS DOS PRIMEIROS HABITANTES DE CONCELHO”, da autoria de João Pedro Cunha Ribeiro, Sérgio Monteiro Rodrigues, Eduardo Méndez Quintas, Alberto Gomes, José Meireles, Alfredo Pérez Gonzáles e Manuel Santoja; é uma visita, com rigor arqueológico, ao paleolítico do Noroeste Peninsular.

Os autores começam por fazer uma contextualização do Homem do Paleolítico e instrumentos utilizados. Reflectem sobre os estudos/trabalhos existentes sobre os primeiros achados do Noroeste Peninsular.

O resultado de um destes trabalhos motivou o desenvolvimento de um projecto transfronteiriço (Miño-Minho), centrado no estudo conjunto dos vestígios arqueológicos existentes em ambas as margens do Baixo Minho.

Neste artigo, reflectem sobre a importância dos vestígios arqueológicos encontrados em Melgaço, pois distribuem-se uns, junto da margem do rio Minho, outros, a uma altitude de mais de 200 metros sobre o actual leito, testemunhando, portanto, a diversidade de estratégias de ocupação do território associadas ao homem de então.

 

“QUEM SOMOS OS QUE AQUI ESTAMOS”, de Álvaro Domingues; “DISPERSÃO”, de Daniel Maciel; “DAS REDONDEZAS DE PARADA DO MONTE”, de Ivo Poças Martins e “PEDRA E PELE”, de João Gigante são trabalhos resultantes do projeto “Quem Somos os que Aqui Estamos” de 2018, que teve como base de estudo a freguesia de Parada do Monte.

 

“O ABRAÇO AO DIVINO: A EXPERIÊNCIA PESSOAL E SOCIAL DA FESTA”, de Albertino Gonçalves, é uma reflexão do autor sobre as festas: a sua evolução na relação profano/sagrado; a relação da festa na aproximação/afastamento do divino com o humano; sua evolução no espaço e no tempo; o papel (determinante) do povo na realização da festa.

 

“DO MITO À REALIDADE: CULTO E SACRILIZAÇÃO DA ÁGUA NO ENTRE DOURO E MINHO”, de Carlos Alberto Brochado de Almeida, reflecte sobre os aspectos mitológicos relacionados com a água, desde as Civilizações Pré-clássicas às Clássicas.

Faz referência à sacralização das águas, nomeadamente das fontes, quer com passagens do Antigo Testamento, quer com passagens de escritos da época romana. O culto das fontes continuou ao longo da Idade Média, o que se pode aferir através da origem dos nomes de paróquias religiosas.

Também os rios foram tomados como paradigma de divindades que exigiam a atenção e o respeito dos humanos. O que levou à sacralização das travessias fluviais. Aqui o autor reflecte sobre a sacralização das travessias fluviais do Entre Douro e Minho. Atravessar rios era mentalmente complicado para quem acreditava que eles simbolizavam a separação entre o mundo dos vivos e o reino dos mortos. A formula encontrada pelas populações, rurais e não rurais, para dissipar ou pelo menos atenuar medos ancestrais, assentou em diversas premissas: apego a certos taumaturgos, edificação de capelas, a colocação de cruzeiros e a construção de alminhas.

No texto “REFUGIADOS E GUERRILHEIROS ANTIFRANQUISTAS EM CASTRO LABOREIRO (1936-1943)”, de Américo Rodrigues, o autor reflecte sobre as relações fronteiriças ocorridas durante a Guerra Civil de Espanha, em concreto, sobre o movimento de refugiados em Castro Laboreiro no período de 1936 a 1943.

Da investigação bibliográfica à recolha de testemunhos orais, identifica dezenas de refugiados que permaneceram na freguesia de Castro Laboreiro, georreferenciando locais (esconderijos, casas que serviram de abrigos…), assim como relata episódios ocorridos durante este período, causados por esta conjuntura político-social.

Considerando a importância da temática para Castro Laboreiro, o autor coloca algumas notas com sugestões de iniciativas que promovam a memória histórica dos refugiados e da sua presença na freguesia.

 

No tema “A EMIGRAÇÃO NO ALTO MINHO (1960-1965)”, os autores Ernesto Rodrigues Português, José Rodrigues Afonso, José Rodrigues Lima e Manuel António Domingues, fazem numa primeira fase a caracterização da emigração da década de 1960: Quem emigra, causas da emigração, consequências da emigração.

Numa segunda fase, os autores debruçam-se sobre a emigração clandestina, dando relevância ao caso do Alto Minho. Por último, é feita uma abordagem a esta emigração, mas aos olhos da imprensa regional.

 

O texto do Prof. Dr José Marques sobre as “VEREAÇÕES MUNICIPAIS DE MELGAÇO (24 SET. 1825 – 21 OUT. 1826) fecha esta edição cumprindo a tradição do Boletim.

Como já é habitual, o último artigo de todos os Boletins é dedicado às Vereações Municipais de Melgaço, e neste não podia ser diferente. Aqui podemos ter uma visão global das actividades das vereações municipais, como reflexo dos principais aspectos da vida concelhia, através da leitura das atas que enriquecem este artigo.